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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

23 de março de 2014 20h30

Armazenamento de dados cresce no País, mas carece de legislação

Objeto de discussão no Marco Civil, serviços de hospedagem e gerenciamento de informações se expandem no Brasil

Por Murilo Roncolato

Data center da Agência de Segurança Nacional (NSA), em Utah, inaugurado em 2013. FOTO: Associated Press

SÃO PAULO – Quais dos serviços que você usa na internet hoje sabem quem você é? Acessou o aplicativo de música usando sua conta do Facebook? Provavelmente ele já sabe mais de você do que o seu vizinho. O que você fala, faz ou produz na web são informações que te pertencem, mas nem por isso você sabe onde elas estão guardadas.

Dados são a moeda de troca da internet atual. Qualquer aplicativo pode começar a receber dados de dezenas de milhões de usuários em alguns dias de funcionamento. A empresa responsável em geral recorre a um terceiro para guardar e gerenciar esses dados com a segurança que prometem em seus contratos (aqueles que você leu e concordou antes de entrar).

Estes terceirizados são os chamados centros de dados, ou data centers. Apesar de normalmente ficarem localizados em edifícios gigantescos, para o usuário eles permanecem um elo invisível.

Os data centers frequentaram o noticiário esta semana por conta de sua presença no debate sobre o Marco Civil da Internet no Congresso. O projeto enfrenta oposição na Câmara. Entre os pontos debatidos, está o de exigir de empresas de internet mais robustas, como Google e Facebook, a instalação de data centers no País, em uma tentativa de se garantir mais privacidade e menos espionagem.

Outro projeto na pauta do governo é a Lei de Proteção de Dados Pessoais, que deve entrar no Congresso até o fim do ano e cuida dos usuários. A falta de legislação específica também não é bom para as empresas. Apesar de ser um setor em expansão, companhias estrangeiras que prestam o serviço ficam desestimuladas. Ao mesmo tempo, empresas nacionais que preciam guardar dados acabam fazendo isso no exterior, onde há legislação apropriada.

Servidores

Prédios que podem chegar a mais de 100 mil m², repletos de servidores, máquinas que vivem refrigeradas em câmaras controladas, sob atenção para nunca desligarem. Tanto cuidado se justifica quando se atenta ao fato de que as principais tarefas realizadas hoje na web se resumem a pessoas executando ou inserindo conteúdo em servidores.

Subiu um vídeo no Youtube? Ele está indo para um dos 12 data centers do Google, talvez no Chile, ou, quem sabe, em Singapura. Postou uma foto no Facebook? Ela vai ficar guardada em um servidor da rede social na Califórnia, às vezes na Suécia, ou nos dois lugares. Está no celular usando Vine, alugando um quarto no Airbnb, lendo no Flipboard, conferindo fotos no Pinterest? Em qualquer dos casos, você está navegando em um dos data centers da Amazon, possivelmente nos Estados Unidos. Checou a restituição do imposto de renda no site da Receita Federal? Você está exigindo esforço computacional de um servidor próprio do governo em Brasília ou em São Paulo.

Os data centers são um negócio altamente lucrativo e tendem a crescer muito nos próximos anos. Entre 2010 e 2013, os gastos com esses centros no mundo cresceram 24%. Mas o setor sempre esteve presente. A diferença é que antes cada empresa tinha seu próprio servidor. No fim do mês, a conta era alta, já que para gerenciar uma criatura dessas é preciso um lugar certificado, uma série de equipamentos de rede (muitas vezes importados), fonte de energia ininterrupta e pessoal qualificado. Com data centers, esse trabalho foi terceirizado. O acesso a esse conteúdo e seu gerenciamento de maneira remota – a famosa “nuvem” – é a cereja do bolo, dando flexibilidade e barateando o serviço.

“O cloud (nuvem) possibilitou que muitos negócios surgissem”, diz Tallis Gomes, fundador do aplicativo EasyTaxi, com conteúdo hospedado na nuvem da Amazon, nos EUA. “Servidor é muito caro. Antes, era difícil montar um negócio de tecnologia. Hoje isso não existe”, opina, lembrando que muitas startups já nascem alugando servidores virtuais.

Cezar Taurion, consultor que recente deixou seu cargo de evangelista (uma espécie de incentivador de adoção de novas tecnologias) na IBM, lembra o caso do Instagram, que quando foi comprado pelo Facebook tinha apenas 13 funcionários. “O dinheiro que você gastava com infraestrutura e pessoal, hoje você investe no seu negócio e reserva uma pequena parte para alugar servidor.”

“Ninguém tem que cuidar de infraestrutura, eu tenho que ficar livre dessa parafernalha, eu preciso gastar meu tempo cuidando da minha relação com meus clientes, pensando em novos modelos de negócio. Se eu lanço um produto, alugo um servidor virtual; se o negócio não der certo, eu cancelo o servidor. Fim”, diz Taurion.

O Brasil, que conta com empresas como Locaweb, Tivit, Alog, UOL, IBM, HP, entre outras menores, apresenta números robustos de gastos com nuvem em data centers. Segundo a Gartner, de US$ 1,43 bilhões, em 2011, o País deve saltar para US$ 2,64 bilhões até o fim deste ano. Um aumento de 84,6% em três anos. Em três anos, a previsão é de que essa cifra dobre. Para o diretor de pesquisas da Gartner, Henrique Cecci, no entanto, há uma série de barreiras a serem superadas por aqui, sendo uma delas a insegurança das empresas a migrarem para a nuvem e, a principal, os altos preços para se manter tais estruturas por aqui. “Enquanto aqui falamos de US$ 2,64 bilhões, nos Estados Unidos eles contam US$ 70 bilhões, é uma diferença gritante”, diz.

Para Camila Kamimura, gerente de marketing de produtos da Locaweb, o período de desconfiança do empresariado com serviços de TI está menor. “Quando lançamos o serviço em 2008, a demanda foi mínima. Mas de 2010 para cá, a base de clientes mais do que dobrou, chegando a cerca de 14 mil”, diz, listando empresas como Marisa, Sephora, Ipiranga e aceleradoras de startups como Aceleratech e Endevour entre as quais possuem contrato.

Localização

Uma das maneiras de se baixar preços no Brasil seria aumentar a concorrência, trazendo data centers para o País. Alguns se viram “obrigados” a vir, como o Netflix, que instalaram sua infraestrutura em São Paulo e pretendem ainda expandir seus centros de dados para o Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília.

“Em termos de privacidade, o fato de estar trafegando em redes de outros países pode ser um problema, já que há países coniventes com espionagem”, conta Milton Kashiwakura, diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). “Por este aspecto, não que a localização do data center importe, mas seria bom que ficasse aqui”, diz.

Para Taurion, a onde está o data center não importa. “Bytes não são físicos. Estar no quintal de casa não garante segurança. Quantas empresas fazem comércio eletrônico e você não sabe onde guardam seus dados? Com Amazon, Microsoft, Google e Facebook a moeda deles é a credibilidade. É como o banco. Você só acredita que tem dinheiro na conta porque o extrato te diz, mas você acredita.”