Além das ondas
- 31 de outubro de 2010|
- 18h00|
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Por Tatiana de Mello Dias
Três da tarde, Água Branca, São Paulo. A quarta-feira é ensolarada, e os corredores do prédio onde funciona a Fundação Padre Anchieta parecem alheios à movimentação do estúdio onde funciona a rádio Cultura Brasil.
Teca Lima, a apresentadora, se divide entre o microfone e a tela do computador, que usa para bater papo, ao vivo, com os ouvintes. Alceu Maynard, o produtor, coordena a chegada da entrevistada, a cantora Luísa Maita, ao estúdio. Ela será entrevistada ao vivo pelos dois e pelas centenas de pessoas que acompanham a transmissão em áudio e vídeo pela web.
Todo o conteúdo será gravado e disponibilizado livremente na rede. A cena reflete uma realidade: a era em que um fala para todos, está acabando. Agora todos falam com todos. E a rádio Cultura Brasil acaba de completar um ano tentando incorporar o aspecto colaborativo a um universo que é essencialmente de comunicação em massa.
Público. Derivada da rádio Cultura AM, que iniciou suas transmissões em plena Era de Ouro da rádio, em 1936, a Cultura Brasil é um projeto da Fundação Padre Anchieta que quer adaptar a rádio à era digital. A programação não é mais linear: o público opina e escolhe o que vai entrar, e grande parte do conteúdo produzido ao vivo fica disponível para ouvir depois sob demanda.
A mudança começou com o RadarCultura, um programa que surgiu há três anos, na então rádio Cultura AM, cujo propósito era deixar a programação nas mãos do público. Tudo. As pessoas faziam o papel dos programadores: escolhiam as playlists e disputavam por um espaço na grade. As sequencias mais votadas iam ao ar. O programa – aberto, horizontal, colaborativo – acabou virando modelo para todo o resto da programação.
O RadarCultura vai ao ar todos os dias, às 15h. São três horas de programação decididas na base do voto. Uma câmera no estúdio transmite em streaming a gravação do programa. E o público, acostumado à única interação possível com a rádio até poucos anos atrás – o telefone – abusa dos novos canais de comunicação. O programa tem um público fiel, uma comunidade que se encontra todos os dias, no mesmo horário, mesmo local, para ouvir música brasileira (o foco da rádio desde 1986) e conversar entre si e com a apresentadora.
Big Brother. Teca Lima já passou por várias rádios e está no comando do RadarCultura desde o início. Ela cantarola quase todas as músicas escolhidas pelos ouvintes e tira de letra a interação com o público pelo chat que acontece ao vivo, mas titubeia com a câmera. “Eu me sinto como se estivesse num Big Brother aqui”, brinca. “Poxa, foi justamente para não aparecer que eu escolhi fazer rádio”.
No bate-papo, um ouvinte que acompanhava o streaming não perdoou quando ela tomou um comprimido. “O que você tem?”, peguntou no chat. Era só uma dorzinha de cabeça, mas nada passa despercebido com tanta proximidade.
Enquanto músicas brasileiras tocam ao fundo, o público se encontra no chat para comentar o som, discutir política, falar amenidades. Teca faz parte deles. Ela os conhece e eles a conhecem. Alceu conta que duas ouvintes ficaram amigas pelo chat. Amigas mesmo, de carne e osso. “Elas até foram fazer um cruzeiro juntas”, conta.
Fetiche. “Historicamente, as rádios sempre tiveram um diferencial: o fato da pessoa se sentir íntima. O RadarCultura nada mais é do que uma rádio 100% nesse esquema”, diz Maynard.
Enquanto todos conversam, tocam as músicas mais votadas. O público as escolhe entre as 17 mil da programação da rádio e também pode sugerir novos artistas. Alceu diz que o sistema “movimentou e trouxe coisas novas” ao acervo da rádio.
Mas em tempos de internet, será que alguém ainda fica ansioso esperando que sua música favorita toque na rádio? Ele garante que o fetiche da rádio continua. “Normalmente o cara dá uma ideia e depois fica acompanhando a votação do público.”
São quase quatro da tarde e Maynard confere se está tudo certo para receber a cantora Luisa Maita. Ele chama o público pelo Twitter e pelo chat – começam a chegar as perguntas. Participam 3,5 mil pessoas por dia.
Luisa chega vestindo uma roupa casual, cabelo solto, sem maquiagem. A equipe avisa: tem uma câmera no estúdio, você está ao vivo na internet.
Luísa, cantora e compositora que acabou de lançar seu primeiro disco solo, Lero-lero, brinca: “Ih, não vim preparada!”.
A entrevista é intercalada pelas músicas votadas e pelos sons de Luísa, como “Alento”. Alceu e Teca se intercalam buscando as perguntas entre o público. A entrevista de Luisa, e suas músicas, ficarão disponíveis online após a transmissão.
O sistema de rádio sob demanda já é usado por muitas emissoras pelo mundo. Os programas viram podcasts que podem ser baixados. Estão disponíveis para download também mais de 100 versões exclusivas gravadas naqueles estúdios. “A rádio normalmente não tem esse comprometimento, o conteúdo se perde. A gente já está no AM, que tem pouco alcance, então havia uma certa frustração”, diz Alceu.
O programa acaba às 18h. O conteúdo fica disponível no portal Cultura Brasil, que também acabou de completar um ano. Uma ferramenta chamada Controle Remoto ajuda o público a navegar entre o streaming e o conteúdo gravado. A rádio ainda pode ser ouvida na grande São Paulo, AM 1200 khz, mas ganhou uma extensão maior. O conteúdo deixa de ser linear e efêmero e passa a ser customizado, gravado, sob demanda. É esse o caminho da rádio? Eles estão tateando, mas já conseguiram ir além das ondas AM.
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