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Quarta-feira, 01 de Outubro de 2014

03 de julho de 2014 20h25

Assédio sexual no Tinder reforça imagem de ‘clube do Bolinha’ em tecnologia

Segundo dados oficiais, 74% dos funcionários do setor nos Estados Unidos são homens

Por Agências

Alex Barinkas
Bloomberg News

Justin Mateen (esq.), Connie Anne Phillips (executiva de revista), Sean Rad e Whitney Wolfe em evento. FOTO: Getty Images

NOVA YORK – Uma ação judicial movida por uma executiva alegando assédio e discriminação numa popular empresa iniciante de propiciar relacionamentos está reforçando as sugestões de que o setor de tecnologia ainda é um “clube do Bolinha” inóspito para mulheres.

Whitney Wolfe, ex-vice-presidente de marketing do Tinder que se descreveu como cofundadora da empresa, disse numa ação judicial protocolada em 30 de junho que o cofundador Justin Mateen a menosprezou verbalmente e que executivos da companhia ignoraram suas queixas e não a reconheceram publicamente como cofundadora porque ela é uma “garota”.

O diretor presidente do Tinder, Sean Read, disse num memorando interno para empregados obtido pela Bloomberg News e confirmado pela companhia que as alegações estão “cheias de imprecisões factuais e omissões”. Rad e a companhia, e também a controladora IAC/InterActiveCorp, que também foi citada na ação, ainda não responderam em corte.

As alegações levantadas na queixa salientam a percepção do setor de tecnologia dos EUA como uma cultura dominada por homens e desfavorável para mulheres, segundo Scott Kessler, um analista da S&P Capital IQ em Nova York.

“Embora seja tentador descrever a conduta de executivos de alto escalão do Tinder como coleguismo de república de estudantes, foi de fato muito pior – representando o pior do estereótipo macho alfa misógino com frequência associado a empresas iniciantes de tecnologia”, disse Wolfe em sua queixa contra o Tinder, protocolada numa corte estadual em Los Angeles.

Rad, de 28 anos, disse em seu memorando que a empresa “não fez discriminação contra Whitney por idade ou gênero”, e que leva a questão da igualdade de gêneros muito a sério.

Rosette Pambakian, uma porta-voz do Tinder, baseado em Los Angeles, não quis comentar alem do memorando de Rad.

O Tinder foi criado há dois anos durante uma Hackathon (encontrou de programadores e outros envolvidos em computação) numa incubadora apoiada pela IAC do bilionário Barry Diller. Embora Wolfe estivesse na empresa desde o começo e tivesse sido reconhecida como cofundadora, Rad a privou de seu título quando ela fez 24 asnos, segundo a queixa. Wolfe disse na ação que foi sujeita a comentários, mensagens de texto e e-mails sexistas do diretor de marketing Mateen, 28 anos, e que suas queixas foram ignoradas pelo presidente Rad. Ela disse que foi obrigada a renunciar e está buscando indenização que inclui pagamentos retroativos e ações.

Mateen foi suspenso após o recebimento das alegações de Wolfe, na pendência da investigação interna em curso, disse Matthew Traub, um porta-voz do IAC.

“Com esse processo, ficou claro que Mateen enviou mensagens privadas a Wolfe com conteúdo impróprio”, disse Traub num e-mail. “Nós condenamos veementemente estas mensagens, mas acreditamos que as alegações de Wolfe com respeito ao Tinder e à sua administração são infundadas.”

Mateen não respondeu a um e-mail enviado para seu endereço de trabalho pedindo comentários sobre a ação de Wolfe.

As alegações poderão ter um impacto nos planos da IAC para o Tinder, segundo Kessler. O Tinder faz parte do Match Group que pertence à IAC, um segmento de negócios que foi separado numa unidade própria em dezembro, preparando potencialmente o terreno para um desmembramento dos serviços de relacionamento.
“Em função do que está ocorrendo com o Tinder, suponho que a IAC e a Match pensarão um pouco mais sobre prosseguir com isso nesta conjuntura”, disse Kessler.

Apesar de o telhado de vidro do setor de tecnologia estar sendo despedaçado por executivas de alto escalão como Sheryl Sandberg do Facebook e Marissa Mayer do Yahoo!, as queixas sobre igualdade de gênero persistem.

As empresas de tecnologia Google e Facebook reconheceram não faz muito tempo que as mulheres constituem até 30% e 31% de suas forças de trabalho, respectivamente, suscitando pressões no Vale do Silício pela contratação de mais mulheres e membros de minorias.

O Facebook e o Twitter foram criticados antes de sua oferta pública inicial por não terem mulheres em suas diretorias, e 74% dos trabalhadores americanos em ocupações matemáticas e computacionais, no ano passado, eram homens, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

O CEO da Snapchat, Evan Spiegel, pediu desculpa em maio por e-mails contendo obscenidades que ele enviou durante seus dias de fraternidade na Universidade Stanford que celebravam a bebedeira e tentavam convencer mulheres de repúblicas estudantis femininas a praticarem atos sexuais.

Em março de 2013, Adria Richards recebeu ameaças de violência e foi demitida de seu trabalho em software na empresa startup SendGrid Inc.,depois de ter postado uma imagem online de programadores homens que ela acusou de fazerem insinuações impróprias num evento de programação em Santa Clara, Califórnia. Seus críticos disseram que Richards lidou mal com a ofensa e seus defensores que sua demissão desencorajará a denúncia de condutas impróprias.

Ellen Pac, uma ex-sócia da Kleiner Perkins Caufield & Byers, processou a empresa de capital de risco em 2012 alegando que ela tratou empregadas mulheres injustamente ao promovê-las e remunerá-las menos do que os homens. Ela disse que enfrentou retaliações após ter se queixado de assédio sexual. A Kleiner, que tentou sem sucesso levar as alegações de Pao a uma arbitragem, negou as alegações.

“Infelizmente, parece que estes tipos de questões afloraram em algumas empresas de tecnologia e startups ao longo dos anos”, disse Kessler.

/Tradução de Celso Paciornik