A vida sem patentes
- 9 de dezembro de 2012|
- 19h11|
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Por Redação Link
Ele levou a lógica do software livre ao cotidiano para passar um ano sem copyright
Ana Freitas
ESPECIAL PARA O ESTADO
BERLIM – O cineasta neozelandês Sam Muirhead propôs a si mesmo um desafio dos mais difíceis. Durante um ano, ele tentará viver uma vida seguindo o princípio “open source” (código livre). Isso significa abrir mão ou buscar alternativas para, em tese, qualquer coisa que ele precise durante esses doze meses que envolva o copyright tradicional – das necessidades mais básicas do cotidiano, coisas que a maioria de nós não se questiona sobre patentes, como alimentação e papel higiênico, até atividades como escutar música ou assistir a filmes.

O cineasta manuseia uma impressora 3D MakerBot, desenvolvida com licenças abertas. FOTO: Divulgação
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Tudo isso, é claro, tem direitos autorais associados. Olhe em volta – esteja você no escritório, em casa ou na frente do computador ou celular lendo este texto, questione-se sobre os objetos ao seu redor. Quantos deles são patenteados e, portanto, não podem ser reproduzidos sem a aquisição dos direitos autorais?
Talvez alguns clássicos da literatura na sua estante já tenham entrado em domínio público ou quem sabe o sistema operacional do seu computador seja um Linux, de código livre. Imagine, agora, viver sem tudo – ou quase tudo – que tenha copyright tradicional. Parece impossível.
“Não significa que eu vou jogar fora todas as minhas coisas patenteadas”, disse Muirhead ao Link, enquanto tomava um café na Betahaus, a cafeteria preferida dos artistas, programadores e profissionais nômades de Berlim. “Não vou mais comprar nada patenteado e vou buscar alternativas para substituir as coisas que já tenho.” O cineasta explica que vai fazer isso aos poucos, de maneira a cobrir uma área de sua vida por vez.
O projeto Year of Open Source (um ano de código aberto) surgiu de um interesse pessoal de conhecer melhor a comunidade de programadores e entusiastas que defendem o uso de tecnologias abertas, sem restrições de propriedade intelectual, que podem ser usadas e modificadas por qualquer um. “Eu queria me envolver na comunidade de software livre, mas não tinha a habilidade necessária. Então pensei que seria uma boa ideia usar meus conhecimentos como film maker para criar algo que contribuísse para a cultura livre contando a história dela”, disse Sam. “Fora do círculo de desenvolvedores e especialistas em tecnologia, pouca gente entende o conceito de software livre. E quero ser capaz de contar essa história para todo tipo de gente.”
O projeto deu a largada em agosto, quando Sam começou a reavaliar seus hábitos. Ele se dedicou a estudar e aprender química, programação, bordado, eletrônica e também o mecanismo de patentes. “Minha grande surpresa foi descobrir como é difícil saber o que é patenteado ou não. Não existe uma lista. E a própria característica do sistema de patentes permite registros amplos, cheios de brechas, que advogados podem manipular. Esse é um dos inúmeros problemas da cultura de copyright tradicional: ela não é transparente”, disse.
O processo. Apesar de parecer uma empreitada quase impossível, Sam deixa claro que seu objetivo não está na conclusão, mas no caminho que ele seguirá para encontrar respostas. “Não é uma tentativa de ver quão longe posso chegar e o quanto posso me desconectar de tudo que envolva patentes, mas uma oportunidade para testar, comparar e avaliar uma série de abordagens da área. Não se trata de me privar das coisas, mas de inspiração”, afirmou.
O Year of Open Source é financiado parcialmente por pequenas doações voluntárias pela internet (formato conhecido como crowdfunding). Mas você não vai encontrá-lo no site Kickstarter, que é a maior rede do tipo. Sam optou por plataformas não proprietárias. Quem o apoia ganha em troca um calendário – que também não é patenteado.
Ele diz que o financiamento colaborativo não paga todas as contas do projeto. Por isso, Sam continua trabalhando como produtor de vídeo, usando licenças Creative Commons e um programa de edição de vídeo de código livre para Linux. Ele documenta outras iniciativas abertas que encontra em suas pesquisas e, ao fim de um ano, pretende contar toda a história em um filme, também financiado por doações.
COTIDIANO OPEN SOURCE
Alimentação:
Pão: “Não há patentes envolvidas na produção de pão. Eu tento assar meu próprio pão na maior parte do tempo. Se eu encontrar uma padaria que encoraja o compartilhamento de suas receitas, vou comprar pão ali”
Cerveja: Na Alemanha não é difícil encontrar em bares cervejas artesanais, cujas receitas muitas vezes são de domínio público
Vegetais: O problema é a engenharia genética e a patente de sementes. Em Berlim é fácil contornar esse problema, já que são populares os mercados de alimentos orgânicos. Outras coisas com patentes vencidas, como o spaghetti não fresco, também estão liberadas
Roupas
Remix: “Você ficaria surpresa se soubesse o quanto da cultura de remix está presente na moda”, explica Sam. Ele está aprendendo a costurar e descobriu uma iniciativa que hackeia máquinas de costura para criar e compartilhar projetos de roupa livremente, de maneira semelhante ao mecanismo de uma impressora 3D
Tecnologia
Computador: O Mac de Sam roda Linux e a edição é feita com software livre. Ele ainda não encontrou uma alternativa de hardware livre
Celular: Ele testará um aparelho do projeto OpenMoko, que tem hardware e softwares livres
Câmera: Sua Canon roda um firmware de código aberto
Vida Social
Alternativo: Sam não se priva de reuniões sociais por conta de seu novo estilo de vida. Ele tenta frequentar lugares que se adequem ao projeto – restaurantes que divulgam as receitas e bares com cervejas artesanais. “Berlim torna isso mais fácil, especialmente em Kreuzberg (o bairro em que ele vive), que tem uma cultura de independência política e de criação”, diz
Saúde
Opção: Os remédios genéricos são a alternativa para ele – a indústria farmacêutica é toda baseada em patentes. “Peço ao médico a receita da versão genérica”, diz Sam
Casa
Caseiro: Sam aprendeu a fazer sua pasta de dente e seu sabão em pó em casa. E ele continua comprando papel higiênico – uma invenção cuja licença, aliás, já está em domínio público
Diversão
Copyright: Música e filmes com patente foram um dos pontos sensíveis. Ele procura iniciativas com licença Creative Commons e filmes e músicas que já tenham entrado em domínio público
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Leia mais:
• O país open source
• Link no papel – 10/12/2012
• Um projeto livre para o cinema
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