2011 do começo ao fim
- 18 de dezembro de 2011|
- 18h19|
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Por Tatiana de Mello Dias
Este ano assistiu a morte do último grande ícone digital ao mesmo tempo em que viu nascer um movimento sem líder nem hierarquia, como a própria internet – aquela rede fora do Facebook
SÃO PAULO – Nas eleições legislativas da Rússia, um funcionário do governo foi ajudar uma idosa a preencher a cédula de votação. A idosa fez o gesto com as mãos como quem diz “tanto faz”. O funcionário marcou um X no partido do governo. A cena poderia passar batida, mas uma pessoa filmou e o vídeo foi parar no YouTube. Com milhares de visualizações, foi a prova que os russos precisavam para contestar os resultados. E estão repetindo o que aconteceu em vários países ao longo do ano: tomaram as ruas.
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O presidente russo, Dmitri Medvedev, apelou para a mesma arma: a internet. Postou no Facebook um aviso de que investigaria as violações nas eleições parlamentares e clamou por liberdade de expressão. A resposta dele marca o desfecho de um ano em que o real e o virtual se confundiram na hora de fazer política.
Não foi por acaso que a personalidade do ano eleita pela revista Time não tem rosto nem nome. Aliás, rosto tem, mas está coberto. É o manifestante. “Ninguém poderia saber que, quando um vendedor de frutas na Tunísia ateou fogo a si mesmo, ele incitaria uma onda de protestos. Em 2011, os manifestantes não apenas expressaram suas reclamações, eles mudaram o mundo”, justificou a revista.
Queda e ascensão. A Primavera Árabe, no começo do ano, mudou tudo. Tunisianos, egípcios e líbios saíram às ruas para protestar contra os regimes autoritários de seus países. A repressão aos manifestos teria sido escondida pela censura, mas a divulgação no Facebook e no Twitter colocou o resto do mundo a par dos acontecimentos. O ditador da Tunísia, Ben Ali, foi o primeiro a cair. Depois, o egípcio Hosni Mubarak renunciou em fevereiro. No mês seguinte, a onda de protestos chegou ao Ocidente.
O termo 15-M, ou “15 de maio”, foi o mais utilizado no Facebook na Espanha. O protesto dos “indignados” ou “democracia real já” – como ficou conhecido o movimento que tomou uma praça central de Madri naquele dia – começou contra uma lei que poderia fechar sites por pirataria. Terminou como uma revolta geral contra o desemprego, a corrupção e a crise. A hashtag #spanishrevolution ficou no topo do Twitter e ganhou suas variações: #germanrevolution, #brazilianrevolution e por aí vai.
“A nova paisagem da mídia permite que as pessoas sincronizem suas visões de mundo rapidamente”, disse ao Link em junho Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York e autor de A Cultura da Participação.
Segundo ele, o movimento de basta no Egito já acontecia desde 2004. Mas foi a possibilidade de os cidadãos se conectarem que mudou tudo. “Quando a população está sincronizada, é hora de partir para a ação”, explica.
O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, negou o papel da rede social nos movimentos. Para ele, “seria extremamente arrogante, para qualquer empresa de tecnologia, reivindicar qualquer papel significativo” nas revoluções no Egito e na Síria.
Já para o pesquisador Navid Hassanpour, formado em engenharia elétrica em Stanford e aluno de ciências políticas na Universidade Yale, a queda de Mubarak no Egito só foi possível com o bloqueio das redes sociais por ordem do ditador. Na ausência delas o povo foi às ruas (leia entrevista).
Em agosto, uma rebelião estourou na Inglaterra. Londres sofreu sucessivos ataques de vândalos em um fim de semana. O descontrole se espalhou – ônibus e lojas foram destruídos e incendiados – e atingiu várias cidades. A articulação foi mais uma vez pelas redes sociais e por uma tecnologia popular entre jovens: o BlackBerry Messenger (BBM), serviço de mensagens que não pode ser rastreado.
Não demorou para que o governo britânico combatesse os meios de difusão dos distúrbios. Chegou-se a cogitar a suspensão do BBM. Só que, como mostrou um estudo da Universidade de Manchester, as redes sociais foram mais usadas para divulgar ações de limpeza do que os ataques. Os manifestantes tinham medo do governo. “Todos que assistem a essas ações terríveis ficariam apavorados pela maneira como elas são organizadas em redes sociais”, disse o primeiro-ministro britânico, David Cameron.
O pânico se traduziu em ações contra quem usasse a rede para articular ataques. Para Jordan Blackshaw e Perry Sutcliffe, 20 e 21 anos, respectivamente, a consequência foi real. Ambos foram condenados a quatro anos de prisão por criarem uma página no Facebook organizando um distúrbio. Os encontros não ocorreram, mas os dois continuam na cadeia.
Occupy. Os movimentos perderam os rostos logo em seguida. Jovens chegaram sorrateiros à praça Zuccotti, em Nova York, e criaram o Occupy Wall Street, acampamento dos “99% da população que é dominada pelo 1% que tem dinheiro e poder sobre os demais”.
O Anonymous, grupo hacker que ficou conhecido no meio do ano por atacar sites , se juntou ao movimento. Os manifestantes vestiram um só rosto: a máscara do herói Guy Fawkes, popularizada pelo filme V de Vingança, símbolo do Anonymous.
O acampamento cresceu e se espalhou. Recebeu visitantes ilustres. “Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões que não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que queremos”, disse o filósofo Slavoj Žižek em visita ao acampamento. “Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século 20 obviamente não servem”, bradou em um discurso que deu ao espaço um tom de revolução atemporal.
O Occupy chegou a ser combatido pela polícia, mas a resistência foi maior. Ganhou apoio desde Sean Lennon (filho de John e Yoko) à banda de hardcore Nofx, passando pelos veteranos músicos David Crosby e Graham Nash, que tocaram seus violões para a multidão em Nova York.
O médico e escritor indiano Deepak Chopra apareceu por lá para guiar uma meditação coletiva, invocando a revolução interior. “O que eu vou falar para vocês fazerem é colocarem as mãos no coração e perguntarem em que tipo de mundo vocês querem viver. Vocês têm de se perguntar: ‘como eu posso ser a mudança que eu quero ver no mundo?’.” A multidão repetia as palavras para que fossem espalhadas sem ajuda de microfones.
Quando a polícia retirava um acampamento, outro se formava em um local diferente. Hoje são milhares. O movimento chegou ao Brasil, em São Paulo e no Rio. Em todos os lugares houve reação dos governos – e resistência dos acampantes. Centenas de vídeos no YouTube mostram a violência policial.
Os primeiros países a reprimir o movimento foram os mesmos que apoiaram as revoltas populares contra as ditaduras nos países árabes. Dois pesos, duas medidas? O presidente da Index on Censorship, entidade que luta pela liberdade de expressão no Reino Unido, criticou a postura dos países. “É fácil defender direitos humanos contra as ditaduras ao redor do mundo, mas assim que nossa estabilidade de Estado ao estilo ocidental é questionada, então a liberdade de expressão é dispensável.”
A Rússia, cujas revoltas acabaram de começar, anunciou que tomará medidas para regular o uso de suas redes sociais. A história continua em 2012.
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Leia mais:
• Link no papel – 19/12/2011
• Entrevista com Navid Hassanpour – ‘Quando a internet distrai’
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