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O PMDB da era Temer

Julia Duailibi

quarta-feira 11/06/14

Texto publicado ontem no Estadão Noite O PMDB aprovou por 398 votos contra 275  o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Num momento em que aumentam as críticas ao governo Dilma, inclusive com queda da pré-candidata nas pesquisas de intenção de voto, o PMDB, do vice-presidente Michel Temer, teve que achar um jeito [...]

Texto publicado ontem no Estadão Noite

O PMDB aprovou por 398 votos contra 275  o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Num momento em que aumentam as críticas ao governo Dilma, inclusive com queda da pré-candidata nas pesquisas de intenção de voto, o PMDB, do vice-presidente Michel Temer, teve que achar um jeito de justificar esse apoio. Tirou do chapéu um programa de governo que contraria bandeiras petistas e disse que essas são as “condições” para reeditar em 2014 a aliança vitoriosa de 2010.

Entre os pontos do “programa de governo” do PMDB, está a crítica a projetos petistas, como a proposta de regulação da mídia e o plebiscito para fazer a reforma política. Os peemedebistas também passaram a defender mais “responsabilidade fiscal” a partir de 2015.

O PMDB joga para a platéia – tanto interna como externa, num momento crítico para o governo petista e para a candidatura de Dilma que, fragilizada, começa a assistir aos aliados questionarem o poder de fogo. A despeito do mérito das propostas desse “programa de governo” do PMDB, a preocupação principal da direção do partido era emplacar Temer na vice. Tanto que o slogan da chapa a favor da aliança foi “Voto Sim, Somos Michel Temer”. Tanto que Temer disse anteontem: “O que interessa é vencer”.

O resto é para inglês ver. Ou será que os peemedebistas desistirão da aliança caso o PT não contemple em seu programa de governo esses pontos que o PMDB diz serem tão importantes para o partido? Temer entregará a vice e abandonará o barco de Dilma devolvendo todos os cargos e ministérios porque as propostas do PMDB não foram levadas a sério pelo partido aliado? Parece muito pouco provável.

E a preocupação com a austeridade fiscal, um dos pontos mais críticos do atual governo? O PMDB a coloca como um ponto central do seu “programa de governo” como se o partido não fosse parte desse governo ou como se a demanda por cargos e emendas parlamentares não tivesse implicação nenhuma no equilíbrio das contas do governo federal.

O importante para o PMDB é ampliar o seu naco na administração de Dilma – e não ter acatado pelo PT o seu “programa de governo” ou qualquer outra proposta. Aliás, aumentar sua participação no governo é uma meta perseguida pelo PMDB ano após ano, com relativo sucesso, desde 2004. O PMDB quer expandir o seu feudo para além dos seus cinco ministérios e anuncia agora como alvo a área social, aquela que dá votos. Esse sim é o preço que o partido quer para assumir uma operação que agora não se mostra tão certa, que é a reeleição de Dilma.

Em busca desse objetivo, o partido marchou com Temer sem grandes percalços. Embora a vitória do vice-presidente tenha ocorrido com uma margem menor do que previam os caciques do partido, em nada lembra o quebra-quebra de 1998, quando o PMDB decidiu apoiar a reeleição de Fernando Henrique Cardoso por 389 votos contra 303. Ou a pancadaria de 2002, quando aprovou por 443 votos contra 218 a coligação com o PSDB.

A convenção de hoje não fugiu do script pragmático tão característico do PMDB na era Temer.