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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014
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Van Halen de volta às raízes

Categoria: Música

DIOGO SALLES

Em 1978, Eddie Van Halen pôs a cena roqueira abaixo com a peça instrumental Eruption, introduzindo uma nova técnica de tocar. Era o primeiro e autointitulado álbum do Van Halen, que explodiu como lava incandescente e firmou a banda no mapa do rock. Fama e fortuna vieram e, com isso, muitas brigas.

A banda sobreviveria à traumática saída do vocalista David Lee Roth, em 1985, mas nos anos 90, não evitou o declínio. Desde então, o vulcão se manteve adormecido. Roth tentou voltar à banda em 1996 e em 2000; mas todas as tentativas fracassaram. Quando uma reunião com Roth foi anunciada, em 2007, o clima era de desconfiança.

O retorno do vocalista se concretizou, mas a força criativa da banda era dada como morta e o tão prometido álbum de inéditas parecia um sonho distante. O Van Halen se mantinha de turnês caça-níqueis e de seu respeitável catálogo, que lhe rendeu mais de 80 milhões de discos vendidos só nos Estados Unidos.

Até que em 2011, o boato que os acompanhava ao longo dos anos, do esperado disco de inéditas, ganhou força. E, tal qual o Guns N’ Roses, o Van Halen acaba de lançar seu Chinese Democracy, intitulado A Different Kind of Truth. Lá se vão 14 anos desde que a banda mostrou algo novo, e 28 anos desde o último gravado com David Lee Roth.

Quando o disco começou a circular, o grito dos fãs explodiu em uníssono: o Van Halen está de volta aos primórdios.
 As sessões de gravação do novo álbum conduzem de volta ao ano de 1977, quando o Van Halen – ainda uma banda iniciante em busca de um contrato –, gravava uma demo com 25 músicas nos estúdios da Warner.

Conhecido como Van Halen Zero, este se tornaria o bootleg mais cultuado pelos fãs, pois suas músicas deram origem à maioria do material oficialmente lançado nos dois primeiros álbuns. Do fundo desse baú, She’s the Woman e Big River são duas músicas dessa demo que ressurgem quase intactas.
 
Eddie assombroso
Já a veloz Outta Space segue a mesma métrica de sua original, chamada Let’s Get Rockin’. Mesma coisa para Beats Workin’, que refaz o rastro deixado em Put out the Lights, num clima de rock n’ roll festeiro que sempre caracterizou a banda. Fragmentos do que se tornou o single Tattoo foram pinçados de Down in Flames.

A história de Bullethead é mais curiosa, pois a música aparece nas primeiras apresentações ao vivo da banda, mas nunca havia sido registrada em estúdio. Outra é Blood And Fire, que originalmente se chamava Ripley e vem de demos de 1984.

Mas há também músicas inéditas, como a explosiva China Town e a esperta The Trouble With Never. Já You And Your Blues segue mais a linha pop-rock melódico, que a banda explorou muito nos anos 80. Stay Frosty é um mergulho nos anos 70, recriando a dinâmica de Ice Cream Man, com voz e violão de Roth puxando uma locomotiva hard blues. E em Honeybabysweetiedoll e As Is, Eddie Van Halen flerta com o metal e não economiza notas em seus solos. 

Depois de duas décadas inativo, portanto, o vulcão entrou em erupção. Eddie Van Halen ressurge como um assombro. Livre do alcoolismo, ele se mostra em impressionante boa forma, faminto como há muito não se via.
 
Duas gerações Van Halen
Com a cabeça no lugar, ele finalmente pôde colocar todo o seu arsenal de guitarras a serviço de seu extenso vocabulário musical, mostrando porque é uma lenda do hard rock. David Lee Roth, por sua vez, volta falastrão e verborrágico como sempre, com letras irônicas e cheias de gírias das ruas – além das velhas excentricidades, numa mistura bem humorada de gritos com vocais guturais à la Barry White.

Mas a maior dúvida pairava em torno do jovem Wolfgang Van Halen. Herdeiro do clã, foi içado de forma discutível à condição de baixista da pelas mãos de seu pai, Eddie. Alguns fãs torceram o nariz e pediram a volta de Michael Anthony, mas o garoto de 20 anos mostrou personalidade, com linhas de baixo nervosas que deram um novo groove à banda.

Aproveitando-se desse sentimento nostálgico, a banda fez um resgate histórico de sua longeva biografia, reencontrando a agressividade que tanto os impulsionou na juventude.

Há quem diga que tal sentimento não combine com estes senhores cinquentões, mas essa retomada era uma cobrança antiga e insistente dos fãs e da crítica – pedido sempre negado pela banda. Dessa forma, o Van Halen não só conseguiu unir os hard rockers da velha e da nova guardas, como também combinou duas gerações de músicos dentro da banda.