Mart’nália dá um passo para o pop
- 14 de maio de 2012 |
- 22h05 |
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PEDRO ANTUNES
“Se algum desavisado ouvir o meu disco vai pensar que eu fiquei louca”. A frase de Mart’nália chega rápido, seguida por uma longa e gostosa gargalhada. Uma herança do pai, o sambista de riso fácil Martinho da Vila. Cantora, compositora e percussionista, ela decidiu deixar o samba para o resto da família e partiu para o desconhecido. De mansinho, encostou pandeiro, cuíca e tamborim num canto, e vestiu a carapuça do pop. Sim, a filha do bamba renunciou o samba. Não Tente Compreender, novo álbum da carioca, que será apresentado nesta quinta, no HSBC Brasil, é um passo para um universo inóspito para ela.
Para guiá-la neste caminho sinuoso, pouco conhecido pela cantora de 46 anos, Djavan foi o nome escolhido e assina como diretor e produtor musical do projeto. Para conseguir convencê-lo, Mart’nália foi o cercando aos poucos, após seus shows, encorajada por algumas cervejas. “Tive de ir três vezes ao camarim dele, após os shows, para pedir. Na terceira, ele arregou (risos)”, conta.
Ela foi chamada para ir ao sítio dele em Araras, cidade próxima de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “Ele começou a me falar das suas ideias de sonoridade, de cantar outras coisas. Tudo o que ele falava batia com os sentimentos que eu tinha. As pessoas já tendem a me mandar músicas sobre Vila Isabel, macumba, sabe? Mas não posso ser só isso.” Ela mostrou a canção Daquele Jeito, foi a primeira a sofrer a mutação. “Fui aceitando as sugestões dele.”
O encontro com Djavan só ajudou a florescer o que já crescia em Mart’nália. “Estava na estrada com o mesmo pessoal há duas Copas do Mundo (2006, na Alemanha, e 2010, na África do Sul). Ia para a terceira! Daí não dá, né?”, brinca. Com o batuque e seu samba bastante percussivo, a cantora viu o mundo, da Europa à África, fez parcerias com Caetano Veloso, Maria Bethânia e, veja só, até com a dona de um jazz refinado, Madeleine Peyroux. “Comecei a perceber ainda mais a harmonia, não só a percussão, que é a minha principal formação”, diz. “Foi após Ária (disco de Djavan, de 2010) que decidi que precisava mudar.”
Ela não quer renegar o samba, nem esquecer o passado (seu e do pai). Mart’nália não consegue é ficar parada. Está sempre em movimento, para lá e para cá, como durante a entrevista por telefone ao JT: inquieta, riso solto, uma metralhadora de palavras e piadas. “Se eu pudesse, passaria os dias inteiros na praia (risos)”, diz. “Música, para mim, é trabalho, o meu emprego. Eu consegui me impor do meu jeito, me mostrar, mas começou a ficar repetitivo. As pessoas compravam meu disco sabendo que era um samba bacaninha. Isso que eu não queria mais.”
São os rótulos que enchem a paciência da percussionista. “Moro no Rio, tenho influências chegando por todos os lados. Ainda estou me encontrando.” Isso e o medo de estagnar. “Se eu ficar só no samba, posso perder muita coisa. Meu pai é um sambista eclético.”
Com a proposta principal do álbum definida, Mart’nália foi atrás dos compositores parceiros habituais: Paulinho Moska, Lula Queiroga, Marisa Monte e Dadi, Max Viana, Ivan Lins e Zélia Duncan, Gilberto Gil, Caetano, Nando Reis e Adriana Calcanhotto. Reunidas, elas propõem uma viagem ao Rio de Janeiro, uma cidade boêmia e romântica. “Queria me firmar como uma artista carioca. Busquei canções que tivessem a ver com isso”, diz. Vai Saber, canção de Calcanhotto, por sua vez, já era para ter sido gravada antes, em Menino do Rio (2006). “Eu perdi o CD que ela me entregou com a música. Fiquei com vergonha de pedir outro, então, peguei a versão gravada pela Marisa Monte”, explica.
Toda a con fiança no disco, apesar do “friozinho na barriga”, vai embora quando o papo é o show. “Peguei uma guitarra emprestada com o Tony Bellotto (do Titãs), mas não sei se vou conseguir fazer tudo sem o pandeiro na mão (risos).” Um passo de cada vez.
Maíra Freitas: uma pianista entre o samba e o erudito
- 19 de abril de 2011 |
- 15h46 |
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Categoria: Música
ADRIANA DEL RÉ
Estariam os membros de uma família de sambistas predestinados ao samba? A trajetória da pianista carioca Maíra Freitas, 25 anos, mostra que não obrigatoriamente. Mas, se um dia, nasce a vontade de flertar com o ritmo, sem pressões externas, tudo bem também. Filha de Martinho da Vila, ela não escapou da música, mas trilhou um caminho diferente ao dos irmãos. Aos 7 anos, começou a aprender a tocar piano. Maíra não se lembra o que a levou a escolher justamente o piano, apenas que pedia para sua mãe que queria fazer aula do instrumento. Entrou em conservatório e, mais tarde, cursou faculdade de piano.
Mas ao mesmo tempo que a música clássica lhe tomava boa parte do dia, o samba estava ali, sempre à espreita. “Ouço samba desde pequena. Ia aos shows do meu pai. Para mim, sempre foi tranquilo transitar nos dois universos”, diz. Em casa, escutava, ainda, muita MPB: Djavan, Chico Buarque, Paulinho da Viola, só para citar alguns nomes. Dessa convivência musical, nasceu seu disco de estreia, ‘Maíra Freitas’, recém-lançado pela Biscoito Fino.
Neste trabalho, ela queria que o repertório soasse como uma extensão desse ecletismo.
Sempre ao piano, executa alguns clássicos que são de seu gosto, como ‘O Show Tem Que Continuar’, ‘Maracatu Nação do Amor’ e ‘Disritmia’ – esta última, de autoria de seu pai e com participação dele. “Atua como vocalista comigo, Mart’nália e poucos outros. Com sua simpatia e humildade, sempre sorridente, com seus dentes que parecem as teclas brancas de um piano”, escreveu Martinho sobre a filha, no texto de divulgação desse disco para a imprensa.
É que, além de tocar piano, Maíra estuda outro instrumento: a voz. “O canto veio há pouco tempo. Sempre cantei, mas em casa, festas, rodas de samba. E sempre fez parte do estudo do piano”, conta a filha de Martinho. “No ano passado, fiz canto coral na faculdade. Meu pai me ouviu cantando e me chamou para participar do último disco dele”. No caso, a música ‘Último Desejo’, do CD ‘Poeta da Cidade – Martinho Canta Noel Rosa’, de 2010.
Essa participação, em especial, chamou a atenção de Olivia Hime, diretora artística da gravadora, que propôs à pianista um disco só dela. Sua irmã, Mart’nália, foi recrutada para assinar a produção. As coisas ficaram meio que em família. “Sou grudada na Mart’nália. Sabe irmã mais nova que admira a mais velha? Ela cuida de mim desde que eu era pequena”.
Compositora
Além de pianista e cantora, Maíra quis se expor como compositora. E entre músicas de Paulinho da Viola (‘Só o Tempo’), Joyce (‘Monsieur Binot’), Gonzaguinha (‘Recado’) e Chico Buarque (‘Mambembe’), incluiu suas ‘Corselet’, ‘Alô? e a instrumental ‘Se Joga’. O trabalho de composição acompanhou, paralelamente, seu desenvolvimento como intérprete. Foi quando se sentiu livre para cantar, criar, fazer arranjos. E a composição veio junto.
Maíra sempre foi rígida com os estudos. Mais nova, chegava a estudar algo em torno de oito horas por dia. Agora, destina cerca de três horas diárias ao seu piano. Está concentrada no repertório de seu show, com o qual deve sair em turnê a partir de maio.
Veja Maíra Freitas com o pai Martinho da Vila no Rock in Rio Lisboa, em 2010:
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