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Terça-feira, 21 de Outubro de 2014
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Animais que curam

Categoria: Celebridades, Comportamento

Foto: Andre Lessa/AE

LAIS CATTASSINI

Para viver bem e de bom humor, Luisa Mell dá a receita: passar um tempo com seus animais de estimação. Dona dos cães Marley, Gisele, Dino e Preta, Luisa, 33, percebe que bastam alguns minutos ao lado dos amigos de quatro patas para diminuir o estresse e melhorar o astral. “Eles sempre me ajudaram muito quando passei por momentos difíceis. Eu converso muito com eles”, conta a apresentadora do programa Estação Pet, da TV Gazeta.

A percepção de Luisa parece subjetiva, mas foi comprovada pela ciência. Um estudo da Universidade de Miami (EUA), publicado no mês passado na revista americana Journal of Personality and Social Psychology, mostrou que pessoas donas de animais de estimação são menos solitárias, têm uma maior autoestima e são mais em forma do que pessoas que não possuem animais em casa. “Quando o ser humano está em contato com um cachorro, o cérebro libera ocitocina, um neuro-hormônio responsável pelos sentimentos de afeição, aproximação e amor”, afirma o coordenador do Projeto Autismo, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Estevão Vadasz.

O efeito que os cães são capazes de provocar em crianças e adultos fez com que o hospital adotasse os animais em seus tratamentos. Duas crianças autistas realizam terapias com cachorros no Instituto. “Os cães, diferentemente dos humanos, não ficam frustrados ou decepcionados quando a criança não faz contato. Eles continuam tentando”, explica a psicanalista do HC, Marisol Montero Sendin. Ela conta que, mesmo quando as crianças parecem não estar interagindo com os animais, há um impacto no tratamento.

Marisol lembra do caso de uma adolescente com depressão que não permitia que outros se aproximassem. Um dos cães voluntários no hospital a visitava constantemente, mas não recebia atenção e ficava com a coberta por cima da cabeça. “Uma vez o Aníbal, o cachorro que nos visitava, pegou os chinelos dela no chão e os colocou na cabeça dela. Ela foi obrigada a se descobrir. Quando teve alta, ela fez uma declaração de amor ao cachorro e fez um desenho a ele”, conta Marisol.

O ator Stênio Garcia, 78 anos, é um conhecido apaixonado por animais. Em casa, tem três cachorros da raça boxer. Stomp, Vitória e Branca já estão acostumadas a ouvir as lamentações do dono. Para o ator, o convívio faz, sim, bem à saúde. “Há um entendimento nessa relação. Minha esposa e eu conversamos muito com os animais. Isso faz bem”, afirma. Stênio também começou a estudar a utilização de animais em terapias, como a equoterapia, feita com cavalos.

Muito utilizada como auxiliar na fisioterapia, a equoterapia também traz benefícios a quem tem dificuldades cognitivas e problemas ortopédicos. O tratamento é indicado para quem tem distúrbios de comportamento, estresse, esclerose e até paralisia cerebral. “O passo do cavalo é muito semelhante ao passo humano. Para quem está acostumado a ver o mundo da cadeira de rodas, estar em cima de um animal desses dá outra percepção”, explica o fisioterapeuta Rodrigo Hernadez Riva, do Centro Social Nossa Senhora da Penha (Cenha), zona norte. 
 
O mundo visto da sela 
Os cavalos – no Cenha são três – também são incorporados ao tratamento. João Pedro, de 6 anos, é autista e frequenta o centro desde os 3. “Ele está sendo alfabetizado agora”, conta a mãe, a advogada Caroline Fonseca, de 33 anos. João é incentivado a montar palavras em uma lousa e, como prêmio por ter acertado, pode dar voltas com o cavalo. “No começo eu precisava montar com ele. Precisei aprender a saltar do cavalo em movimento, sem que ele percebesse, para ele aceitar ficar sozinho”, explica Carolina.

Para Gabriel Garcia Passos, de 15 anos, que tem paralisia cerebral, a terapia colabora para sua postura. “Com o cavalo, ele trabalha o trote e faz alongamento. Para ele, essa terapia é um prazer”, explica a mãe, Silvia Casagrande Passos, 43 anos, que há oito anos acompanha o filho na terapia.

Para a mesma finalidade, os golfinhos também podem ser usados em terapia. Sensíveis, os animais aquáticos percebem até mesmo se há uma mulher grávida no mesmo ambiente, como conta o fisioterapeuta aquático e terapeuta com golfinhos, Marcelo Roque. “No contato você percebe que o golfinho tem personalidade. Ele só se aproxima de pessoas de boa índole”, diz Roque. Segundo ele, os animais agem de maneiras diferentes dependendo do sexo do paciente e também do estado físico. Essa é uma sensibilidade que os cachorros não têm. Por isso, os animais que são usados nas terapias passam antes por uma seleção e treinamento. “A personalidade do cão, na verdade, depende do que a criança paciente necessita. Mesmo assim, o cachorro não pode pular, deve evitar latir e passa por um longo treinamento”, afirma o fisioterapeuta e membro da Associação para a Promoção de Terapias Assistidas por Cães, Vinícius Ribeiro.
 
Lugar de cão é no hospital?
As exigências são muitas, e a avaliação, profunda. “O cão precisa ser afetivo, gostar de outras pessoas que não só seus donos, além de conseguir conviver com outros animais. Eles devem suportar barulho, movimento, serem focados…”, enumera a presidente executiva do Instituto Nacional de Ações e Terapias Assistidas por Animais (Inataa), Silvana Fedeli Prado. Tudo isso é necessário para que os animais trabalhem, principalmente, com crianças. “Sabemos que as crianças se beneficiam mais, mas não é algo exclusivo”, afirma a diretora de enfermagem do Hospital São Paulo, Maria Isabel Carmagnani. O Inataa, por exemplo, leva seus cães também a asilos. “Foi como começamos, há oito anos. Os idosos também se beneficiam bastante com esse contato”, diz Silvana.

Maria Isabel conta que, no hospital, onde também são recebidos cachorros no atendimento pediátrico, houve resistência para levar os animais a outros setores, como a UTI e internações com idosos. “Na pediatria, os médicos são mais abertos. Mas tivemos problemas com gente que acha que hospital não é lugar de cachorro”, conta ela. Normas de higiene são seguidas à risca. Além das benesses clínicas, o estudo da Universidade de Miami mostra, também, que “um cachorro é uma fonte de contato social única e significativa, acima de qualquer contribuição humana”.

Quem está acostumado a ficar rodeado de cães, como a modelo e atriz Giovanna Ewbank, 24 anos, casada com o ator Bruno Gagliasso, sabe bem disso. “O cachorro é amigo, companheiro e o amor deles é puro”, conta Giovanna, dona de oito cães. A atriz Totia Meireles, 53 anos, considera especiais as visitas ao seu sítio, no interior do Rio de Janeiro, onde seus três cães sempre a recebem com alegria. “Quando eu chego, é como se não tivesse passado tanto tempo fora. Fico com o humor muito melhor. É uma troca de carinho. É amor”. Giovanna se lembra de quando morou fora do Brasil, pela carreira de modelo, e passou muito tempo sozinha. Esse período foi marcado por muita saudade – inclusive dos seus bichos. “Em Nova York, eu trabalhava muito e quase não ficava em casa. Por isso, achei melhor não ter um bicho de estimação. Senti muita falta”, conta ela. O dia a dia com seus cães só a fazem ter certeza: “Lembro dos momentos em que me senti sozinha e triste. Um cachorro teria me ajudado muito!”.