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Sábado, 18 de Maio de 2013
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A novela como multiplataforma

Categoria: TV

CRISTINA PADIGLIONE

Novela de autores estreantes, pela Globo, com enredo protagonizado por empregadas domésticas e capaz de gerar milhões de acessos na internet, onde já se viu? De Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, Cheias de Charme cerra cortinas dentro de duas semanas como um divisor de águas na história da telenovela: foi a primeira vez que as domésticas fizeram a linha de frente do elenco de um folhetim no Brasil e a primeira vez que uma cena importante da trama foi antecipada pela internet. Criou-se aí a novela transmídia.

O Ibope não só respondeu com mais de 30 pontos na Grande São Paulo, praça onde a concorrência é mais acirrada, como sustentou e foi sustentado pelo fenômeno que a novela gerou na web. O clipe das empreguetes vividas por Taís Araújo, Leandra Leal e Isabelle Drummond teve mais de 12 milhões de cliques. A cena, que mereceu todo um suspense na narrativa da trama, foi publicada na web no sábado e só surgiu na novela no capítulo da segunda-feira seguinte.

“Nós queríamos que quando o personagem dissesse na novela que o clipe já estava na internet, aquilo realmente já estivesse na web da vida real e os espectadores pudessem verâ€, conta Filipe Miguez. A Globo, segundo os autores, deu todo o apoio à iniciativa. Vieram as versões dos internautas, as paródias, e estava criado um diálogo inédito entre produtores e telespectadores de novela. Constatado o efeito, outras ações transmídia foram planejadas. Assim que o movimento Empreguetes para Sempre foi criado na novela, o site de fãs do trio (www.empreguetes.com.br) começou a receber vídeos, mensagens e fotos de apoio para a volta do trio, tendo já ultrapassado a marca de 3 milhões de visitas.

Em menos de um mês de campanha, foram recebidos mais de 1.300 vídeos e 20 mil mensagens de telespectadores. O post sobre a campanha bateu recorde na fan page de novelas da TV Globo, com mais de 43 mil compartilhamentos. O clipe mais recente das Empreguetes, da música Nosso Brilho, já ultrapassou 2 milhões de requisições.

“A internet surgiu mais como uma necessidade da trama do que propriamente uma intenção préviaâ€, conta Miguez. A ideia inicial era contar uma história sobre domésticas e apresentar um meio de ascensão em que “o dinheiro tivesse uma origem muito reconhecível popularmenteâ€. Veio então a ideia de levar as empreguetes ao universo da música pop, o que logo inspirou as ações no melhor gênero YouTube.

O argumento, que contou com Cláudia Abreu como a patroete, vilã e superstar Chayene, também rendeu a Cheias de Charme o mérito de explorar o universo dos astros da música, e não faltaram cantores de verdade dispostos a participar da novela. “A participação dos artistas reais, pra nós, foi uma surpresa, porque eles se revelaram bons atores. Isso, mais a participação das personagens em programas de TV fora da novela, só foi tornando a ficção mais crívelâ€, completa o autor.

Nessa feliz convergência de fatores, o tema patroetes e empreguetes bem poderia ter descambado para o maniqueísmo. “Todo mundo pergunta se a gente escolheu as domésticas para abordar essa mudança de ascensão social no Brasilâ€, diz Izabel de Oliveira. “Não foi isso, mas acho que essa categoria de trabalhadores foi a que mais se modificou nos últimos anos.â€

Ao fazer das patroas as vilãs e das empregadas, as heroínas, a dupla de autores conta que se preveniu de eventuais queixas de ambos os lados ao inserir na trama uma patroa bacana, Lygia (Malu Galli), e uma empregada vilãzinha, Socorro (Titina Medeiros). “Eu brinco que nós botamos o dedo na ferida e fizemos cócegasâ€, diz Miguez. Falar sobre as domésticas como uma categoria que conquista novos direitos e possibilidades de ascensão era uma “questão delicada†para os autores, visto que novela da Globo normalmente tem de capturar todos os públicos. “A gente não sabia como as pessoas reagiriam, é um tema que suscita polêmicas e a gente, a custa de muito humor e delicadeza, conseguiu que as pessoas pudessem discutir e até rir disso, com muito cuidado.

Em tese, custa imaginar um caldeirão onde a relação entre domésticas e patroas, aliada à ascensão social, música pop e internet produzam um bom caldo, mas as pesquisas da vida real endossam o acerto de Miguez e Izabel. Ou não é a tecnologia que lidera o consumo de uma classe disposta a demonstrar a conquista de um novo poder aquisitivo?

Miguez costura as pontas da história: “A novela tem esses dois universos: o doméstico e o dos ídolos musicais. É um universo que realmente não tinha sido retratado em novela e é um universo não somente popular, mas muito na crista da onda. Há um estrato comum nesses dois universos que é a coisa da periferia, através da tecnologia, ter a chance de se impor culturalmente e mesmo economicamenteâ€.

Fly é o dono do rebolado das Empreguetes

Categoria: Celebridades, TV

JOÃO FERNANDO

Tem gente que morre de medo de ser chamado na sala do departamento de recursos humanos da Globo. Mas Vagner Meneses Pereira está contando os dias. Coreógrafo e ator da novela das 7 Cheias de Charme, Fly, como é conhecido, inclusive no ar, foi promovido a diretor de shows da emissora. “Estou só esperando a novela acabar para mudar o meu crachá.â€

Na trama das Empreguetes, Fly é o único do elenco que, fora as participações especiais, como a de Reynaldo Gianecchini um dia desses, interpreta a si próprio. Antes da novela de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira entrar no ar, foi convocado para criar as coreografias das personagens Chayene (Cláudia Abreu) e do trio de domésticas-cantoras. A interação deu tão certo que ele virou personagem.

“Eles escreveram para mim. Tenho liberdade totalâ€, diz, sem esconder o orgulho. Apesar de as cantoras de Cheias de Charme terem sido criadas a partir de livre inspiração em artistas do tecnobrega, como Joelma da banda Calypso, Fly tem outras referências para os passinhos mostrados na novela.

“Com a Chayene, fui em cima de Clara Nunes. Já com as Empreguetes, a inspiração foi na sensualidade da Beyoncé e nas chacretesâ€, conta o coreógrafo, de 40 anos. O trabalho, segundo ele, vai muito além da interpretação. “Se elas fossem se lançar como cantoras, já estariam prontas.â€

Foi a dança, lá ainda no começo dos anos 90, que levou o carioca à televisão. Integrante do grupo You Can Dance, com outros três colegas, Fly foi convidado para fazer parte do Xou da Xuxa. O bom desempenho ao lado da loira e a desenvoltura frente às câmeras o fizeram girar por outros programas globais, como Caldeirão do Huck, e ele fincou raízes. 

Mas Fly não é só um corpinho dançante. Atualmente, quando não está em cena batendo a marcação dos passos de suas artistas, está evitando que funcionários da emissora dancem – por má administração. Fly dá aulas de educação financeira, logo ele, que passou maus bocados na faculdade de marketing que era bancada pela empresa.

“Perdi a bolsa de estudos ao repetir numa matéria. Fiquei seis meses morando de favor com parentesâ€, relembra ele. Com os telefones de Xuxa e Luciano Huck na agenda, preferiu se virar. “Eu tenho meu talento, continuei trabalhando.â€

Fly admite, hoje, que a ascensão rápida o deslumbrou. “Eu morava no morro e queria ter as melhores roupas, o melhor celular. Quando você não tem nada, quer ter tudoâ€, conta. Fly até posou nu,com o You Can Dance, para uma revista gay. “Fizemos aquilo para pegar mulher. Éramos feios. Ainda somos um poucoâ€, brinca ele.

Hoje, quem o vê em roupas coloridas ensinando a mulherada a rebolar, não imagina o homem de negócios que há por trás. “Também sou investidor de longo prazo. Aplico em imóveis, ações e títulos públicosâ€, diz ele, que mora em apartamento próprio. “Não há problema em consumir. Não é para virar o Tio Patinhas.â€

O principal chamariz de suas consultas financeiras vem da própria história. As aulas, que começaram em uma sala no Projac, onde ficam os estúdios da Globo, hoje se expandiram até para outras cidades e turmas na internet. “Organizo meu horário para tirar dúvidas online quando chego em casaâ€, diz.

Nas horas livres, Fly ainda recebeu lições sobre a estrutura da Globo, que lhe abriram caminho até o cargo de chefia, com cursos de edição e câmera. “Eu participava até da confecção de cenáriosâ€, conta. E mesmo com o novo crachá, diz que vai manter distância das estrelas da casa. “Sou estritamente profissional. Acho que é por isso que sou próximo deles há anos. Não levo nem a família para conhecer.â€