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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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Um dia dedicado aos museus

Categoria: Arte

IGOR GIANNASI

A influência das comunidades estrangeiras na cidade de São Paulo é o mote da programação organizada pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo para celebrar a Semana Nacional dos Museus e o Dia Internacional dos Museus, que é comemorado hoje. Uma resolução da secretaria determina que a partir de hoje – e em todo dia 18 de maio – os museus administrados pelo Estado – 14 na capital – terão entrada gratuita.
Dentro da programação especial, grande parte desses espaços na cidade promove atividades que permeiam o tema Cosmópolis: em São Paulo Cabe o Mundo (veja mais abaixo). Cosmópolis é uma coletânea de reportagens realizadas em 1929 pelo jornalista, poeta, advogado e tradutor Guilherme de Almeida para o jornal O Estado de S. Paulo retratando, com o uso de recursos poéticos, o cotidiano de oito bairros paulistanos influenciados pela presença estrangeira naquele período. Este material foi reunido em livro em duas ocasiões: 1962 e 2004.
A ideia, segundo explica a coordenadora da unidade de museus da secretaria de Estado da Cultura, Claudinéli Ramos, é fazer uma reflexão sobre o quanto São Paulo foi construída por esse conjunto de culturas e, ao mesmo tempo, o quanto essa diversidade cultural se reelabora para formar uma tradição tipicamente paulista.
Na Casa Guilherme de Almeida (Rua Macapá, 187, Pacaembu. % 3673-1883; terça a domingo, 10h às 17h), museu biográfico localizado na própria residência do escritor, que foi um dos mentores do movimento modernista brasileiro, será aberta amanhã, às 16h, a exposição Cosmópolis. O lugar terá dez painéis, nos quais trechos dos textos de Almeida ficarão expostos, juntamente com fotos ou ilustrações do final do anos 1920 dos bairros abordados pelo jornalista e imagens atuais desses locais. “Procuramos fazer uma ligação do passado e do presente de São Paulo por meio dos textos deleâ€, afirma o diretor do museu, Marcelo Tápia.
A crítica que Almeida escreveu à época sobre o documentário experimental São Paulo – A Symphonia da Metrópole, dos húngaros Adalberto Kemeny e Rudolph Lustig, será lida e discutida, também amanhã, após a exibição do filme, às 17h. A trilha sonora será executada ao vivo pelo músico improvisador Antônio Panda Gianfratti.
Segundo dados da secretaria, a visitação dos museus na capital saltou de 1.067.219 de pessoas, em 2007, para 2.484.035 (sem contar o Museu da Imigração, fechado para obras), no ano passado. “Esse aumento é fruto de um trabalho intensivo de melhoria da programação, das instalações e da divulgação dos museusâ€, justifica Claudinéli. Ela informa que iniciativas serão implantadas neste ano, como a abertura noturna ao menos uma vez por semana e um dia de gratuidade em cada museu ligado à secretaria.  ::

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Lotação com destino a Neville D’Almeida

Categoria: Celebridades, Cinema

IGOR GIANNASI

Logo na entrada do Sesc Santo Amaro, avista-se um ônibus especial que leva seus “passageiros†a um destino nada convencional: o universo do cineasta Neville D’Almeida. Quem se aproxima do veículo, revestido por dentro e por fora com fotos de trabalhos do diretor, de bastidores de filmagens, de cartazes e de pareceres da censura sobre os filmes, escuta o barulho do motor. Então, é só entrar e começar a viagem.

Chamada de CineLotação, a instalação faz referência à terceira maior bilheteria do cinema nacional, A Dama do Lotação, com mais de 6,5 milhões de espectadores – atrás de Tropa de Elite 2 e Dona Flor e Seus Dois Maridos. O filme, de 1978, é dirigido por D’Almeida e estrelado por Sônia Braga. O veículo, um velho ônibus de linha customizado pelo diretor e pelo curador Rafael Spaca, integra a mostra Neville D’Almeida – Além Cinema.

De hoje a 8 de julho, o diretor é homenageado com a exibição de 12 longas e 20 curtas-metragens, além de fotografias, peças de teatro, shows (com André Abujamra, por exemplo), conversas com atores como Lima Duarte e Nuno Leal Maia, workshops e debates sobre a obra do artista, com figuras como Jorge Mautner e Hector Babenco. O próprio cineasta participa de um encontro no dia 23, às 20h.

Segundo D’Almeida, este é o primeiro tributo que recebe em mais de 40 anos de carreira. “Nasci em Minas, moro no Rio e estou sendo homenageado em São Pauloâ€, diz ele, que também é artista plástico, fotógrafo, entre outras atividades artísticas. “Para mim como artista e como pessoa, é emocionante porque é uma coisa verdadeira, valoriza o trabalho e informa sobre ele.â€

Um dos diretores que mais sofreram com os cortes da censura durante a ditadura militar, D’Almeida destacou a sensualidade da mulher brasileira em suas produções, elevando a figura feminina à protagonista dos seus próprios desejos.

Foi assim com Sônia Braga em A Dama do Lotação, baseado na obra de Nelson Rodrigues, cujo trabalho também inspirou Os Sete Gatinhos (1980), com Regina Casé. Outro “maldito†que influenciou D’Almeida foi Plínio Marcos. Sua peça Navalha na Carne foi adaptada para o cinema em 1997, com Vera Fischer interpretando a prostituta Neusa Suely.

Claudia Raia também foi musa do diretor, na refilmagem de Matou a Família e Foi ao Cinema (1991).  Todos esses filmes estão na programação, que tem também o inédito Mangue Bangue, obra experimental nunca exibida no País, considerada perdida por quase 40 anos até ser encontrada na cinemateca do Museu de Arte Moderna de Nova York.

Também será exibido Maksuara – Crepúsculo dos Deuses, documentário realizado durante a estadia de dez dias do diretor na aldeia Aukre, no sul do Pará, junto de 700 índios kayapós. A convivência com eles rendeu ainda as fotografias da exposição Kayapoemas.  ::

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Vida e obra de Modigliani no Masp

Categoria: Arte, Exposição

FELIPE BRANCO CRUZ

Mulheres esguias de pescoços compridos e rostos finos com olhos ligeiramente puxados. A marca registrada da arte do italiano Amedeo Modigliani (1884 – 1920) será a atração da mostra Modigliani: Imagens de Uma Vida, que será aberta hoje ao público no Masp e vai até o dia 15 de julho.

O objetivo da exposição, no entanto, é ir além. Ao todo, estarão expostas 37 obras originais entre pinturas, desenhos e esculturas. Outras 22 obras de amigos de Modigliani completam a mostra, inclusive uma gravura de Pablo Picasso, com quem o artista manteve uma relação de amor e ódio.

Segundo Paulo Solano, presidente do Museu a Céu Aberto, instituição que organiza a mostra, a exposição tem como proposta retratar a biografia de Modigliani, que morreu jovem, aos 35 anos, pobre e vítima de tuberculose. A mostra tem orçamento de R$ 3,5 milhões captados por lei de incentivo. Porém, desse valor, ainda falta captar R$ 1 milhão.

A mostra tem curadoria brasileira de Olívio Guedes, diretor da Casa Modigliani, e internacional de Christian Parisot, presidente do Modigliani Institut Archives Légalés Paris-Roma. “Abordamos os 22 anos que ele viveu em Livorno, na Itália e os 14 anos que ele passou em Parisâ€, diz Guedes.

“Dentre as obras dos amigos de Modigliani, temos também as de Jeanne Hébuterne, grande amor e musa do artistaâ€. Jeanne também tem uma história triste. Assim que soube da morte de Modigliani, ela se matou, grávida, aos 21 anos, se atirando do quinto andar de um prédio.

Segundo Solano, foram necessários cerca de 5 anos para reunir todas as obras que vêm de acervos na Europa e Estados Unidos, pertencentes a institutos e colecionadores particulares. Uma tela pertencente ao acervo do museu também integra a mostra.

Além de quadros, estarão expostas gravuras e esculturas do artista, boa parte delas inédita no Brasil. A mostra, aliás, é a primeira no País inteiramente dedicada a Modigliani. E, para completar o caráter didático da exposição, o público poderá ver também fotografias e cartas particulares de Modigliani trocadas com amigos e familiares. “São documentos importantíssimos para entendermos a complexa vida deleâ€, diz Solano.

A obra mais importante da mostra é o nu de Celine Howard. “Esse quadro foi pintado em três sessões, cada uma durando entre duas a três horas. Celine era mulher do senhor Howard, que a acompanhou em todas as sessõesâ€, conta o curador Olívio Guedes.

Outra obra que se destaca é uma pintura com referência em uma cariátide (coluna em forma de uma figura feminina). No verso desse quadro, é possível ver o rascunho de uma outra pintura incompleta. “A escassez de dinheiro fazia com que ele aproveitasse materiais, muitas vezes, usando o verso dos quadrosâ€, diz o curador.

“Modigliani, assim como outros artistas, tinha consciência do valor de seus trabalhos e não jogava fora nem os rascunhos. É por isso que também é comum ver rascunhos em exposições.â€

Edgar Allan Poe é retratado como homem perturbado em ‘O Corvo’

Categoria: Cinema

Por Felipe Branco Cruz

A causa da morte do escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) sempre esteve envolta em mistério. O que se sabe é que ele foi encontrado delirando pelas ruas de Baltimore, nos EUA, vestindo roupas que não eram suas. Quatro dias depois, ele morreu. Durante esses derradeiros dias, suas últimas palavras teriam sido: “Está tudo acabadoâ€, “Escrevam Eddy já não existe†e “Reynoldsâ€.

Tomando como base a misteriosa morte de Poe, o longa O Corvo, dirigido pelo australiano James McTeigue, chega aos cinemas na sexta-feira (18), com John Cusack (de Alta Fidelidade) no papel do próprio escritor. O título tem como inspiração o nome de um dos poemas mais famosos de Poe, mas o roteiro do filme se apropria também de outros de seus contos de horror para acompanhar os cinco dias que antecedem a morte do autor, quando sua namorada é sequestrada por um serial killer. Junto com um detetive, ele percorre as ruas de Baltimore à caça do assassino.

O longa, porém, é uma obra de ficção. Poe nunca teve uma namorada sequestrada nem perseguiu bandidos. No entanto, em 40 anos de vida, sua prodigiosa imaginação produziu uma série de contos e poemas de horror, policiais e de suspense que inspiraram autores como Sir Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Stephen King.

Considerado um dos maiores nomes da literatura americana, Edgar Allan Poe é o escritor de língua inglesa que mais teve seus escritos adaptados para o cinema – mais de 200 filmes -, perdendo apenas para William Shakespeare e Charles Dickens. Um dos diretores que mais adaptou suas obras foi Roger Corman, de 86 anos, famoso por seus filmes B e que levou às telonas oito títulos com a marca de Poe.

Cusack interpreta um Poe perturbado por suas histórias e por um bloqueio criativo, causado pela bebida e pela morte por tuberculose de sua primeira mulher. Sua vida só começa a voltar aos eixos quando ele conhece a nova namorada, Emily Hamilton (Alice Eve). Só que ela é sequestrada pelo serial killer, o que causa mais uma reviravolta em sua vida.

O longa não é uma adaptação literal do poema O Corvo, apesar de citar algumas passagens dele. Na realidade, o filme reproduz as principais cenas de morte tiradas dos seguintes contos do romancista: A Máscara da Morte Rubra, quando o anfitrião é morto em uma festa; Os Assassinatos da Rua Morgue, quando mãe e filha são mortas de forma violenta; O Poço e o Pêndulo, quando um homem é cortado ao meio por uma lâmina suspensa num pêndulo; e O Coração Denunciador, quando a vítima é enterrada viva embaixo de uma casa.

Mais ou menos na mesma época de Poe, na França, Julio Verne começou a lançar seus primeiros livros. Os dois autores, atualmente, são considerados os pais da literatura fantástica e de ficção. Há, inclusive, uma citação a Verne no longa, com um dos personagens perguntando a Poe se ele conheceu o autor francês.

O resultado é um filme de suspense que remete visualmente à franquia de filmes de Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr. no papel principal. Mas esse clima tem fundamento. Poe, na vida real, cursou a academia militar de West Point (do qual foi expulso), conhecia algumas técnicas de luta e sabia manusear armas. Portanto, não é de estranhar a figura franzina do escritor cavalgando e atirando em um maníaco.

Quem não conhece Poe, depois de mergulhar no universo sombrio e sangrento do filme, deve sair da sala de cinema com vontade de comprar a coletânea Contos de Terror e Mistério, que reúne boa parte dos casos apresentados em O Corvo.

Mart’nália dá um passo para o pop

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

“Se algum desavisado ouvir o meu disco vai pensar que eu fiquei loucaâ€. A frase de Mart’nália chega rápido, seguida por uma longa e gostosa gargalhada. Uma herança do pai, o sambista de riso fácil Martinho da Vila. Cantora, compositora e percussionista, ela decidiu deixar o samba para o resto da família e partiu para o desconhecido. De mansinho, encostou pandeiro, cuíca e tamborim num canto, e vestiu a carapuça do pop. Sim, a filha do bamba renunciou o samba. Não Tente Compreender, novo álbum da carioca, que será apresentado nesta quinta, no HSBC Brasil, é um passo para um universo inóspito para ela.

Para guiá-la neste caminho sinuoso, pouco conhecido pela cantora de 46 anos, Djavan foi o nome escolhido e assina como diretor e produtor musical do projeto. Para conseguir convencê-lo, Mart’nália foi o cercando aos poucos, após seus shows, encorajada por algumas cervejas. “Tive de ir três vezes ao camarim dele, após os shows, para pedir. Na terceira, ele arregou (risos)â€, conta.

Ela foi chamada para ir ao sítio dele em Araras, cidade próxima de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “Ele começou a me falar das suas ideias de sonoridade, de cantar outras coisas. Tudo o que ele falava batia com os sentimentos que eu tinha. As pessoas já tendem a me mandar músicas sobre Vila Isabel, macumba, sabe? Mas não posso ser só isso.†Ela mostrou a canção Daquele Jeito, foi a primeira a sofrer a mutação. “Fui aceitando as sugestões dele.â€

O encontro com Djavan só ajudou a florescer o que já crescia em Mart’nália. “Estava na estrada com o mesmo pessoal há duas Copas do Mundo (2006, na Alemanha, e 2010, na Ãfrica do Sul). Ia para a terceira! Daí não dá, né?â€, brinca. Com o batuque e seu samba bastante percussivo, a cantora viu o mundo, da Europa à Ãfrica, fez parcerias com Caetano Veloso, Maria Bethânia e, veja só, até com a dona de um jazz refinado, Madeleine Peyroux. “Comecei a perceber ainda mais a harmonia, não só a percussão, que é a minha principal formaçãoâ€, diz. “Foi após Ãria (disco de Djavan, de 2010) que decidi que precisava mudar.â€

Ela não quer renegar o samba, nem esquecer o passado (seu e do pai). Mart’nália não consegue é ficar parada. Está sempre em movimento, para lá e para cá, como durante a entrevista por telefone ao JT: inquieta, riso solto, uma metralhadora de palavras e piadas. “Se eu pudesse, passaria os dias inteiros na praia (risos)â€, diz. “Música, para mim, é trabalho, o meu emprego. Eu consegui me impor do meu jeito, me mostrar, mas começou a ficar repetitivo. As pessoas compravam meu disco sabendo que era um samba bacaninha. Isso que eu não queria mais.â€

São os rótulos que enchem a paciência da percussionista. “Moro no Rio, tenho influências chegando por todos os lados. Ainda estou me encontrando.†Isso e o medo de estagnar. “Se eu ficar só no samba, posso perder muita coisa. Meu pai é um sambista eclético.â€

Com a proposta principal do álbum definida, Mart’nália foi atrás dos compositores parceiros habituais: Paulinho Moska, Lula Queiroga, Marisa Monte e Dadi, Max Viana, Ivan Lins e Zélia Duncan, Gilberto Gil, Caetano, Nando Reis e Adriana Calcanhotto. Reunidas, elas propõem uma viagem ao Rio de Janeiro, uma cidade boêmia e romântica. “Queria me firmar como uma artista carioca. Busquei canções que tivessem a ver com issoâ€, diz. Vai Saber, canção de Calcanhotto, por sua vez, já era para ter sido gravada antes, em Menino do Rio (2006). “Eu perdi o CD que ela me entregou com a música. Fiquei com vergonha de pedir outro, então, peguei a versão gravada pela Marisa Monteâ€, explica.

Toda a con fiança no disco, apesar do “friozinho na barrigaâ€, vai embora quando o papo é o show. “Peguei uma guitarra emprestada com o Tony Bellotto (do Titãs), mas não sei se vou conseguir fazer tudo sem o pandeiro na mão (risos).†Um passo de cada vez.