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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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Walter Salles na estrada

Categoria: Cinema

LUIZ CARLOS MERTEN
Enviado especial a Cannes

Da morte do pai à última fronteira da América, que os personagens de Walter Salles tentam em vão desbravar, On the Road é sobretudo a dilacerante história de uma amizade rompida (na realidade), mas que se eterniza na arte.

Agora que o cabo das tormentas foi ultrapassado, pode-se respirar fundo e dizer – havia motivos de sobra para temer pela adaptação do livro mítico de Jack Kerouac. O primeiro, ou principal motivo, é justamente porque se trata de uma obra mítica, cuja fama sobrepuja suas qualidades literárias.

On the Road não é o livro mais bem escrito do mundo, embora sua escrita “musical†faça com que os diálogos pareçam embalados em jazz, e isso é muito interessante. O livro também tem muitos personagens, e essas figuras transfiguradas pela arte são reais e deram origem a um movimento que marcou época e teve desdobramentos na história da cultura norte-americana.

Sal, aliás, Jack Kerouac, Dean/Neal Cassidy, Carlo/Allen Ginzburg viraram faróis da chamada beat generation, mas em On the Road eles ainda são jovens num relato iniciático. Toda a grande história veio depois, como o jovem Guevara que também se inicia na estrada em Diários de Motocicleta, pode estar gestando ali Che, mas ele só surgirá depois.

Em Diários (2004), Walter Salles já abordara o mito antes mesmo de sua criação, e isso lhe deu as chaves para fazer On the Road – que deve estrear em julho no Brasil. Na coletiva após a exibição do filme para a imprensa, ontem pela manhã aqui, no 65.º Festival de Cannes, o produtor Roman Coppola, filho de Francis Ford, lembrou a complicada gestação do filme, incluindo os anos que Salles passou na estrada, buscando locações e criando o documentário que, sem dúvida, o ajudou a sedimentar uma visão mais aprofundada do projeto.

Kristen nua, sexo e estrada
Ontem, na coletiva de On the Road, houve um momento, logo de cara, em que a coisa poderia ter degringolado. Uma jornalista do Canadá queria saber como foi filmar em seu país – quando o filme atravessa quase 100 mil km dos EUA.

Outro, norte-americano, queria saber de Kristen Stewart como foi fazer as cenas de sexo e se Robert Pattinson, o namorado dela (na série Crepúsculo e na vida)… A pergunta ficou no ar, cortada pelo moderador Henri Béhar e pelo próprio diretor do filme, Walter Salles, que tinha muito mais a dizer sobre sua adaptação do livro cult de Jack Kerouac do que ficar alimentando os sites de fofocas.

Preparação

“Foi necessário um longo período que nos tomou oito anos para fazer esse filme. No processo, fiz um documentário que terminou sendo uma ferramenta importante na compreensão e aprofundamento da aventura toda. Foi muito importante ter encontrado o filho de Neal Cassidy, representado como Dean no livro de Kerouac. Ele forneceu uma espécie de bússola ao nos lembrar que os personagens de On the Road precedem a explosão da Beat Generation. E é disso que se trata. A história trata do despertar político e social de dois jovens que descobrem uma geografia humana que é estranha para eles. É também a história da escritura de um livro mítico e de uma amizade rompida, que se eterniza justamente pela literatura.â€

Atores

 “Considero todos os atores como coautores desse filme. Porque com a entrega e as pesquisas que fizeram, me permitiram ir mais longe que o livro, mas sem deixar de permanecer fiel a Kerouac. Trabalhamos num espírito de improvisação permanente. E, embora seu papel seja pequeno na tela, Viggo Mortensen foi fundamental. Quando filmamos sua última cena, ele me deu carona, para que a gente fosse conversando. Mas ele colocou uma gravação com a voz do seu personagem, o verdadeiro (William) Burroughs. Ficamos em silêncio durante todo o trajeto, só ouvindo. Viggo pesquisou sobre o que Burroughs escrevia na época, sobre os livros infantis que sua mulher poderia estar lendo para os filhos, sobre a arma que utilizava. Tudo veio dele e foi incorporado à produção, que ficou mais autêntica nos detalhes.â€

Viggo Mortensen, sobre sua relação com o livro

 “Havia lido On the Road quando jovem, mas reli pouco antes da filmagem. Só aí tomei consciência do seu caráter atual. Há hoje uma rejeição da crise econômica e das autoridades, e elas vêm principalmente dos jovens. É por isso um momento oportuno para se fazer este filme. As pessoas da minha geração verão o filme com nostalgia, mas os jovens vão poder se identificar com a época e seu espírito de contestação. O que mais me agrada no texto de Kerouac é a liberdade de interpretação que ele propõe. Walter fez alguma coisa nova sobre esses personagens. Não se contentou em oferecer uma simples cópia de suas palavras e ações.â€

Kristen Stewart, sobre aparecer nua na tela

 “Poderia dizer que Walter criou uma ambiência que libera o ator de suas inibições, mas na verdade é um risco que quis correr, conscientemente. Gosto dessas personagens que me confrontam, que me permitem sair da minha zona de conforto e ir ao limite. Marylou é uma personagem que ousa. Não creio que ela estivesse querendo ser parte de um movimento. Ela queria ser ela mesma e isso é uma coisa com a qual consigo me identificar. Para mim, se alguém encarna o espírito de liberdade do livro, é ela. Durante a filmagem, nos momentos de dúvida, eu sentia sua presença muito próxima, como se nos guiasse.â€Â  ::

Meio século de rock’n'roll com Erasmo Carlos

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Erasmo Carlos hesita alguns segundos e, por fim, responde: “Bicho, pensar que completo meio século de estrada é um tanto assustadorâ€. As contas do Tremendão começam em 1961, quando assinou seu primeiro contrato profissional com a gravadora Mocambo. Tinha 20 anos e era membro da banda The Snakes. No ano passado, com os 70 anos recém-completados, ele se deu uma homenagem, com a gravação do CD e DVD ao vivo 50 Anos de Estrada, uma parceria entre a gravadora Coqueiro Verde e o Canal Brasil.

O palco não poderia ser mais simbólico e, por que não, transgressor. A apresentação se deu no Theatro Municipal do Rio, com Erasmo acompanhado por uma banda mezzo roqueira, mezzo erudita. O trio Filhos de Judith, os guitarristas Dadi e Billy Brandão, o baixista Pedro Dias e o baterista Alan Fontenele formam o lado rock’n’roll; o maestro e tecladista José Lourenço comanda uma orquestra de cordas de 12 músicos, entre violinos, violas e violoncelos. “Coloquei champanhe no feijãoâ€, brinca Erasmo.

O registro do show realizado em julho de 2011 só chegou às lojas agora, quase um ano depois, causando uma certa confusão na discografia do Tremendão: a apresentação registrada finalizava a turnê do disco Rock’n’Roll, de 2009. Pouco depois, Erasmo lançou seu novo álbum, Sexo, e passou a excursionar com um novo repertório. “O show é parecido, mas colocamos músicas novas.â€

São cinco décadas de rock’n’roll, meio século de atitude controversa e respostas ácidas, cinquenta anos de guitarra a tiracolo e pé na estrada. Falando de Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro o músico, ídolo da Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos, mantém o bom humor quando explica por que tem aversão à palavra “carreiraâ€. “Eu prefiro falar que são 50 anos de estrada, bicho. Carreira é algo para executivos formados, burocratas, profissionais qualificados. Estrada tem a ver com poeira, é muito mais rockâ€, define. “E carreira, hoje em dia, é mais ligada à cocaína, né, bicho? (risos)â€

Erasmo garante que diariamente vê vídeos de bandas novas na internet pelo Youtube, ouve canções no Myspace, está ligado nos comentários do Twitter, mas não consegue citar nenhum nome de novo talento que tenha lhe chamado a atenção. É um dinossauro num mundo tecnológico. Sua presença, ativa e criativa, na cena musical tem sabor vintage. Mostra às novas gerações como se pode viver do rock com dignidade.

Hoje é possível lançar um disco usando apenas um computador e alguns programas de edição; na contramão disso, Erasmo comemorava seu início de carreira quando as gravadoras ainda eram importantes – o único caminho entre músico e público. “O problema dessa geração é exatamente esse. É essa massificação. Qualquer turminha de colégio grava, banda que toca em festinha, incentivada pela família. E tudo fica perfeitinho com esses programas. Perfeito, afinado, ninguém erra. E a emoção está no erro.â€

O erro e a espontaneidade estão presentes nesse novo registro comemorativo, principalmente quando Roberto Carlos, uma das participações especiais ao lado de Marisa Monte, sobe ao palco para cantar Parei na Contramão e É preciso Saber Viver. Os dois batem um longo papo, contam divertidas histórias ao público como amigos num bar de esquina. Ambos aos 70 anos, ambos com cinco décadas entre palcos e estúdios.

“Assusta, claro, mas também enalteceâ€, diz Erasmo, voltando ao tema do início da entrevista. “É difícil pensar que a vida está mais curta. Mas também é bom perceber que cheguei a essa idade e ainda estou bemâ€. Sentado à beira do caminho, Erasmo percebe que tem ainda muito o que fazer.

LANÇAMENTO
‘50 Anos de Estrada’
Coqueiro Verde
Preços: R$19,99 (CD) e R$ 24,99 (DVD)

John Lennon e Yoko Ono sem cortes

Categoria: Sem categoria

FELIPE BRANCO CRUZ

O escritor e jornalista americano David Sheff, de 56 anos, eleito em 2009 pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, minimiza sua importância. “Não consigo influenciar nem meu filho.†O comentário baseia-se em sua experiência pessoal com o filho, de 28 anos, ex-viciado em drogas, que sofreu uma overdose e quase morreu. Um ano antes de entrar na lista da Time, Sheff tinha lançado o best-seller Querido Menino (Editora Globo), em que fala, de maneira comovente, da sua relação com o filho.
Na introdução deste livro, ele cita um trecho da canção Beautiful Boy (Darling Boy), de John Lennon: “When you cross the street, take my hand (Quando você atravessar a rua, segure na minha mão)â€, lançada no último álbum do ex-beatle, Double Fantasy, de 1980. Citar Lennon num livro tão pessoal e importante na carreira do autor denuncia a influência que Lennon teve em sua vida.
Quando tinha 24 anos, em 1980, Sheff passou três semanas com o casal John Lennon e Yoko Ono, e registrou 22 horas de conversas para a Playboy, que chegou às bancas dois dias antes do assassinato do músico, naquele mesmo ano. Obviamente que tantas horas de entrevista não caberiam nas páginas de uma revista. Foi por isso que, 20 anos após a morte de Lennon, Sheff lançou o livro A Última Entrevista do Casal John Lennon e Yoko Ono, com a transcrição na íntegra em 290 páginas. Somente agora, 12 anos depois do lançamento da edição americana, é que a obra foi traduzida para o português e lançada no País.
“Eu tinha só 15 mil palavras de espaço para escrever, o que significa apenas 5% do material total. Tivemos de cortar muita coisaâ€, diz o autor, por telefone, de sua casa em São Francisco, nos EUA, sobre a versão publicada na Playboy.
Além da entrevista, Sheff acompanhou parte das gravações de Double Fantasy. “Fui encontrar Lennon com 60 páginas de perguntas e não consegui fazer todasâ€, lembra. Esta, no entanto, não tinha sido a primeira entrevista de Sheff com uma grande personalidade. Antes, ele já tinha conversado com Steve Jobs, Tom Hanks e Keith Haring. Nervoso, o jornalista acabou encontrando um ex-beatle “muito gentil e calorosoâ€.
Sheff entrevistou Lennon nos estúdios, entre uma gravação e outra das músicas de Double Fantasy, no edifício Dakota, casa de Lennon e Yoko, e até no banheiro, onde eles encontravam algum silêncio. Das declarações dadas por Lennon, algumas impressionam pelo aspecto premonitório.
“Mahatma Gandhi e Martin Luther King são grandes exemplos de fantásticas personalidades não violentas que morreram de forma violenta. Não consigo entender isso. Somos pacifistas, mas não sei o que significa ser tão pacifista a ponto de levar um tiroâ€, disse Lennon a Sheff. Ou ainda: “O maior prêmio de todos é quando você morre – um prêmio grande mesmo por morrer em público. Ok. Essas são coisas em que não estamos interessadosâ€.
O livro oferece um panorama sincero e escancarado da intimidade de Lennon. A Sheff, o músico conta sobre como passou os últimos cinco anos da vida: “Andei fazendo pão e cuidando do bebêâ€, revela ele, que fala ainda sobre drogas, a morte da mãe, o distanciamento do pai, as críticas por casar com Yoko e a relação com os filhos Julian e Sean.
Numa dessas passagens, Lennon fala do relacionamento com Yoko. “Alguém me dizia: ‘Por que você está com essa mulher feia?’ E eu respondia: ‘Do que você está falando? Eu estou com a deusa do amor, que preenche toda a minha vida’. Por que alguém deseja me punir por estar apaixonado por ela?â€, desabafa Lennon.
Sem perceber, o leitor acaba se envolvendo de tal maneira na entrevista que tem a impressão de estar na mesma sala acompanhando a conversa, como um espectador privilegiado. “Na época, eu só pensava: ‘Esse cara incrível está aqui conversando comigo.’ Eu tinha 24 anos. Para mim, foi como um milagreâ€, diz Sheff. “As lições de John e Yoko jamais se perderam em mim.†::

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Tributo aos Irmãos Cara de Pau: ‘A boa música não morre’

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Ray Charles, Aretha Franklin, James Brown, entre outros grandes nomes do soul, R&B e funk, eram ofuscados por uma então nova onda musical que tomava as paradas de sucesso. Em 1975, a disco music tomou tudo de assalto nos Estados Unidos, com Donna Summer, KC & the Sunshine Band, Gloria Gaynor, Abba, Bee Gees. O filme Os Irmãos Cara de Pau (cujo título em inglês é The Blues Brothers) veio em 1980 para tentar consertar isso. Colocou os mitos da black music de volta ao mapa – todos eles participaram do filme, aceitando de imediato o convite, como contou o diretor John Landis, ao JT, em julho do ano passado.

É preciso entender o que o filme fez e seu reflexo na música atual, para perceber sua importância. “Esse filme realmente reinventou os artistas. Se hoje ouvimos novos músicos cantando blues, soul e R&B, é porque Os Irmãos Cara de Pau resgatou esse espíritoâ€, diz Brad Henshaw, produtor, ator e cantor inglês, que traz o espetáculo The Official Tribute To The Blues Brothers – The Smash Hit, ao Via Funchal, de hoje a sábado. São seis cantores e uma big band com 17 músicos para tocar clássicos do soul, blues e R&B ressuscitados no filme.

Henshaw assina a direção, a produção e ainda interpreta o protagonista Jake Blues, vivido pelo fanfarrão John Belushi (morto em 1982, vítima de uma combinação de cocaína e heroína). O show existe desde 1991 e, por onde passa, faz com que o público saia dançando e cantarolando. Na entrevista, Henshaw explica a força do blues, do filme e, claro, do show.

O espetáculo começou em 1991. Como resiste ao tempo, sem parecer repetitivo?
O show começou em Brighton, na Inglaterra, mas era diferente. Não era nada demais. Era um show, sem grandes atuações. Mas, aos poucos, os produtores foram percebendo que havia potencial para ser maior que isso. Foi crescendo entre 1991 e 1993, foi até a Austrália. Aliás, sabia que Russell Crowe interpretou Jake Blues, o personagem de Belushi, lá?

Russell Crowe, de Gladiador (2000). Esse Russell Crowe?
(Risos). Sim, é verdade. Eu cheguei ao show em 1994 e, no ano seguinte, comecei a escrever algumas coisas. Achei que deveria ter algumas mudanças. Foi em 2005 que virei produtor e diretor. E vivo Jack Blues também.

Como vê a receptividade do público para um show baseado num filme cult, sim, mas com 32 anos de idade. Não teme que fique datado ou nostálgico?
Olha, até pouco tempo, não tínhamos ido para os Estados Unidos. Comecei a escrever para esse show porque conhecia o filme, conhecia esses músicos de blues. Fomos para Chicago (cidade que colocou mais barulho no Blues do Delta do Mississippi), ficamos lá por oito semanas. E acabamos de passar por uma turnê exaustiva pela América. Em quatro meses, fomos de Los Angeles (extremo oeste dos EUA) a Nova York (extremo leste). Tocamos para 10 mil pessoas em Houston. A boa música não morre. O soul, o blues e o R&B continuam por aí, no rap, no rock, no hip hop. Os Blues Brothers reinventaram o blues e disse para as pessoas: “Não se esqueçam delesâ€. É isso que queremos mostrar nesse tributo a eles.

Você interpreta um personagem que era vivido pelo John Belushi. Tudo fica mais difícil, por causa das comparações?
Muito mais difícil! Ele era um ator incrível. Belushi tinha muito para dar, mas sua vida pegou um atalho e ele entrou para a família de John Lennon, Jimi Hendrix. Era um personagem complexo. Cheguei a conversar com a mulher dele para tentar entender mais quem ele era, para depois me aprofundar no personagem. Belushi parecia simples na superfície, mas era muito sensível.

Você falou que o show deveria ter algumas mudanças. O que você mudou, por exemplo?
Bom, o filme é cult, não só no Brasil, como na América e em todos os lugares que fomos. Mas são poucas as pessoas que sabem que os Blues Brothers eram uma banda, eles lançaram vários discos (11, no total). Queria que esse material estivesse no show. Que fosse como se os Blues Brothers, a banda, tomassem vida no palco.

Então, qual é a sua maior preocupação no palco: soar fiel ao filme ou aos artistas originais?
Temos de ser os melhores, sempre. É simples como isso. Sabemos que, quando alguém vai ao teatro, essa pessoa quer ter um bom divertimento. Quando não gosta do show, vai para casa pensando que gastou seu dinheiro com uma bobagem. Sei que as pessoas gostam de música. E é o que damos para ela. Aqui no Brasil, é assim também. A cultura brasileira é cheia de música, grandes artistas se apresentam aqui. Por isso, daremos o nosso melhor.

Você nasceu em Birmingham, certo? Como conheceu o soul e o blues?
Eu tinha o Rolling Stones, cara!

Em entrevista ao JT, John Landis, diretor do filme, disse que a música atual é tão cheia de referências ao blues, soul e R&B por causa do longa, que resgatou gente como Ray Charles e Aretha Franklin do ostracismo. Concorda com ele?
Você entrevistou o John Landis? Parabéns (risos). Falando sério, acho que ele está certo. Esse filme realmente reinventou os artistas. Se hoje ouvimos novos músicos cantando blues, soul e R&B, é porque Os Irmãos Cara de Pau resgatou esse espírito.

DIVIRTA-SE
The Official Tribute To The Blues Brothers – The Smash Hit
Rua Funchal, 65, Itaim Bibi. % 3846-2300.
Temporada de hoje a
sábado, às 22h.
Ingressos: R$40 a R$ 250.

Duas noites para celebrar Tom Jobim

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Basta cantar os primeiros versos de O Boto (“Na praia de dentro tem areia/Na praia de fora tem o marâ€) para que Miúcha sinta um arrepio percorrer-lhe o corpo. As lembranças com o autor da canção, Antônio Carlos Jobim, o Tom, chegam como uma avalanche. Alegria de lembrar as boas tardes de botequim, finalizadas nos apartamentos de um ou de outro, para novas composições. E tristeza pelo tempo que não volta mais.

No ano em que Tom Jobim (1927-1994) completaria 85 anos, o projeto Accenture Performances chega à sua sexta edição com o espetáculo Tom Jobim – O Tom Maior, o Tom da Natureza, o Tom do Brasil, hoje e amanhã, no Teatro Geo, numa grande homenagem musical ao maestro, compositor, pianista, violonista e cantor, com convidados especiais: Paulo Jobim e Quarteto, Danilo Caymmi, Joyce e Mônica Salmaso e, claro, Miúcha. O jornalista Sérgio Cabral, autor da biografia Tom Jobim, de 1987, assina a direção artística e é o mestre de cerimônias da festa.

Cada artista executa três músicas, à sua escolha. O Boto foi a primeira opção de Miúcha. “Essa canção não para de me maravilharâ€, conta a cantora. A música data de 1976 e abre o álbum Urubu, lançado naquele ano. Era um tempo em que Tom já tinha conquistado o status de gênio, aclamado aqui e no exterior (ele gravou dois discos com Frank Sinatra, no fim dos anos 1960 e início dos 1970). A sua bossa nova tinha se espalhado. Tom fez todo o disco do jeito que queria, chamou, inclusive, o arranjador Claus Ogerman, com quem tinha trabalhado nos discos com Sinatra, para os arranjos. E bancou tudo sozinho.

A delicada O Boto, que abre o disco, nasceu sob olhos e ouvidos atentos de Miúcha. “A cada dia, ele colocava mais palavrasâ€, lembra ela. “Nos encontrávamos à tarde, tomávamos cerveja e íamos testar harmonias. O Boto é de outra dimensão.†Com a canção na “peleâ€, como ela mesma diz, Miúcha chamou de volta Ogerman para retomar os arranjos, torná-los atuais.

A cantora ainda interpretará Retrato em Branco e Preto e Eu Te Amo, uma parceria entre Tom e o irmão dela, Chico Buarque, numa versão em francês. Uma nova homenagem ao amigo zombeteiro. “O Tom era muito divertido. E adorava falar francês, apesar de conhecer pouquíssimo a língua (risos)â€, relembra Miúcha. Quando ela, Tom, Toquinho e Vinicius de Moraes lançaram um disco ao vivo, gravado no Canecão, em 1977, eles viajaram pela Europa e passaram por Paris. “É uma nova homenagemâ€, conclui.

O tributo ao maestro Tom Jobim passeia por fases e sucessos do carioca. Seu filho, Paulo Jobim, abre as celebrações ao lado do Quarteto com Chovendo na Roseira. Danilo Caymmi, filho do aclamado Dorival, exibe Samba do Avião, Anos Dourados e Felicidade. Mônica Salmaso, de quem, segundo Sérgio Cabral, Tom seria fã se estivesse vivo, faz a sua versão da esplêndida Insensatez. Joyce canta as clássicas Ela é Carioca, Ãguas de Março e Estrada do Sol, uma composição de Tom lançada apenas em 1987. A festa termina com Eu Sei Que Vou Te Amar, cantada por todos.

O passeio por sua obra não poderia vir em melhor momento. O ano 2012 é de Tom. Primeiro chegou aos cinemas o documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, homenageado em Cannes este ano. Na cerimônia do Grammy, Tom foi lembrado no prêmio Mérito Especial. Por fim, há ainda mais um filme de Pereira dos Santos, chamado A Luz de Tom, prestes a ser lançado. Tom merece tudo isso, mas o mais divertido é pensar que talvez ele trocasse tudo por um boteco com vista para o mar.

DIVIRTA-SE
O Tom Maior, o Tom da Natureza, o Tom do Brasil
Teatro Geo.
Av. Faria Lima, 201, Pinheiros. Telefone: 3728-4930.
Hoje e amanhã, às 21h.
Ingressos: R$ 60 a R$ 100.