O novo recanto de Gal Costa
- 2 de dezembro de 2011 |
- 23h11 |
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Categoria: Música
ADRIANA DEL RÉ
Começa com Recanto Escuro. Gal Costa canta como se recitasse um poema melancólico que, quando engolido, parece que deixa um leve gosto amargo na boca. “Não salto mas sou carregada/Por asas que a gente não tem/A luz não me fulmina os olhos/Nem vejo bem”, diz ela, num trecho da música, em tom baixo.
Uma gravação que, a princípio, serviria apenas como voz-guia, mas que se tornou definitiva. Ao fundo, uma base eletrônica crua, assinada pelo produtor Kassin, acentua a marcação de cada verso. O clima emotivo da primeira faixa, no entanto, não é o predominante do novo disco de Gal, Recanto, produzido pelo amigo Caetano Veloso e pelo afilhado Moreno Veloso (filho do músico baiano) – e que chega às lojas na terça, dia 6.
Caetano assina também todas as canções: nove delas inéditas, compostas especialmente para Gal, e mais duas regravações, Mansidão e Madre Deus, selecionadas pela vocação que têm para se encaixar no contexto eletrônico desse trabalho. Sim, a musicalidade de Recanto é eletrônica. Uma novidade na carreira tanto de Gal quanto de Caetano.
Uma ousadia para dois expoentes da MPB, que já passaram dos 60? Ninguém reclama? “Não, somos tropicalistas”, brinca Caetano. E, convenhamos que ousadia não é propriamente um termo incomum para designar a discografia da dupla. Vide os agudos em gritos na década de 60 da cantora e os flertes eternos do cantor e compositor com outros ritmos.
“Ao contrário do que foi dito, o que eu fazia antes de Cê e Zii e Zie não era tradicionalista, conservador nem redundante. Era muito experimental”, defende-se Caetano, numa referência a seus dois recentes álbuns, que gravou acompanhado por um jovem power trio, sua banda de rock Cê. “Botar Jaques Morelenbaum, um naipe tipo Gil Evans, em choque com a percussão da Timbalada, com texto de Joaquim Nabuco. Se isso é conservador e repetitivo… (risos)”
Gal também rebate essa condição ‘tradicionalista’ atribuída a ela por quem só conhece um recorte de sua obra, tendo talvez como diretrizes discos com um repertório, digamos, mais clássico, como Gal Costa Canta Tom Jobim (1999), Gal Bossa Tropical (2002) e seu penúltimo Hoje (2005).
Afinal, nesses mais de 45 anos de trajetória, há (o hoje cultuado) Cantar (1974) no meio do caminho. “Não tenho problemas, me adapto perfeitamente às coisas arrojadas. Acho que experimentar coisas novas é bom, saudável, instigante. Com relação ao meu público, ele espera de mim tanto as canções padrões como essas ousadias”, acredita Gal.
A familiaridade com a não-padronização faz com que a cantora se sinta à vontade em aplicar sua voz lindamente afinada em programações eletrônicas. E cante, com elegância, a funkeada e divertida Miami Maculelê e a dançante Neguinho – que mesmo com um andamento rítmico não tão acelerado, já mostra seu potencial para as pistas.
Mas nada que uma versão remix dessa música não dê jeito. Esta faixa, aliás, foi um dos poucos momentos de discordância entre ambas as partes. “Se fosse pelo gosto da Gal, estaria num tom um pouco mais alto, e talvez no show venha a estar. Mas eu, teimoso, mantive o tom, porque queria que ficasse mais perto da fala”, explica Caetano.
Tirando isso, e uma ou outra coisa, compositor e cantora garantem não terem tido maiores desentendimentos durante o processo de feitura de Recanto, amplificando para vida essa união espiritual e essa conexão musical, como define a própria Gal.
Gal e Caetano se conheceram em 1963, em Salvador, por intermédio de uma amiga dele. Ela tinha uma aluna, cuja vizinha tinha uma bela voz. Marcado o encontro, o músico foi apresentado por essa amiga à sua aluna Dedé Gadelha (com quem ele se casaria em 1967) e a tal vizinha, que, por acaso, era Maria da Graça, a Gal.
Com Caetano, Gal gravou, em 67, Domingo, seu primeiro LP e levou adiante essa amizade e parceria musical. Os dois juram de pé junto que nunca tiveram um romance, mas admitem já ter rolado algum clima no passado, quando eram jovens.
“O que aconteceu foi o seguinte: ela era praticamente irmã de Dedé e eu logo namorei com Dedé quando conheci as duas”, trata de explicar Caetano. “Gal conta que, quando apareci para ouvi-la cantar e elas me conheceram, disseram: ‘Vamos ver com quem ele vai querer namorar (risos).” A cantora emenda: “Mas meu interesse em Caetano era musical e minha ligação com ele era muito mais musical do que carnal.”
Amor de mãe
De tão íntimos, o compositor eterniza agora, em letra e música, em O Menino, o estado de felicidade da amiga, motivado por seu filho Gabriel, de 6 anos, adotado em 2007. “A maternidade é um sonho, um desejo de anos. Eu não pude ter filhos. Nunca engravidei e achava estranho. Quando fui investigar, descobri que tenho obstrução nas trompas e, por isso, não pude ter filhos. Fiquei triste e desisti”, conta ela.
Em 2006, a notícia de uma mãe que jogou o bebê na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, a sensibilizou e fez pensar na possibilidade de reavivar o antigo desejo. “Acho que se eu tivesse parido um filho, eu não amaria tanto ele quanto amo Gabriel.”
Com esse novo repertório, Gal e Caetano planejam sair em turnê pelo Brasil, começando pelo Rio de Janeiro, em março. E com todas as texturas eletrônicas que lhes são de direito. Recanto é um álbum que causa estranheza à primeira audição.
Sobretudo pelo fato de a voz de Gal Costa – mesmo em versões mais arrojadas de outrora – nunca ter sido emoldurada por arranjos tão modernosos. Mas o ato de revisitar o disco todo, das faixas Recanto Escuro a Segunda, é benéfico à sua plena assimilação. E para se querer ouvi-lo outra vez.
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