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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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“Minha vida não é fácil”

Categoria: Celebridades, Cinema

ADRIANA DEL RÉ

A cara de moleque do diretor paulistano Fernando Grostein Andrade esconde sua idade e os anos de labuta que carrega nas costas. Hoje aos 30 anos, ele começou aos 15, como estagiário numa agência publicitária. E não parou mais.

A publicidade ainda faz parte da sua vida profissional, mas, como diretor, ele avançou também para o cinema. Aos 21 anos, lançou o primeiro curta-metragem, De Morango e o enviou para a produtora Paula Lavigne – que já havia sido apresentada a ele junto com Caetano por um amigo em comum – na esperança de que os dois fizessem uma parceria.

Paula gostou. Pouco depois, Fernando assinava a direção de um documentário de Caetano, Coração Vagabundo (2009).  Atualmente, ele está em cartaz com o documentário Quebrando o Tabu, que enfatiza o fracasso da guerra às drogas e defende a descriminalização delas.

O filme é ancorado por Fernando Henrique Cardoso, a quem o diretor teve acesso por intermédio de uma amiga da sua mãe, Marta Dora Grostein, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Filho do jornalista Mario de Andrade e irmão por parte de mãe do apresentador Luciano Huck, ele admite as facilidades proporcionadas pela influente rede familiar e de amigos. Mas garante: sua vida está longe de ser fácil.

Como está a repercussão de ‘Quebrando o Tabu?’
Está conseguindo, pelo menos, trincar um pouco o tabu, questionando a lógica de guerra às drogas. Não é fazer apologia ao uso delas. Ajuda também em algumas questões, como não ver o dependente de droga como uma pessoa que precisa ir para a cadeia, mas, sim, de tratamento. Esse debate está atingindo o público formador de opinião, mas ainda não chegou a uma esfera mais popular.

E como chegar a esse público?
O filme é um excelente instrumento para duas coisas: debate em sala de aula e para os filhos assistirem com os pais. É um bom gatilho para iniciar uma discussão. Recebi críticas de que o filme não tem dois pontos de vista. Como faço uma defesa árdua para que essa política de drogas seja norteada pelo princípio da paz e não da guerra, eu não seria capaz de fazer uma coisa que fosse isenta. Mas o filme mostra isso de forma aberta.

Você disse que esse projeto nasceu há dez anos, quando a Flora Gil chamou você para fazer o clipe de uma banda que Gilberto Gil estava produzindo na Favela da Rocinha. Além de constatar aquela realidade, viu amigos seus envolvidos com drogas?
Já vi gente usar drogas em tudo quanto é classe. Tive amigos que voltaram de rave e sofreram acidentes fatais. Ou tiveram experiência com crack. A gente tem de ser capaz de estender a mão e ajudar essas pessoas. A marginalização tem um efeito tão nefasto quanto a droga. Isso precisa acabar.

Você está em início de carreira e já dirigiu documentários com Caetano Veloso e FHC. Sempre foi precoce?                Perdi meu pai com 10 anos. Isso acabou me empurrando mais rápido para fora da zona de conforto. Comecei minha carreira com 15 anos, estagiando na agência DM9, na área de criação. Escrevi para o site da revista Trip, para a Playboy. Trabalhei em boate como promotor, DJ, iluminador. Fiz faculdade de administração e foi aí que percebi que eu não queria fazer nada disso. Eu queria, na verdade, fazer cinema.

E no colégio, você editou uma revista que trazia ensaio fotográfico com alunas e entrevista com José Serra. Foi uma publicação que dividiu opiniões?
Sim. Meu pai era editor da Playboy. Cresci vendo ele trabalhar. Acho que isso me influenciou. Na época do colégio, minha ingenuidade era tal, que, como eu trabalhei com o coração, achava que as pessoas iam gostar. Uma parte da escola adorou a revista e a outra, detestou.

Em ‘Coração Vagabundo’, esperava tanta repercussão do nu de Caetano?
Nunca imaginei. A cena aconteceu por acaso. A Paula (Lavigne) pediu para deixar essa cena, porque era a melhor parte. Naquele momento, eu estava filmando o making of. Não era nem um filme. Depois que comecei a juntar aquele material, vi que poderia ser algo maior.

Quem te auxiliou nesse processo de aproximação com o cinema?
O Francisco Ramalho Jr., produtor executivo do filme O Beijo da Mulher Aranha (1985), e o fotógrafo Lúcio Kodato. Tive sorte com alguns colegas, que foram generosos e me receberam para me ensinar as coisas, como Hector Babenco, João Moreira Salles e Walter Salles.

Acha que o fato de ser irmão de Luciano Huck, ter os pais que você tem e de crescer nesse meio ajudou na carreira?
Sim, tive a sorte de nascer perto de pessoas interessantes, inteligentes. Isso, sem dúvida, me ajudou em muitas coisas. O que não significa que minha vida esteja fácil. Tem gente que teve oportunidade e não se deu bem na vida ou que não teve oportunidade e se deu bem. Não existe uma regra.

O Luciano é produtor do filme, não?
Sim. Mas, por mais que goste de mim, ele não ia produzir um filme com um assunto tão polêmico se não acreditasse no projeto. Ele traz uma credibilidade grande. Ao mesmo tempo, tem um olhar inteligente sobre as questões.

Vocês dois sempre tiveram uma convivência próxima?
Sim. Lembro que, quando era adolescente, eu ia às gravações do Programa H (na Band), para vê-lo trabalhando. Ele é um comunicador de massa, tudo o que faz na vida dá certo. Então, é muito bom ter o apoio dele. Além de ser uma pessoa que eu admiro e amo muito.

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