João Donato e toda a força de um álbum só
- 19 de outubro de 2011 |
- 23h01 |
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PEDRO ANTUNES
João Donato atendeu o telefone de sua casa, em Los Angeles, e ouviu um executivo da gravadora Blue Tramp. “Faça um disco como quiser, com o que quiser. Você tem liberdade total”, foi o que o músico acriano ouviu do outro lado da linha. Liberdade total naquele ano, 1970, nos Estados Unidos, significava muito.
O rock’n’roll, com Janis Joplin e Jimi Hendrix, estava mais barulhento do que nunca. James Brown revolucionava o R&B e o soul. O Led Zeppelin trazia um novo conceito para o hard rock. Donato, cansado de ser visto como um pianista de bossa nova com sotaque latino, quis ser diferente. Lançou A Bad Donato, “o Donato do Mal”, um explosivo – e psicodélico – disco instrumental que trazia jazz, rock e elementos eletrônicos para uma realidade brasileira. Uma compilação de clássicos da primeira à décima música.
Buscando expor a importância de grandes discos da música brasileira, o Sesc Belenzinho promove, desde março deste ano, o projeto Álbum. O convidado da vez, nesta oitava edição, é o pianista e arranjador acriano, com o disco que completa, em 2011, 41 anos de lançamento. Donato se apresenta amanhã e sábado, às 21h, e domingo, às 18h.
Nas versões anteriores, os discos escolhidos foram do erudito ao pop, da genialidade de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, com a execução de Dança das Cabeças, disco gravado na Noruega em 1976, passando pela mistura de rock com ritmos nordestinos de Vivo (1976), de Alceu Valença, pelo ska tupiniquim dos Paralamas do Sucesso com Selvagem? (1986) e chega até ao manguebeat da Nação Zumbi, com Da Lama Ao Caos (1995). Todos discos que trouxeram inovações estéticas para a música brasileira.
E reviver álbuns clássicos está em voga. Não é uma ideia só daqui, não. A proposta de exaltar o disco como um todo, um trabalho único com músicas coerentes sob uma mesma proposta, segue contra o atual processo de individualização de faixas. No atual mundo do MP3 e das lojas virtuais que vendem a música individualmente, algumas bandas voltam a fazer apresentações relembrando seus clássicos na íntegra.
Casas de shows e arenas que recebem os verdadeiros fãs dos grupos, e não os curiosos ocasionais, corroboram com o acerto da ideia e colocam de lado a premissa de que as apresentações não passam de shows “caça-níquel”. Vide a apresentação dos escoceses do Primal Scream, em setembro, com o primoroso Screamadelica.
Um disco para experimentar
Com liberdade total e carta-branca para escolher e comprar o equipamento que bem entendesse, Donato passou duas semanas experimentando sonoridades de teclados eletrônicos e loops, para “descobrir o que fazia cada botãozinho”, como ele diz. “Também passei nas lojas de discos e comprei tudo de mais sucesso. De tudo, só fiquei com James Brown. Gostei do funk e do ritmo dele.”
Trata-se do primeiro disco de Donato só com teclados e pianos eletrônicos, nada acústico. “A ideia era que todos os instrumentos fossem dobrados: duas guitarras, dois trompetes, duas baterias, dois contrabaixos. Só com o último não deu certo, ficou embolado”, conta o músico. Ao todo, foram 18 instrumentistas convidados. Chamou os brasileiros Oscar Castro Neves (violão), Dom Um Romão e Paulinho Magalhães (revezando na bateria), além dos músicos da orquestra que acompanhava o americano Stan Kenton. Tudo arranjado em parceria com Eumir Deodato.
Foi a despedida de Donato de Los Angeles, já que partiria para o Rio de Janeiro dois anos depois. E deixou uma revolução para trás: o impacto que o álbum causou nos EUA criou um novo gênero musical, o discothèque, cuja evolução é a disco music. Nada mal, Donato.
DIVIRTA-SE
Projeto Álbum:
‘A Bad Donato’.
Sesc Belenzinho. Teatro. R. Padre Adelino, 1.000.
Telefone: 2076-9700. Amanhã e sábado (22), às 21h; domingo (22), às 18h.
De R$8 a R$ 32.
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