Inspirados pelo MMA
- 11 de fevereiro de 2012 |
- 23h00 |
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Categoria: Antenado, Comportamento, Lazer, TV
Por Marcela Rodrigues Silva
Há cerca de um ano, o Bar Mooca, na zona norte da cidade, contabilizava um de seus maiores públicos. No local, onde a lotação sentada é de 250 pessoas, mais de mil clientes se espremiam para conseguir ver de perto os televisores. Parecia final de campeonato de futebol. Mas, naquele momento, as chuteiras passavam longe da telinha. No centro das atenções, estava uma das lutas mais icônicas do MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês): Vitor Belfort e Anderson Silva se enfrentavam em campeonato do UFC (Ultimate Fighting Championship), maior evento do gênero. “Acompanho MMA desde 2009 e fiquei surpresa com a quantidade de pessoas que estavam ali”, lembra a bancária Priscila Vilella Barbosa, de 32 anos, que estava no bar naquele 5 de fevereiro de 2011. “Desde então, percebi que mais pessoas estavam atentas às lutas.”
Aquele embate foi um importante divisor de águas para como o esporte passaria a ser encarado pelos brasileiros. E dali por diante, o que era uma prática, muitas vezes confundida com algo violento, começou a ditar uma tendência de comportamento, que se tornou forte aqui em São Paulo.
As academias paulistanas começaram a investir em aulas que simulam golpes da luta para trazer benefícios físicos; as lojas apostaram em roupas e acessórios que fazem alusão a esse universo; bares, claro, se fortaleceram como pontos de encontro dos fãs de MMA. Como o próprio Bar Mooca, um dos pioneiros em transmitir essas disputas. Em noites de lutas menores, os televisores funcionam apenas com a imagem. O som só é ligado se alguém se interessa e pede. “E isso tem acontecido cada vez mais”, garante o gerente Fábio Augusto Raymundo.
O MMA, criado pelo clã carioca Gracie (saiba mais no box ao lado), nunca esteve tão em alta em sua terra natal, o Brasil, como agora. “O esporte foi criado em 1920 pelos Gracie no País, mas só em 1990 houve um boom dele nos EUA”, diz o jornalista Fellipe Awi, que vai contar a história da modalidade em um livro, que será lançado em abril, pela Editora Intrínseca. Por aqui, os fatores que contribuíram para a atual popularidade da luta incluem a desmistificação de sua imagem agressiva. “O esporte ficou mais seguro por causa das regras”, assinala Awi.
Não é à toa que a TV Globo, que já constatou as benesses do UFC no Ibope, decidiu, finalmente, fixá-lo em sua grade deste ano. Na disputa do dia 14 de janeiro, das 01h47 às 03h01, a emissora teve média de 14 pontos. Em comparação com a média do mesmo horário em 2011, registrou um aumento de mais de 75% de audiência.
Mas a cereja do bolo para os novos e antigos apreciadores do esporte chega em março no canal, com a estreia da versão brasileira do reality The Ultimate Fighter (TUF), nos moldes de um BBB, mas com temática de luta, ainda sem nome em português. Serão 32 lutadores na primeira etapa, mas só 16 entram na casa, que contará com os dois treinadores de peso: os lutadores Wanderlei Silva e Vitor Belfort, que, ao final do programa, em junho, se enfrentarão em revanche histórica – a primeira luta, em 1998, foi vencida por Belfort. Já o participante vencedor do programa receberá o título de Ultimate Fighter e um contrato com o UFC.
O lutador Rodrigo Nogueira, o Minotauro, de 35 anos, foi treinador da oitava edição da versão americana do reality, em 2008, cujos dois vencedores eram de sua equipe. “O reality americano ajudou a alavancar o esporte por lá e o mesmo deve acontecer aqui”, diz Minotauro. Para quem acha que verá apenas lutas, ele promete mais. “As pessoas verão o lado humano do lutador. Sofremos com saudade da família, dietas, temos superações físicas e psicológicos, e muitos sacrifícios.”
De brigões a exemplos
A imagem dos lutadores, usada de forma bem-humorada em propagandas de hambúrguer, de carro, entre tantas outras, foi outro termômetro para a Globo – e também aproveitada por ela. O público do Caldeirão do Huck se divertiu, por exemplo, vendo Anderson Silva, de peruca, dançando com Justin Bieber depois de ter aula com o astro teen. Já a novela das 9, Fina Estampa, retrata o drama do lutador Wallace Mu (Dudu Azevedo), que precisou parar de lutar por um problema de saúde e virou treinador do problemático Leandro (Rodrigo Simas). Anderson Silva, Vitor Belfort, e os irmãos Minotauro e Minotouro já fizeram participações especiais no folhetim de Aguinaldo Silva.
“Se o Leandro (seu personagem) treina, o Rodrigo também treina”, diz o ator Rodrigo Simas, filho do capoeirista Beto Simas e íntimo das lutas. Já Dudu Azevedo, que treina com o amigo e lutador Ricardo Arona, preocupa-se em fugir do estereotipo agressivo. “É um orgulho contar essa história.”
Impulsionada pela TV, a fama do MMA fez academias apostarem nos movimentos da modalidade em aulas de condicionamento físico. A estudante Natália Serra, de 17 anos, aderiu, no ano passado, à aula MMA Fitness, da Acqua Academia, na zona norte. “Emagreço, tonifico os músculos, me divirto. Quando conto o que faço na academia, todo mundo fica curioso.”
Segundo o treinador da Acqua Academia, Rodrigo Siqueira, o Bola, as aulas não são agressivas como os treinos. “As meninas, por exemplo, não precisam se preocupar”, explica. “Trabalhamos parte aeróbica e, depois, no chão, fazemos movimentos usados na luta. Só ao final deixo eles lutarem um pouco, mas com muito cuidado.”
Em janeiro, os lutadores Thiago Tavares, Toquinho e Murilo Bustamante sentiram na pele o assédio que vem no pacote da popularidade. Os dois foram à feira Couro Moda, no Anhembi, em São Paulo, anunciar a parceria entre as marcas Pretorian e Santino, para uma linha de malas e mochilas inspirada no lifestyle dos esportistas. O que não esperavam era tamanha repercussão. Crianças, marmanjos e tietes brigaram por autógrafos e fotos. O lutador veterano Murilo Bustamante, de 45 anos, vivenciou essa mudança de fase do esporte. “Comecei há 20 anos, quando ainda era chamado de vale-tudo. As pessoas tinham outra imagem de nós. Hoje, crianças nos param para tirar foto, jovens querem conselho. O esporte está sendo desmistificado e isso é muito legal”, comemora ele. “O que importa é o carinho do público em geral. O assédio é normal, de fã. Não incomoda”, completa Thiago Tavares, de 27 anos.
Nessa esteira, as marcas lucram com o esporte que virou queridinho no País. Enquanto a maior delas, da UFC, contabiliza 400 produtos licenciados, novas empresas surgem nessa boa maré. A Pretorian, por exemplo, foi criada há cinco anos para comercializar produtos de alta performance para lutadores. No ano passado, investiu em uma linha de moda casual inspirada no estilo dos lutadores e montou uma loja conceito na rua mais badala de moda da cidade, a Oscar Freire, na zona oeste. “O carro-chefe ainda são os produtos de performance, mas as roupas e agora as mochilas fisgam os novos apaixonados pelo esporte”, diz Ruy Drever, presidente da marca. Quer conferir esta popularidade? Prepare-se, pois no dia16 de junho é a vez de São Paulo receber os heróis do UFC.
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