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Quarta-feira, 30 de Julho de 2014
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Gay relata vida em campo de concentração

Categoria: Arte, Comportamento, Literatura

Imagem do livro Triângulo Rosa. Rudolf Brazda em frente da antiga prisão (foto: divulgação)

FELIPE BRANCO CRUZ
O horror pelo qual os judeus passaram nos campos de concentração nazistas está fartamente documentado em estudos acadêmicos, livros e filmes. Esses lugares, no entanto, também aprisionavam negros, deficientes físicos e mentais, ciganos e homossexuais. Todos eram considerados inferiores pelo regime e o tratamento que tiveram nesses campos ainda hoje não é amplamente conhecido.

 Rudolf Brazda, 98 anos, é, segundo o pesquisador francês Jean-Luc Schwab, o último sobrevivente do grupo que os nazistas denominaram de “triângulo rosa” e que era submetido a trabalhos forçados no campo de Buchenwald, leste da Alemanha. Os integrantes desse grupo, formado só por homossexuais, tinham um triângulo rosa aplicado no uniforme – assim como os judeus tinham a Estrela de Davi.

 
Lúcido e dono de uma vitalidade invejável, Brazda aceitou contar a sua história para Schwab. As declarações foram compiladas, os dados históricos checados e agora o pesquisador lança o livro Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista. “Todo gay era obrigado a usar no uniforme um triângulo rosa para ser facilmente identificado”, disse o autor, em entrevista ao JT. Ao todo foram deportados para campos de concentração 10 mil homossexuais.

Antes de Hitler assumir o poder, já havia uma lei que previa prisão para homossexuais. Durante o 3º Reich, a lei foi endurecida. Mesmo após o fim da guerra, ser homossexual continuou sendo ilegal na Alemanha, Áustria e França. “Cerca de 40% dos homossexuais sobreviveram aos campos, mas foram forçados a manter silêncio, já que eram considerados pessoas fora da lei”, destaca Schwab.

Trajetória insólita
A primeira história de um integrante do triângulo rosa só viria à tona em 1972, quando o austríaco Heinz Heger publicou sua autobiografia. “A história de Rudolf é mais interessante porque a sua trajetória de vida foi insólita, começando na Alemanha, passando pela Checoslováquia, retornando para a Alemanha e, por fim, terminando na França”, explica Schwab. “Essa movimentação por esses países não era normal em tempos de guerra.”

Detalhes sobre como era o tratamento dado a homossexuais no campo e que tipo de trabalhos eles faziam são revelados no livro. Uma das partes mais interessantes da obra é aquela em que o autor fala sobre como os prisioneiros mantinham relações sexuais dentro do campo de Buchenwald, já que eram agrupados num mesmo barracão.

 Um trecho do livro diz: “Para Rudolf, prestar os favores sexuais exigidos pelos mais velhos não agradava à sua sexualidade. Mas é um mal necessário.” O autor completa: “Tudo o que Rudolf me disse, eu tentei checar em documentos oficiais dos nazistas que foram arquivados por entidades como a Cruz Vermelha.”

 Schwab acredita, ainda, que a obra poderá servir de exemplo para que os homossexuais assumam sua sexualidade. “Rudolf é um exemplo brilhante. Durante o período nazista, ele foi muito aberto sobre sua opção sexual”, diz.
O livro traz uma série de fotografias da juventude de Brazda, além de cópias dos documentos que comprovam sua prisão pela Alemanha Nazista. Para o autor, um dos motivos pelos quais o ex-prisioneiro dos nazistas está vivo até hoje é a sua alegria de viver.

 “É uma questão de temperamento. Ele sempre teve a habilidade de esquecer as coisas ruins e focar nas coisas boas da vida”, explica o autor. Mas para Schwab, o mais importante da obra é a lição de vida que seu personagem central deixa. “Ele foi incluído pelos nazistas numa categoria a ser totalmente exterminada.

A vida de Rudolf Brazda, depois da libertação, foi feliz porque ele assumiu a sua homossexualidade. Ele é a prova de que levar uma vida plena não é impossível” -mesmo para quem passa por uma experiência tão terrível e desumana.  ::