“Eu prefiro ser loki mesmo”
- 7 de outubro de 2011 |
- 23h11 |
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PEDRO ANTUNES
Arnaldo Baptista é tido por muitos como gênio. Ele, no entanto, não gosta: é loki, não tem jeito. O apelido veio com seu primeiro disco solo, Loki?, de 1974. “É muito difícil ter esse lado de gênio. Eu prefiro mesmo ser loki”, brinca o músico, sentado no lobby de um hotel nos Jardins, em São Paulo.
Aos 63 anos, Arnaldo se veste como um garotão indie, com camisa xadrez azul e calça preta. Apenas seus pés, calçados com tênis de corrida, também preto, destoam desse figurino. Ele divide sua vida em duas partes: antes e depois do “renascimento”, como se refere ao coma em que entrou aos 33 anos, após sofrer traumatismo craniano numa tentativa de suicídio.
Hoje, o ex-Mutante vive de forma pacata, ao lado da atual mulher Lucinha (“sua menina”, como ele a apresenta), num sítio em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Lá, dorme e acorda com as galinhas, grava músicas, pinta telas e corre pelas manhãs.
Após lançar o instigante disco Let It Bed, em 2004, listado entre os melhores daquele ano, e ter sua história contada no documentário Loki – Arnaldo Baptista, de 2008, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, o músico está de volta em clima intimista.
Ele recebe o público no Sesc Belenzinho (R. Padre Adelino, 1.000, Belém), hoje e amanhã, às 18h. É parte do projeto do sarau O Benedito, em que ele toca temas de sua carreira em voz e piano. Detalhe: os 392 ingressos por dia foram esgotados em questão de horas.
Em entrevista ao JT, Arnaldo conversou sobre sua obsessão por tecnologia, ecologia e até a maldição de ser recordado sempre como um Mutante – banda da qual ele se desligou novamente em 2007, desentendendo-se com o irmão e cofundador Sérgio Dias. Com a fala às vezes pouco clara, de quem viveu anos de abusos, mas com os olhos inquietos e lúcidos, que lembram a criança renascida aos 33 anos.
O sarau começou num show na serra da Cantareira, em São Paulo, em julho. Como se tornou um projeto?
O piano de cauda ficava num palco, próximo a um lago e a alguns barcos. Era um ambiente ao ar livre. Adorei aquilo. Não era num grande teatro, com holofotes. Era como se estivesse na minha casa, tocando de manhã, sozinho. É um sonho.
Você falou que essa simplicidade lembra sua casa. Como é sua rotina por lá?
Olha, eu acordo cedo todos os dias. Desde a época do colégio. Naquela época, era mais triste, eu acordava cedo e ficava na cama. Agora eu levanto, pinto quadros, faço letras, estudo teclado, guitarra,contrabaixo, vou praticar cooper, almoço, gravo algumas coisas. Durmo às 21h.
Como se atualiza das novas tendências?
Eu normalmente procuro nas lojas de som. Gosto de avanços tecnológicos, de remixes ou temas mais eruditos.
Mas acompanha os festivais de música, tipo o Rock in Rio?
Acompanho, mas eu vou falar algo que não falei: eu nunca mais vou tocar com o Sérgio (Dias), um irmão perdido. Então, só vi o Frejat (no dia 1º de outubro).
Então, como você se inspira?
Às vezes, me empolgo com o filamento de uma lâmpada, por exemplo. Adoro esses avanços tecnológicos. Julgo se é uma inspiração plástica ou se vale uma letra. Adoro ver as evoluções. Vamos criar asas? Nos comunicar por telepatia?
Em março, você inaugura ‘Lentes Magnéticas’, uma exposição de arte individual sua, na galeria Emma Thomas, na Barra Funda. O que a pintura representa para você?
Depois da exposição, o lugar vai ficar conhecido como Barra Alta, não Barra Funda (risos). Mas isso é piração minha. O que eu dizia? Ah, a pintura me permite me expressar de uma nova maneira. Quando eu era pequeno, não tinha telas e pincéis. Só a música. Com a Lucinha, eu posso liberar esse meu lado.
Você também prometeu o disco ‘Esphera’ para 2011. Como está a produção?
Já pintei toda a capa e tenho algumas músicas que estou divulgando na internet. Mas não lembro de todas assim. Mas já estão gravadas e masterizadas. É bom ouvir de novo, porque resolvo colocar um miado, um pandeiro, uma guitarra.
Papos sobre sustentabilidade, tecnologia, uso das redes sociais. Tudo isso faz com que seu público seja mais jovem?
Sim. A Lucinha sempre fala isso. Talvez seja a minha segunda juventude involuntária. Eu tive essa quase morte aos 33 anos e quando eu renasci, tive de reaprender a falar, passei por uma fase de infância. Me identifico com esse pessoal.
E ainda tem gente que te pergunta sobre os Mutantes? Isso te incomoda?
O Sérgio, meu irmão, é muito ditador. Mas tem outra coisa interessante: eu estive com Sean Lennon (filho de John Lennon) e ele falou que uma coisa que o atrapalha muito é ser chamado sempre de “filho de John Lennon”. E, na hora em que ele falou isso, começaram a tocar Imagine (canção de Lennon, de 1971). Pensei: “Você sabe o que eu passo.”
Chamam você de gênio e de loki. Em qual você se encaixa melhor?
Acho que loki é mais profundo. Pode ser dividido em várias formas e faces. Podem falar que o Arnaldo é um gênio, mas um homem como o Sérgio (Dias) não quer a minha vida, com amplificadores valvulados e minhas guitarras Gibson. É muito difícil esse lado de gênio. Prefiro ser loki mesmo.
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