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Sábado, 02 de Agosto de 2014
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Djavan fala sobre trabalho, família e política

Categoria: Música

Adriana Del Ré

 

Cantor fala sobre o novo CD, política e família em entrevista ao JT (Foto: Div)

Cantor fala sobre o novo CD, política e família em entrevista ao JT (Foto: Div)

Em 34 anos de carreira, Djavan Caetano Viana sempre gostou de alimentar sua alma de compositor. Veio, então, o exercício de desprendimento, ao pensar em um disco com repertório alheio. Registrou suas escolhas no novo CD, (Luanda Records/Biscoito Fino, R$ 30), o seu primeiro apenas como intérprete.

Aos 61 anos, o músico alagoano, radicado no Rio de Janeiro, não pensa em aposentar sua composição. Continua na estrada, porém priorizando mais o clã. Casado pela segunda vez, vive há 12 anos com a designer Rafaella Brunini, 36, com quem tem dois filhos – Sofia, 8 anos, e Inácio, 3. Os caçulas se juntaram à prole mais velha, fruto do casamento anterior: Flávia, 37, Max, 36 e João, 33.

 Em entrevista ao JT, Djavan fala do novo trabalho, família, política e futebol.

Desde quando você pensava fazer um disco só de intérprete?
Há muito tempo, eu queria voltar a trabalhar com músicas de outros compositores e dar uma suspendida na produção das minhas canções. Há 30 anos, gravo discos autorais. Mas agora eu quis descansar um pouco de mim.

Como foi definir um repertório com músicas de outros autores?

Fui usando critérios, como reminiscências da minha infância e da adolescência, da época em que eu trabalhava em boates.

O que desse repertório remete a essas lembranças afetivas?
Da infância, tem Sabes Mentir, que minha mãe cantava em casa quando eu tinha 5, 6 anos. Nada A Nos Separar, que fez parte de boa parte da adolescência. E Brigas Nunca Mais, que cantei quando eu era crooner. Há, também, os ídolos da minha adolescência, como Chico, Caetano, Gil.

 
O que aconteceu na entressafra entre o álbum anterior, ‘Matizes’, de 2007, e o atual?
Fiz muita coisa nesse período que não tinha feito ainda. Tenho dois filhos novos. Eu queria estar mais junto deles, pois viajo demais. Foi um novo aprendizado, pois meus primeiros filhos já são adultos. E trabalhei na pesquisa deste disco.

E o que você consegue fazer mais hoje com seus filhos menores?
Faço de tudo. Brinco, levo e busco na escola todos os dias, vou às festinhas dos amigos. É uma delícia. Tem uma coisa que é meio chata, que é festinha de criança. Não aguento mais olhar para aqueles doces. Entro e saio sem tomar nem água. Festa de criança foi o diabo que inventou (risos), embora ela seja necessária.

Bateu arrependimento de não ter feito isso com os mais velhos?
Não tenho problema de culpa, porque era começo de carreira. Era natural que eu não tivesse tempo. Apenas estou tentando ganhar o tempo que perdi, para que eu não deixe de usufruir uma coisa tão boa, que é a relação com filhos pequenos, vê-los crescer.

Você tem uma carreira internacional consolidada, mas houve uma época em que realizou vários trabalhos fora do Brasil. Gravou com Steve Wonder, conheceu o produtor Quincy Jones …
Eu e Quincy somos amigos até hoje. Uma vez, ele me perguntou se eu queria conhecer Michael Jackson. Eles estavam em estúdio mixando Bad. Quincy pediu para eu fazer uma música para Michael. Fiz, mas achei difícil ele querer uma canção com pegada brasileira.

Qual sua impressão de Michael?
A impressão claríssima é que ele parecia… Sabe passarinho? Não conseguia ficar parado, o coração dele batia mais rápido. O Michael era um passarinho. Quando você olhava para ele, desviava o olhar. Era um pouco assustado.

Voltando ao Brasil, algum novo compositor tem chamado sua atenção?
Gosto da Maria Gadú. Ela pode fazer uma carreira muito boa.

Você contou que já sofreu preconceito por ser negro. Como vê essa questão atualmente?
Evoluiu bem menos do que deveria. É difícil resolver o racismo numa sociedade de brancos, preparada pelo branco e para o branco. As cotas nas faculdades são um paliativo. É típico de uma sociedade que não quer resolver o problema e o empurra com a barriga. A solução é igualdade de oportunidade.

O fato de ter se tornado um músico conhecido fez com que o preconceito contra você mudasse?
Comigo as coisas se deram forma diferente à medida que consegui impor um trabalho. Sou negro, nordestino, no entanto, não faço samba de morro nem música nordestina. Nasci num gueto, filho de lavadeira com olhar sofisticado para as coisas. Imagina a luta que tive para impor minha personalidade. E graças a isso estou aqui.

Sua infância foi difícil. Sua mãe foi a mantenedora da casa?
Sim, sustentou a família sozinha: eu, mais dois irmãos e dois primos. A pessoa criada só pela mãe ou pelo pai tem metade da referência prejudicada. Meu pai morreu quando eu tinha 3 anos. Na verdade, ele sumiu da nossa vida. Nunca soube se meu pai realmente morou com minha mãe. Mas ela, uma nordestina arretada, teve força para criar todos e fez de cada um de nós pessoas de bem.

Chegaram a passar fome?
Houve momentos de escassez de alimento, sim. Eu talvez menos, mas minha mãe ficou muitas vezes sem comer.

Nunca houve uma figura masculina que substituísse seu pai?
Não. Ela nunca mais teve ninguém. Sou o temporão. Ela estava mais velha, trabalhando muito.

Qual sua opinião sobre o governo do presidente Lula?
Acho que foi um governo bom para o Brasil. Lula acertou ao conseguir fazer, pelo menos, parte do que sempre desejou: diminuir a diferença social no Brasil. As pessoas que estão na miséria ou sem salário para se manter melhoraram suas vidas. Mas a postura dele com relação a todos os escândalos envolvendo o PT foi reticente.

Você votou nele?
Sim, nas duas vezes. Mas não aprovo o desejo dele de botar a Dilma para esquentar a cadeira, para ela levantar em 2014. Acho uma bobagem ele pensar dessa forma. Não é bom para sua biografia.

Pelo jeito, Dilma Rousseff não está em seus planos de voto?
Ela está anos-luz disso. Vou votar na Marina Silva. Não acredito que ela vá ganhar, mas é uma mulher valiosíssima. Mas se ela ganhasse, será que conseguiria fazer o que quer? Não iria.

Quando jovem, você jogou futebol. Como avalia o desempenho do Dunga na Seleção Brasileira?
Ele foi um pouco vítima também de todo esse processo. Não adianta só querer crucificá-lo, quando se tem o Ricardo Teixeira (presidente da CBF), que o colocou lá. Teixeira tem de ser responsabilizado. Por que o presidente do País é eleito para dois mandatos e o presidente da CBF fica lá para sempre?

E o fato de Dunga não ter levado para a Copa do Mundo jogadores como Ganso e Neymar?
Sempre achei o Dunga muito burro, mas não estou aqui para falar mal dele, porque já foi embora. O Brasil inteiro já tinha testado esses meninos, menos ele.

E o que acha de Mano Menezes?
É esperto. Sabia que a primeira coisa que tinha de fazer é o que o povo quer. Ele fez e os meninos deram espetáculo. A gente tem condição de jogar bonito. Começaram a mudar isso depois que quiseram copiar os esquemas dos europeus, que precisam recorrer a isso, por não terem a arte do nosso futebol. Não precisamos. Temos de botar os caras melhores para jogar e fim de papo.