Devaneios de uma escritora virtual
- 1 de março de 2011 |
- 23h35 |
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Categoria: Literatura
Felipe Branco Cruz
O nome dela é Maria Lúcia. É viciada em sexo virtual, vodka, literatura e miojo. Sua vida particular é um desastre. A virtual, porém, é um sucesso. Criada pelo jornalista e escritor pernambucano Lula Falcão, 54 anos, Maria Lúcia ganhou vida própria. Seus devaneios foram acompanhadas pelos seguidores de Lula no Twitter e em seu blog: lulafalcao.blogspot.com. A repercussão foi tanta que a personagem ganhou o papel e deixou a vida virtual para habitar as páginas do livro Todo Dia Me Atiro do Térreo #Tuiteira, que acaba de ser lançado pela editora Bookess.
“Criei a personagem baseado em alguns perfis que via no Twitter e outras redes sociais. Diria que 90% das situações no livro são ficções e deliberadamente exageradas”, diz o autor. Os textos do livro são escritos em formato de pequenas pílulas (ou seriam posts?), recriando a forma como eles seriam publicados na internet. Esses posts saem diretamente da quitinete onde Maria Lúcia passa a maior parte de seus dias. Os textos falam sobre tudo, principalmente sobre ela mesma, que conta as desventuras para escrever um livro ou roteiro. Fora de lá, sua vida é um desastre. “Os casos amorosos são um fracasso. Assim como as tentativas dela de escrever um livro”, diz Lula. “Fiquei uns seis meses publicando semanalmente posts no Twitter e no meu blog. Depois, reuni tudo, reescrevi algumas coisas e lançamos o livro”, conta.
A obra tem prefácio da roteirista e escritora Adriana Falcão e texto da orelha do jornalista Xico Sá. Neles, os escritores exaltam o humor negro e a forma que a personagem Maria Lúcia encara a vida. “Prefiro morrer de vodka do que de tédio. Taí um belo post, com apenas 39 caracteres, do kamarada @Maiakovski. @MariaLucia retuitaria de imediato. Antes de mais um comprimido de tarja preta”, escreve Xico Sá. Lula Falcão já atuou como repórter da revista Veja e no jornal O Estado de S.Paulo. Hoje, trabalha com comunicação corporativa. “É isso que me possibilita dedicar-me à literatura.”.
O autor fala da sua personagem como se ela fosse real. “Maria Lúcia tem uma cultura que adquiriu por osmose, frequentando círculos de intelectuais. Mas o que ela quer é curtir a vida”, explica. Numa das passagens do livro, Maria Lúcia conta como escreveria suas memórias: “‘Todo Dia me atiro do térreo’ é o nome do meu livro de memórias. Pelo menos, das partes que me lembro. Minha infância, por exemplo, estava num pen drive. Perdi. A adolescência foi passada entre quatro paredes. Inventei uma”, diz a moça.
Lula conta que escrever um livro a partir da internet foi uma novidade para ele. “Escrever um livro que sai da internet e vai para o papel é um caminho contrário. Apesar de tudo, escrevi coisas exclusivas para o livro e retirei outras datadas, escritas para a internet, como textos sobre a Copa do Mundo. Ainda temos essa ligação com o livro de papel”. Histórias do mundo real ou virtual, é divertido ler as opiniões exageradas de Maria Lúcia. Seja sobre política, sexo, artes ou amor. Como no trecho em que a personagem fala onde mora. “Saí da casa dos pais direto para a classe C. Um cômodo num cortiço. A quem pergunta onde moro, respondo: um loft na Vila Madalena. Sem mais detalhes”
Leia abaixo trechos do livro:
Hoje de manhã, quando acordei para ir ao banheiro, um passarinho cantava na minha janela. Olhei direito: era o do twitter. Devo ter tomado alguma coisa muita pesada ontem para estar vendo isso. Mas o bicho parecia real. Cantava. Até ai, mais ou menos. Só que a música tinha letra. A vozinha atacava de “Mister Sandman”, num inglês bastante convincente para uma ave.
Leio no Globo que viciados em Internet têm mais de risco de depressão. Não é o meu caso. Já entrei na Internet deprimida.
No mais, álcool e cigarro. Sou favorável à lei antifumo, mas não vejo muita vantagem em ser enterrada na ala dos não-fumantes. Alguns dizem “você está se matando”. Respondo: você também. Anos e anos de academia ou anos e anos de Marlboro cedo ou tarde darão no mesmo lugar.
“Todo dia me atiro do térreo”© é o nome do meu livro de memórias.Pelo menos das partes que me lembro. Minha infância, por exemplo, estava num pen drive. Perdi. A adolescência foi passada entre quatro paredes, inventei uma. A vida adulta está meio prejudicada pela vodka, mas as passagens mais trágicase estarão mescladas com informações do Google. Roubei umas vidinhas parecidas com a minha.
Vou terminar o roteiro e o casamento. Não preciso de amor e carinho. Meu negócio sempre foi sexo e isso eu resolvo sozinha.
Lidarei comigo com condescendência, sem exigir nada em troca. Exceto, claro, alguns orgasmos auto-induzidos. É o que se leva deste mundo.
Se Deus existir, entra na lista: sexo, vodka, Internet e Deus. Nessa ordem.
Os americanos, por exemplo, se planejam demais e por isso muitos deles são infelizes. “Temos um jantar na casa dos Watson daqui a seis meses”, não é assim que dizem nos filmes? Porra, daqui a seis meses os Watson podem estar mortos.
Comecei a ler O Novum Organum, de Bacon, para ver se fico mais profunda e filosófica. A tentação intelectual está me matando. Mais do que álcool. Nos dois casos, bebo em boas fontes, mas o álcool desce melhor, redondo, enquanto os livros às vezes batem na trave. Já leu Wittgenstein? Tentei. No dia seguinte amanheci com gosto de cabo de guarda-chuva tautológico na boca. Não entendimento também dá ressaca.
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