Criolo mostra rap com nova embalagem
- 1 de maio de 2011 |
- 23h04 |
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Categoria: Música
‘Não Existe Amor em SP’
PEDRO ANTUNES
O rapper Kleber Gomes ainda lembra do frio que sofreu há uns dois anos. Ele não sabe precisar a data, mas a cena está gravada em sua memória. Caminhou sozinho pelo escuro centro de São Paulo. Saía do espaço Matilha Cultural, na Rua Rego Freitas em direção ao Largo do Arouche. Encontraria o amigo que trabalha na cozinha do restaurante francês La Casserole. Sem dinheiro para consumir nada lá dentro, ficou do lado de fora. Ao lado de um estacionamento e em frente ao Mercado de Flores, avistou um homem.
“Ele estava muito louco”, lembra. Veio o sopro para a canção Freguês da Meia-Noite. Um bolero! O Criolo Doido, como é conhecido Kleber, não estava maluco, mas, ampliando, ainda que inconscientemente, as fronteiras do rap. Para ele, a inspiração vem assim, como um sopro. Ou como estampido seco e rápido. Numa espécie de crônica, um momento qualquer ganha poesia, letra e melodia.
‘Subirusdoistiozin’
Há um ano e meio, no momento em que pensava em aposentar o microfone, Criolo foi convencido a fazer mais um disco, o seu segundo. Reuniu dez dessas músicas e encarou, pela primeira vez, o gênero da “canção”, ou seja, cantando e não só rimando. Nó na Orelha, em três dias desde o seu lançamento digital, na última quarta-feira, contabilizou 25 mil downloads no site oficial do músico (www.criolo.art.br). “Ainda é preciso contar os outros links que estão sendo criados para baixar o álbum. Já encontrei uns 15. Acho que deve ter chegado a uns 50 mil”, estima. Tudo de forma viral, o novo trabalho de Criolo circulou pela internet rapidamente. O CD e o vinil chegam na segunda metade de maio. Já o show de estreia está marcado para 2 de junho, no Sesc Vila Mariana.
Um dos produtores do disco, Daniel Ganjaman – que trabalhou com Sabotage, Racionais, Planet Hemp e Otto – colocou em seu perfil no site Soundcloud, as músicas Grajauex e Subirusdoistiozin, há cinco e quatro meses, respectivamente. O estouro veio há 60 dias, quando Não Existe Amor em SP foi colocada para ser ouvida em streaming (sem a possibilidade de fazer o download): foram 33 mil execuções.
A canção é a representação máxima da sensível crônica social de Criolo. “São Paulo é um buquê, buquê são flores mortas / Num lindo arranjo, arranjo lindo feito pra você”, canta – isso mesmo, canta – Criolo, que continua: “Não existe amor em SP /Os bares estão cheios de almas tão vazias /A ganância vibra, a vaidade excita /Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fé /Aqui ninguém vai pro céu”. É como se o rap tivesse ganhado uma nova roupagem. Nesta, por exemplo, a embalagem é de um soul triste, com violinos de Luiz Gustavo Nascimento, acompanhando uma voz melancólica de Criolo.
‘Grajauex’
No fim de 2008, com 20 anos de serviços prestados ao rap nacional, ele se via num momento de despedida. “Lancei o DVD Criolo Doido Live in SP. Era uma saideira. Um agradecimento”, diz. “Então, um amigo meu do Matilha Cultural, que sempre me via compondo, disse: ‘Fica calmo. Vamos fazer um disco. Assim você registra esse monte de coisa que você faz, que é muito bonito’”.
Como “monte de coisa”, entenda mais de 70 músicas ainda inéditas de Criolo. “Eu sou aquele cara que vive enchendo o saco dos amigos, mostrando as músicas, meus boleros, sambas, samba-rock”. O amigo pediu ao rapper para permanecer anônimo. A sua contribuição, no entanto, foi vital. Foi ele quem apresentou Criolo ao outro produtor do disco, Marcelo Cabral. “Ele quis dividir o trabalho com o Daniel Ganjaman”.
A dupla de produtores foi responsável por lapidar todo o extenso material de Criolo. Das 70 canções, compostas ao longo de 8 anos, foram selecionadas 10. Depois disso, foi preciso tornar reais os arranjos imaginados pelo rapper. “Eu não sou músico”, explica. “Tudo, arranjos, letras, eu tenho na cabeça. Mas eu ia cantando para eles até que chegássemos às versões finais das músicas”.
O resultado desse trabalho são dez canções de ritmos variados. É possível ouvir um bolero de Freguês da Meia-Noite, um sambinha em Linha de Frente. Criolo é humilde, mesmo diante de um trabalho excelente. “Vou dizer que componho, sou um compositor de samba-rock, samba ou bolero? Sou somente um aprendiz”.
O rap, a mensagem, a busca por algo melhor estão lá, da mesma maneira. Em Bogotá, primeira faixa, ele cita a fictícia Pasárgada, de Manuel Bandeira. A cidade ideal, onde somos todos amigos do rei, é, pois, o que o rap busca, em sua excelência. “Ele aponta o que precisa ser melhorado”, explica. Nesta outra roupagem, os pensamento de Criolo ganham chance de atingir muitos mais. E, assim como a inspiração vem rápida, como um sopro, suas músicas marcam rapidamente. Como um estampido seco.
DEZ CRÔNICAS NUM ÚNICO DISCO
1 – Bogotá
Um afrobeat dançante para abrir o disco de um rapper. Criolo mostra que pode, muito bem cantar, mesmo sem ter uma voz clássica. Uma crítica social latina.
2 – Subirusdoistiozin
Logo vem um rap mais clássico. A letra, com vocabulário coloquial, mostra a capacidade de Criolo em trabalhar com as palavras e gírias.
3 – Não Existe Amor em SP
O hit do disco. Suingada, a canção exibe o lado mais sensível das letras do rapper, com lindos arranjos de Ganjaman e Cabral.
4– Mariô
Parceria com Kiko Dinucci, também teve um processo de composição diferente. Foi apresentada a melodia para,
então, Criolo escrever a letra.
5– Freguês da Meia-Noite
A bela melodia do bolero esconde um rap daqueles: um usuário de drogas aguarda o vendedor, mas, no frio e solitário, decide não comprar os entorpecentes.
6– Grajauex
Novamente um rap com pegada mais tradicional. Criolo se mostra à vontade em versar dessa maneira, com rimas criativas e uma forte crítica social.
7 – Samba Sambei
Neste reggae interessante, Criolo pede: ‘não baixe a guarda, a luta ainda não acabou’.
8 – Sucrilhos
Essa é velha conhecida de quem frequenta os shows de Criolo. Os versos são de rap, mas o refrão soa como maracatu.
9 – Lion Man
A mais densa do disco começa com arranjos de violino. Transforma, metaforicamente, a caminhada de um artista independente numa partida de xadrez.
10 – Linha de Frente
Num samba, pede pela inocência das crianças e reverencia Maurício de Sousa, da Turma da Mônica.
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