Com o diabo no corpo
- 9 de fevereiro de 2011 |
- 23h24 |
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Felipe Branco Cruz
A cena é tensa. O padre Lucas Trevant (Anthony Hopkins) está tentando exorcizar um demônio do corpo de uma menina grávida. O seminarista cético Michael Kovak (Colin O’Donoghue) assiste a tudo. Quando o demônio está pronto para se revelar, o celular do padre Lucas toca e ele atende a ligação. “Não posso falar agora, estou trabalhando”, diz ele, antes de desligar. “O que foi? Pensou que todo exorcismo precisa ter cabeças girando e vômitos de sopa de ervilha?”, ele diz para o boquiaberto seminarista.
Essa quebra de tensão exemplifica bem o que é o longa O Ritual, que estreia amanhã e tem no elenco a brasileira Alice Braga. “Quando estávamos no set de filmagem, foi inevitável fazer aquela piada para Anthony: ‘Por favor não me morda’. Ele riu”, disse Alice sobre como foi contracenar Hopkins, mundialmente conhecido por seu papel como o canibal Hannibal Lecter, de O Silêncio dos Inocentes (1991), quando ganhou o Oscar. Alice interpreta a jornalista Angeline, que viaja até o Vaticano para descobrir se os exorcismos são verdadeiros ou fraudulentos.
Hopkins, inclusive, em entrevistas à imprensa internacional, considerou seu personagem em O Ritual mais interessante que Hannibal Lecter. “Ele entrou de corpo e alma no personagem. Ficou de joelhos, berrou, realmente viveu aquilo”, diz Alice sobre o colega de filmagem.
O Ritual, em sua essência, não difere muito de longas como O Exorcista (1973), O Exorcismo de Emily Rose (2005) ou O Último Exorcismo (2010). O filme se propõe a mostrar uma visão diferente do ritual, humanizando-o, como se exorcizar demônios fosse algo corriqueiro entre católicos. Mas a história cai na mesma vala comum dos filmes já citados ao explorar cenas de terror repletas de efeitos especiais para tentar explicar os fenômenos sobrenaturais.
Baseado em fatos reais
O filme, no entanto, parte de uma premissa verdadeira, usando como base uma determinação do Papa João Paulo II, para que todas as dioceses do mundo contassem com, pelo menos, um padre exorcista em seus quadros. O seminarista Michael, justamente por ser cético a respeito disso tudo, é designado por seus superiores a ir até Roma fazer um curso de exorcismo no Vaticano. Como não acredita em nada do que está sendo ensinado, ele é convidado a assistir a uma sessão de exorcismo do experiente padre Lucas.
A história do Padre Lucas e da jornalista Angelina é baseada na vida do padre Gary Thomas, de Saratoga, na Califórnia, que teve sua vida contada pelo jornalista Matt Baglio no livro The Rite – The Making of a Modern Exorcist (O Ritual – A Criação do Exorcista Moderno, na tradução livre), no qual o filme foi baseado. “Conheci o padre Gary. O exorcismo para ele é algo cotidiano. Para o padre, a maioria das suspeitas de possessão são, na realidade, casos psiquiátricos”, diz Alice. “Mas ele acredita, sim, em possessões”.
Provavelmente para atrair mais público, o longa exagera nas cenas de terror, em vez de focar um terror mais psicológico. Mas é atuação de Anthony Hopkins, certamente, que salva o filme. Mesmo no papel de padre, o ator consegue ser incrivelmente assustador. Num dado momento, ele solta uma risada tão sinistra que assustará até os mais durões. O Ritual será mais um longa que entrará para a vasta lista de trabalhos memoráveis de Hopkins.
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