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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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Batidas de vanguarda

Categoria: Baladas, Música

Festival Sónar leva 30 mil ao Anhembi para dançar e vibrar, literalmente, ao som de música eletrônica

Felipe Branco Cruz

A música eletrônica tomou conta do Anhembi no fim de semana. Cerca de 30 mil pessoas (14 mil na sexta-feira e 16 mil no sábado) conferiram a segunda edição do festival Sónar. Pelos três palcos do evento passaram artistas conhecidos do grande público como Cee Lo Green, e DJs seguidos exclusivamente por amantes das pick ups, como o inglês Rustie.

A grande atração do primeiro dia foi a banda alemã Kraftwerk, com um ótimo show cheio de projeções em 3D. Dentre os clássicos da banda, fundada na década de 70, estavam Autobahn, Radioactivity e The Robots. O grupo originalmente não estava escalado para o festival, mas substituiu a cantora islandesa Björk, que cancelou sua vinda por problemas nas cordas vocais. Mesmo em meio a um set list cheio de ícones gringos da música eletrônica, Criolo e Emicida também se destacaram na programação. No segundo dia, o bonachão Cee Lo Green comandou a festa. Seus maiores sucessos, Crazy e Fuck You!, que ganhou até versão sem o palavrão mas teve o refrão entoado sem censura, pontuaram o setlist. As surpresas foram os escoceses do Mogwai, o inglês James Blake e os franceses do Justice.

Conforto e apelo comercial
A infraestrutura do evento não deixou o público passar aperto – a impressão era que o local comportaria o dobro de pessoas tranquilamente. A situação foi tranquila até na parte logística, para chegar ao Anhembi e estacionar o carro. Praticamente não houve filas para comprar bebidas e comidas ou para os banheiros. Entre um show e outro, havia lugares para sentar e fazer um breve descanso, além dos totens para carregar celulares. O resultado foi muito conforto para o público dançar e se divertir. Os palcos, afastados um dos outros, evitou que os sons se misturassem em apresentações simultâneas.

No caminho entre uma atração e outra, porém, o visitante era bombardeado por stands comerciais dos patrocinadores do evento: anúncios de carros, salgadinhos, celulares, aparelhos de som e videogames pipocavam mas, por outro lado, poucas placas informativas orientavam o público sobre os locais dos shows, com o agravante das mudanças de horário e atrasos. Ao menos uma pessoa foi detida com aparelhos de celular roubados.

Exceto pelo palco Sónar Hall, montado dentro de um auditório, o som dos outros dois palcos, Sónar Club e Sónar Village, estavam ruins devido à péssima acústica. No Hall, no entanto, o problema era outro. Como a entrada com comidas e bebida era proibida, os seguranças afunilaram a entrada para facilitar a fiscalização, criando, um gargalo e dificultando o acesso de quem tentava entrar ou sair do local.

O clima de uma grande balada prevaleceu. Entre o público, havia uma divisão clara entre os adoradores de música eletrônica comercial, que se sentiam em uma grande casa noturna. Outros estavam ali atrás de seus DJs preferidos, ainda com pouca projeção por aqui. O saldo do Sónar, bastante positivo, provou que há demanda para eventos como esses na cidade, e que eles podem ser realizados de forma organizada.

Cee Lo Green diverte o público
O cantor americano bonachão Cee Lo Green se mostrou animado em sua apresentação na noite de anteontem, no palco Sónar Club. O músico pulou, dançou, tirou a camisa e, claro, cantou seus dois principais sucessos: Crazy e Fuck You!. O segundo hit (que ganhou uma versão comportada com ‘Forget You’ no refrão), foi entoado em coro. A apresentação teve espaço para músicas como Let’s Dance, cover de David Bowie, e Gone Daddy Gone. “Sexo, drogas e rock and roll, esse é o meu negócio”, disse Cee Lo à plateia. O som, no entanto, prejudicou a apresentação do cantor. Os graves estavam muito alto e era praticamente impossível ouvir alguns dos instrumentos. Ouvia-se com perfeição a bateria, mas a guitarra, por exemplo, parecia não existir. Apesar do frio, Cee Lo Green suou muito e, ao final da apresentação, abaixou a calça para a plateia depois de tomar um gole de vodca e jogar a garrafa vazia para o público da primeira fila.

A terceira dimensão da música eletrônica
Com óculos 3D distribuídos na entrada do evento, o público testemunhou uma apresentação inédita e histórica no Brasil do grupo alemão Kraftwerk. Pela primeira vez no País, os brasileiros tiveram a oportunidade de ver um show em 3D. E o resultado agradou. Pelo menos aqueles que conseguiram encontrar um bom lugar, com uma visão ampla das projeções no palco. O quarteto, como de costume, se posicionou imóvel diante de suas mesas equipadas com seus computadores enquanto, nos telões, vídeos em alta definição provocavam reações entusiasmadas do público.

Da apresentação, merecem destaque Autobahn, Radioactivity e The Robots. Mas foi com Numbers que a banda impressionou mais, também visualmente: os números 1,2,3,4,5,6,7,8 saltavam no telão com uma qualidade impressionante. Kraftwerk provou porque vem influenciando, desde a década de 70, os rumos da música eletrônica.

O peso das guitarras vindas da Escócia
O quinteto instrumental escocês Mogwai foi uma das grandes surpresas do festival. Sua apresentação no palco Sónar Hall foi explosiva e visceral. O público mal se conteve sentado nas cadeiras do auditório. A apresentação não poupou os ouvidos da plateia jogando o som lá no alto, em uma apresentação com quase uma hora de duração, no segundo dia de evento.

Destoando do estilo musical do festival, a banda levou um pouco de peso metaleiro para o Sónar. A plateia parece não ter se importado, muito pelo contrário, entrou no clima de transe e acompanhou animada a apresentação. A banda estourou o tempo permitido que tinha no palco – e foi depois advertida pelos organizadores. O final do eletrizante show, quase épico, merece destaque. Foram quase dez minutos de puro rock, com um dos guitarristas do quinteto estourando quase todas as cordas do instrumento. Esta foi a segunda vinda do Mogwai no Brasil. A primeira foi há dez anos, também em São Paulo, quando eles se apresentaram no palco do Sesc Vila Mariana.

No show, Criolo manda recado para Dilma
Apenas 30 minutos depois da banda Kraftwerk subir no palco Sónar Club, Criolo deu início à sua apresentação no palco Sónar Hall. O local era o que tinha a melhor acústica do festival pois estava montado dentro de um auditório. E foi ali dentro, com parte do público sentado, que o rapper fez uma das melhores apresentações do festival, ainda que em um horário que pouco o favoreceu, pela concorrência internacional.

No repertório, de seu CD Nó Na Orelha (2011), o músico cantou Mariô, Subirusdoistiozin, Samba Sambei e a dobradinha Freguês da Meia-Noite e Não Existe Amor em SP. No palco, Criolo parecia estar em transe, curtindo cada momento do show. O público, claro, percebeu e retribuiu, cantando cada uma de suas músicas. No telão, Criolo aproveitou para mandar um recado para a presidente Dilma Rousseff exibindo a frase “Veta Dilma”, em referência à alteração do Código Florestal, aprovado no Congresso e que aguarda a decisão final presidencial. A apresentação foi encerrada com Grajauex e Bogotá.

James Blake faz as paredes tremerem
O músico britânico James Blake foi uma das atrações mais aguardadas pelo público, que pôde acompanhá-lo nos dois dias de festival. Na primeira apresentação, o músico atuou como DJ, antes do Kraftwerk, em um show modesto, sem empolgar muito a plateia. Anteontem, porém, Blake voltou a subir no palco, desta vez com seu sintetizador, acompanhado de um guitarrista e um baterista. Com muito efeito, Blake exagerou nos graves, fazendo literalmente cadeiras e portas do auditório do Sónar Hall tremerem, num efeito quase perturbador. O músico incluiu no repertório Limit To Your Love, cover da cantora Feist. Blake também cantou e sampleou seus vocais ao vivo. A apresentação foi encerrada com The Wilhelm Scream.

Los Hermanos tocam sucessos no primeiro show

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

“Vamos para cá. O Amarante fica aqui”, diz uma garota de menos de 20 anos seguida por um punhado de amigos, após apontar para o lado direito do palco do Espaço das Américas, na noite de anteontem. Seis anos após anunciarem um hiato, os cariocas do Los Hermanos se reúnem hoje sob uma aura de Beatles entre sua extensa legião de fãs. Qual é seu Beatle favorito: Paul, John, George ou Ringo? E o seu hermano: Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina, Rodrigo Barba?
Juntos, eles não produzem nada desde 4, quarto disco da banda, lançado há longos sete anos, e seu público, como se pôde notar no primeiro dos quatro shows que a trupe vai mostrar em SP (quinta, ontem e dias 31/5 e 1º/6), com ingressos esgotados, renovou-se. Jovens com pouco mais de duas décadas de vida eram maioria no Espaço. Barbudos de camisa xadrez, antes dominantes, eram achados aqui e ali, em pequenos grupos.
O rock e a MPB independentes devem muito aos hermanos. A voz suave de Marcelo Jeneci que saía das caixas de som antes de o show ter início era prova disso. O próprio músico começou a compor material próprio inspirado pela dupla Camelo-Amarante. Híbrido de samba, ska, rock lo-fi e sussurros de MPB, Los Hermanos criou o próprio gênero. Letras densas, músicas suaves. Tão antagônico que deu certo.
E tão certo que os 15 minutos de atraso pareciam uma eternidade. Coros chamavam a banda quando as luzes se apagaram e foram engolidos por uma histeria de dar inveja a Morrissey e Noel Gallagher, que se apresentaram recentemente ali. Os riffs de O Vencedor, joia pop do Ventura (2003), terceiro álbum do grupo, foram acompanhados por 8 mil vozes delirantes. Catarse com clima de nostalgia, mas ainda assim impressionante. É como encontrar aquele velho melhor amigo, companheiro de alegrias e tristezas. O tempo passou, mas quando o papo começa, tudo é como antes.
Os hits seguiam, um atrás do outro, enquanto lágrimas escorriam de rostos emocionados e as filas para comprar cerveja desapareciam. Todos se juntavam à massa para ouvir (e berrar em coro junto com eles) Retrato Pra Iaiá e Todo Carnaval Tem Seu Fim.
O ritmo alucinante é quebrado por O Vento e Morena, do quarto e mais lento álbum. Nas duas horas de duração do show, a banda mostrou que aprendeu bem a bolar um set list. Apesar das poucas variações em relação às sete apresentações anteriores da turnê, eles agitam e descansam, aceleram e freiam, mantendo o show numa boa média de velocidade. E, veja só, teve até uma inédita, a malemolente Um Milhão, de Rodrigo Amarante e deve integrar seu disco solo, programado para este ano.
Aprenderam, também, que um pouco de ensaio não faz mal a ninguém. O que se viu na noite de quinta-feira em nada lembrou a apresentação em São Paulo no Just a Fest, em 2009, e no festival SWU, no ano seguinte. Paradinhas, solos, tudo ocorria mais azeitado do que antes. E o público, claro, percebeu a entrega. “Está muito lindo isso aí no fundo”, disse Camelo. “Obrigado. De Verdade.”
A banda estava animada. Enquanto Barba fazia sua parte em manter todos no ritmo e Gabriel Bubu, um hermano nas últimas turnês do grupo, completava a cozinha, Camelo e Amarante se divertiam no palco. O primeiro dançava e pulava num pé só e Amarante fazia suas caras e bocas habituais.
O som do espaço, infelizmente, não ajudou. A voz de ambos era abafada pelo coro de 8 mil pessoas com mais frequência do que o normal e uma microfonia estragou o momento introspectivo de Amarante, em Do Sétimo Andar.
O primeiro disco, mais punk e ska do que os outros, ganhou destaque com Azedume, Descoberta e, no bis, com Tenha Dó, Quem Sabe, Pierrot e até Anna Julia. Tudo com direito a Amarante descendo do palco e perambulando pelo fosso. Sorte do grupinho de Amarantemaníacos, que acertaram o lado do palco em que ele estaria. ::

Pop do Chromeo entre o retrô e o moderno no Sónar

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Entre tanto experimentalismo e vanguarda, o som do duo canadense Chromeo chegará como um alento aos ouvidos cansados na segunda edição do festival Sónar. Um refresco pop, sob bases do eletrofunk, no meio da madrugada, às 2h de sábado.

Num termômetro pop, eles perdem apenas para o hip-hop e soul Cee-Lo Green para se ter uma ideia, mas David Macklovitch (apelidado de Dave 1, guitarra a voz) e Patrick Gemayel (P-Thugg, sintetizadores e teclado) não fogem totalmente da proposta do evento. Há, sim, as batidas eletrônicas dançantes, os sintetizadores subindo e descendo as escalas, e a voz de Dave 1 pode ser tão robótica como a do Kraftwerk, principal atração da primeira noite, substituindo a desistente islandesa Björk.

“Acho que podemos nos encaixar um pouco nesse conceito de vanguarda”, analisa P-Thugg. Mas as doces formas pop de suas canções os aproximam de outros festivais, como o Coachella, na Califórnia. “Esse é o nosso segredo, conseguir se encaixar na camada vanguardista e na mais popular.”

Chromeo vem ao País pela terceira vez (estiveram aqui em 2008 e 2010) impulsionado pelo disco Business Casual, o terceiro deles, lançado somente em formato digital por aqui, pela Warner Music (US$ 11,99, pelo iTunes). Um álbum com boa reunião de instrumentos orgânicos e eletrônicos. Chromeo, com oito anos de estrada, estabelece seu lugar em frentes tão distintas. Night By Night, primeiro single do trabalho, traz um riff de guitarra de hard rock para revestir o vocal robótico e as batidas dançantes trazidas diretamente da década de 1980.

Tudo faz parte da proposta do duo canadense, que resgatou o eletrofunk criado pelo DJ nova-iorquino Afrika Bambaataa, e suas batidas quebradas e em looping (ou seja, em repetição contínua). Os barulhinhos nas músicas aqui e ali e as vozes cheias de distorções são herança da revolução alemã do Kraftwerk, há 40 anos. “Costumamos, sim, usar elementos do passado em nossos discos. Acho que os aspectos vintage precisam ser atualizados com a música contemporânea, ou perdemos o contato com o futuro”, explica P-Thugg.

A ideia aí é olhar para trás, para poder assim dar um passo à frente. Todos os trabalhos da dupla são feitos apenas com equipamentos antigos. “Usamos um computador com o Windows 95 instalado”, conta. “Consegue imaginar isso?” Tudo dá um sabor sujo ao som dançante, numa confusão temporal: afinal, é velho ou moderno?

De São Paulo, P-Thugg guarda alguns discos comprados na Galeria do Rock, na região central da cidade. “Achei aquilo tudo demais, Eram tantas lojas”, lembra o músico, sobre a vinda em 2010. “Comprei muitos discos de soul e black music brasileira. Ouço muito Jorge Ben Jor e Tim Maia, o James Brown brasileiro.”

DIVIRTA-SE
Sónar
Parque Anhembi. Rua Olavo Fontoura, 1.209. Sexta, às 19 h; sábado, às 15 h. R$ 115 a R$ 400.
 

Ópera teen com o trio italiano Il Volo

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Da janela do hotel na Cidade do Panamá, o italiano Ignazio Boschetto olha para as ruas da capital panamenha e diz, ao telefone: “Gostei muito do clima daqui, da praia. Mas estou realmente ansioso para conhecer o Brasil, as praias, o carnaval”. O papo com o jovem, de 18 anos, foi há duas semanas. A pouca idade era evidente na voz que chegava do outro lado da linha, mas ela engana.

Boschetto é dono de potentes cordas vocais de tenor. Com Piero Barone e Gianluca Ginoble, também jovens italianos – o primeiro tem 18 anos e o outro, 17 –, eles formam o trio Il Volo, uma versão teen de Os Três Tenores, que era composto por José Carreras, Luciano Pavarotti e Plácido Domingo.

Os garotos soltaram seus vozeirões ontem, com ingressos esgotados, e repetem a performance hoje, às 21h, no Teatro Bradesco, ainda com entradas disponíveis. Boschetto não sabia que o carnaval já foi e que a capital paulista não tem praias. “Sério? Mas sei que tem bastante italiano aí, certo? Vamos comer muita massa”, brinca.

O Il Volo é um fenômeno na Itália. Logo que lançaram seu disco de estreia, com o nome do grupo, em 2010, venderam mais de 1 milhão de cópias e ganharam o disco de ouro. O apelo popular do trio foi grande desde o início. Os três jovens se conheceram um ano antes do lançamento do álbum, numa competição musical da emissora italiana RAI. Eles cantaram a clássica canção italiana O Sole Mio e a parceria estava formada.
No País, chegam com CD e DVD – Il Volo… Takes Flight –, um registro ao vivo no Detroit Opera House, nos EUA, pela Universal Music (R$ 29,90 e R$ 34,90, respectivamente). “Foi super emocionante tocar ali. Eu lembrava de todas as grandes estrelas que tanto gosto que já passaram por lá, como Andrea Bocelli e Michael Jackson.”
A referência ao Rei do Pop explicita a tendência ao popular do trio. Boschetto, por exemplo, é fã de Lady Gaga. “Mas ouço também AC/DC”, defende-se. “O último gênero que escuto é a música clássica”, revela, surpreendentemente. “Fomos introduzidos à música clássica por nossos pais e avós, nos descobrimos cantores assim, mas ouvimos coisas comuns para pessoas da nossa idade.” Por isso, o trabalho do Il Volo, apesar da tradicional orquestração e dos vibratos vigorosos, conta com toques pop, como linhas de bateria nos refrões. Não interpretam só canções em italiano, aventuram-se em inglês, francês e espanhol. “Há três anos, estava em casa, jogando futebol ou videogame”, diz Boschetto. A brincadeira agora é outra.

DIVIRTA-SE
Il Volo
Teatro Bradesco. Bourbon Shopping. Rua Turiassú, 2.100, 3.º piso, Pompeia.
T: 4003-1212.
Hoje, às 21h.
R$70 a R$ 350.

Maria Rita faz show em tributo a Elis Regina

Categoria: Música

ADRIANA DEL RÉ

Dez anos de estrada fizeram as comparações com a mãe, Elis Regina (1945-1982), enfraquecerem. Perderem o sentido até. Com quatro álbuns na discografia, a cantora Maria Rita conseguiu construir a própria identidade, indo contra a corrente que insistia em institucionalizá-la como uma nova Elis.

Falou-se que a voz de uma fazia lembrar a outra. Que os trejeitos da filha no palco remetiam ao estilo de ser da “Pimentinha” em suas apresentações.

E enquanto o povo discutia teses, a cantora foi seguindo sua trilha, achando até natural que estabelecessem tais associações entre ela e Elis. Afinal, pais e filhos podem ser parecidos.

Agora, sem receio de que antigas teorias voltem à tona, ela está levando pelo Brasil o braço musical do projeto Nivea Viva Elis, que estreou em Porto Alegre – cidade natal de sua mãe –, já passou por Recife e Belo Horizonte, e aterrissa hoje em São Paulo, às 15h, gratuitamente, no Parque da Juventude, zona norte da capital.

A turnê em homenagem à mãe – e que lembra os 30 anos de sua morte – chega ao fim no Rio de Janeiro, no dia 13 de maio. Por aqui, o show estava previsto originalmente para acontecer no Auditório Ibirapuera, no dia 22 de abril.

No entanto, a organização achou por bem mudar de local, por considerar que os 15 mil lugares oferecidos pelo auditório poderiam restringir o número de acesso de espectadores ao show. A escolha do Parque da Juventude veio para tornar o espetáculo mais abrangente.

Outro braço do projeto, uma exposição inédita, que reúne 500 fotos de Elis Regina, entre outros objetos dela, já está em cartaz na cidade, no Centro Cultural São Paulo, onde permanece até 20 de maio. Em entrevista ao JT por e-mail, Maria Rita falou sobre o projeto.

O repertório do show em São Paulo é o mesmo que vem sendo apresentado até agora?
Não costumo mudar o repertório. Penso num espetáculo que “tem de ir aonde o povo está”. Então, sim, o repertório é o mesmo. Sou meio antiga, né?

Como se deu o processo de escolha desse repertório-homenagem de Elis? Qual foi o norte adotado para chegar a ele?
O norte foi a minha relação com ela, com as músicas do repertório dela. Jamais poderia cantar uma música por cantar, seja do repertório dela ou em qualquer um que fosse. Preciso me identificar. É como eu encaro o trabalho do intérprete. Me apoderar da canção, caso contrário, não seria uma homenagem completa. Claro que considerei também os grandes hinos e grandes sucessos, que eu não sou nem louca, né?

O projeto Nivea Viva Elis, como um todo, partiu de seu irmão, o produtor João Marcello Bôscoli, certo? Como ele falou para você sobre essa ideia?
O João e eu conversamos a respeito de homenagens desde sempre. Ele sempre teve esse sonho, quase trazendo para si a responsabilidade de manter o nome da nossa mãe vivo. Sempre admirei muito o João, suas ideias, sua visão – ele é o lado inteligente e perspicaz da família, herdou da mãe! Há anos, ele vinha formulando algo grandioso, e um dia me ligou para me contar das conquistas desse projeto. Tenho um orgulho danado dele. O projeto em si passou por modificações diversas no decorrer dos meses até chegar onde chegou.

E como você reagiu não só a essa homenagem em específico, mas também a fazer parte dela?
Possibilitar uma maior aproximação do público brasileiro com a Elis é emocionante. A princípio, não entendi muito bem qual seria o meu papel dentro do lance todo, mas fiquei lisonjeada com a aposta principalmente no aspecto “tradição”, que é fundamental para Nivea, que tem 100 anos, e aquela latinha azul incrível que eu via minha avó usando quando eu tinha 5 anos de idade!!!!

Um assunto que já foi muito falado: no início da sua carreira, queriam comparar você com Elis e você, com o tempo, mostrou que cada uma tem sua própria história. Foi justamente por você conseguir passar por cima das comparações que agora se sentiu à vontade para revisitar o repertório de sua mãe no palco?
Quem passou por cima das comparações não fui eu. Foi o público, que amadureceu, compreendeu e aceitou tanto as diferenças quanto as semelhanças – e isso é sensacional. E o público me mostra isso permitindo meu sonho se renovar e se manter há dez anos. É um erro incomensurável dizerem que me incomodavam as comparações. Me incomodavam, sim, as colocações de que eu teria vindo para continuar o trabalho dela. Me incomodavam, sim, as insinuações maldosas. A agressividade gratuita e descabida. Me senti à vontade para homenageá-la porque tenho dez anos de estrada, alguma história pra contar, e me sinto, assim como o João, numa missão: mantê-la viva. Não somente porque ela é minha mãe, mas porque ela é importante para o Brasil. O que eu puder fazer, vou fazer. E se cantá-la para a minha geração é o que posso fazer hoje, que maravilha. Afinal, cantar é o meu ofício, minha razão de viver, minha entrega irrestrita. Amanhã, pode não ser.

Por causa do projeto, as comparações com Elis voltaram de alguma maneira?
Não. De novo, as comparações não incomodam. Filhos se parecem com seus pais.

Como você lida hoje que essa ponte que fazem entre você e Elis?
Da mesma maneira de sempre: acho natural.

Como você se sente no palco cantando nesse tributo? Sente a presença dela, como muitos dizem sentir quando reverenciam alguém no palco?
Não… Sinto a presença dela somente no coração das pessoas, quando vejo mais de 35 mil pessoas, como foi no Recife, ou mais de 60 mil pessoas, como foi em Porto Alegre, cantando Madalena, Como Nossos Pais, Vida de Bailarina, Maria Maria… Convenhamos: quem diria que depois de 30 anos isso poderia acontecer? Ainda mais nos dias de hoje? Essas canções não são fáceis, não. E o público vem, e vem com força e alegria e saudade. E isso me basta, entende? Fico tomada. Que força tinha essa mulher…

Você chegou a sentir um certo peso nos ombros por levar adiante esse projeto?
Se eu tivesse sentido tanto peso assim, eu não o teria feito. A reação inicial foi, sim, assustadora, e precisei reconsiderar muitas coisas. Mas nada na minha vida vem pelo caminho mais fácil, e seguir com o projeto, decisão de um ano atrás, passou por essa incompreensão dessa reação. Estou leve, feliz e orgulhosa com o resultado.

Na Virada Cultural, que começa hoje, haverá um palco dedicado a Elis, no Bulevar São João, dentro da programação do evento. Chegou a ser feita alguma proposta a vocês para que o projeto Viva Elis passasse por esse palco?
Não sei te dizer.

Em meio a esse projeto, como está organizando sua agenda para fazer shows também de Elo, seu recente disco?
Fiquei com o show Elo na estrada por mais de um ano e meio, antes de ser batizado com o nome Elo. Depois do disco lançado, em outubro do ano passado, fiz uma miniturnê para finalizar aquele ciclo. A turnê Elo se encerrou em dezembro do ano passado.

Depois do fim do projeto Nivea Viva Elis, as pessoas terão outra oportunidade de ver Maria Rita cantar Elis?
Acredito que não.