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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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Tributo aos Irmãos Cara de Pau: ‘A boa música não morre’

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Ray Charles, Aretha Franklin, James Brown, entre outros grandes nomes do soul, R&B e funk, eram ofuscados por uma então nova onda musical que tomava as paradas de sucesso. Em 1975, a disco music tomou tudo de assalto nos Estados Unidos, com Donna Summer, KC & the Sunshine Band, Gloria Gaynor, Abba, Bee Gees. O filme Os Irmãos Cara de Pau (cujo título em inglês é The Blues Brothers) veio em 1980 para tentar consertar isso. Colocou os mitos da black music de volta ao mapa – todos eles participaram do filme, aceitando de imediato o convite, como contou o diretor John Landis, ao JT, em julho do ano passado.

É preciso entender o que o filme fez e seu reflexo na música atual, para perceber sua importância. “Esse filme realmente reinventou os artistas. Se hoje ouvimos novos músicos cantando blues, soul e R&B, é porque Os Irmãos Cara de Pau resgatou esse espírito”, diz Brad Henshaw, produtor, ator e cantor inglês, que traz o espetáculo The Official Tribute To The Blues Brothers – The Smash Hit, ao Via Funchal, de hoje a sábado. São seis cantores e uma big band com 17 músicos para tocar clássicos do soul, blues e R&B ressuscitados no filme.

Henshaw assina a direção, a produção e ainda interpreta o protagonista Jake Blues, vivido pelo fanfarrão John Belushi (morto em 1982, vítima de uma combinação de cocaína e heroína). O show existe desde 1991 e, por onde passa, faz com que o público saia dançando e cantarolando. Na entrevista, Henshaw explica a força do blues, do filme e, claro, do show.

O espetáculo começou em 1991. Como resiste ao tempo, sem parecer repetitivo?
O show começou em Brighton, na Inglaterra, mas era diferente. Não era nada demais. Era um show, sem grandes atuações. Mas, aos poucos, os produtores foram percebendo que havia potencial para ser maior que isso. Foi crescendo entre 1991 e 1993, foi até a Austrália. Aliás, sabia que Russell Crowe interpretou Jake Blues, o personagem de Belushi, lá?

Russell Crowe, de Gladiador (2000). Esse Russell Crowe?
(Risos). Sim, é verdade. Eu cheguei ao show em 1994 e, no ano seguinte, comecei a escrever algumas coisas. Achei que deveria ter algumas mudanças. Foi em 2005 que virei produtor e diretor. E vivo Jack Blues também.

Como vê a receptividade do público para um show baseado num filme cult, sim, mas com 32 anos de idade. Não teme que fique datado ou nostálgico?
Olha, até pouco tempo, não tínhamos ido para os Estados Unidos. Comecei a escrever para esse show porque conhecia o filme, conhecia esses músicos de blues. Fomos para Chicago (cidade que colocou mais barulho no Blues do Delta do Mississippi), ficamos lá por oito semanas. E acabamos de passar por uma turnê exaustiva pela América. Em quatro meses, fomos de Los Angeles (extremo oeste dos EUA) a Nova York (extremo leste). Tocamos para 10 mil pessoas em Houston. A boa música não morre. O soul, o blues e o R&B continuam por aí, no rap, no rock, no hip hop. Os Blues Brothers reinventaram o blues e disse para as pessoas: “Não se esqueçam deles”. É isso que queremos mostrar nesse tributo a eles.

Você interpreta um personagem que era vivido pelo John Belushi. Tudo fica mais difícil, por causa das comparações?
Muito mais difícil! Ele era um ator incrível. Belushi tinha muito para dar, mas sua vida pegou um atalho e ele entrou para a família de John Lennon, Jimi Hendrix. Era um personagem complexo. Cheguei a conversar com a mulher dele para tentar entender mais quem ele era, para depois me aprofundar no personagem. Belushi parecia simples na superfície, mas era muito sensível.

Você falou que o show deveria ter algumas mudanças. O que você mudou, por exemplo?
Bom, o filme é cult, não só no Brasil, como na América e em todos os lugares que fomos. Mas são poucas as pessoas que sabem que os Blues Brothers eram uma banda, eles lançaram vários discos (11, no total). Queria que esse material estivesse no show. Que fosse como se os Blues Brothers, a banda, tomassem vida no palco.

Então, qual é a sua maior preocupação no palco: soar fiel ao filme ou aos artistas originais?
Temos de ser os melhores, sempre. É simples como isso. Sabemos que, quando alguém vai ao teatro, essa pessoa quer ter um bom divertimento. Quando não gosta do show, vai para casa pensando que gastou seu dinheiro com uma bobagem. Sei que as pessoas gostam de música. E é o que damos para ela. Aqui no Brasil, é assim também. A cultura brasileira é cheia de música, grandes artistas se apresentam aqui. Por isso, daremos o nosso melhor.

Você nasceu em Birmingham, certo? Como conheceu o soul e o blues?
Eu tinha o Rolling Stones, cara!

Em entrevista ao JT, John Landis, diretor do filme, disse que a música atual é tão cheia de referências ao blues, soul e R&B por causa do longa, que resgatou gente como Ray Charles e Aretha Franklin do ostracismo. Concorda com ele?
Você entrevistou o John Landis? Parabéns (risos). Falando sério, acho que ele está certo. Esse filme realmente reinventou os artistas. Se hoje ouvimos novos músicos cantando blues, soul e R&B, é porque Os Irmãos Cara de Pau resgatou esse espírito.

DIVIRTA-SE
The Official Tribute To The Blues Brothers – The Smash Hit
Rua Funchal, 65, Itaim Bibi. % 3846-2300.
Temporada de hoje a
sábado, às 22h.
Ingressos: R$40 a R$ 250.

Duas noites para celebrar Tom Jobim

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Basta cantar os primeiros versos de O Boto (“Na praia de dentro tem areia/Na praia de fora tem o mar”) para que Miúcha sinta um arrepio percorrer-lhe o corpo. As lembranças com o autor da canção, Antônio Carlos Jobim, o Tom, chegam como uma avalanche. Alegria de lembrar as boas tardes de botequim, finalizadas nos apartamentos de um ou de outro, para novas composições. E tristeza pelo tempo que não volta mais.

No ano em que Tom Jobim (1927-1994) completaria 85 anos, o projeto Accenture Performances chega à sua sexta edição com o espetáculo Tom Jobim – O Tom Maior, o Tom da Natureza, o Tom do Brasil, hoje e amanhã, no Teatro Geo, numa grande homenagem musical ao maestro, compositor, pianista, violonista e cantor, com convidados especiais: Paulo Jobim e Quarteto, Danilo Caymmi, Joyce e Mônica Salmaso e, claro, Miúcha. O jornalista Sérgio Cabral, autor da biografia Tom Jobim, de 1987, assina a direção artística e é o mestre de cerimônias da festa.

Cada artista executa três músicas, à sua escolha. O Boto foi a primeira opção de Miúcha. “Essa canção não para de me maravilhar”, conta a cantora. A música data de 1976 e abre o álbum Urubu, lançado naquele ano. Era um tempo em que Tom já tinha conquistado o status de gênio, aclamado aqui e no exterior (ele gravou dois discos com Frank Sinatra, no fim dos anos 1960 e início dos 1970). A sua bossa nova tinha se espalhado. Tom fez todo o disco do jeito que queria, chamou, inclusive, o arranjador Claus Ogerman, com quem tinha trabalhado nos discos com Sinatra, para os arranjos. E bancou tudo sozinho.

A delicada O Boto, que abre o disco, nasceu sob olhos e ouvidos atentos de Miúcha. “A cada dia, ele colocava mais palavras”, lembra ela. “Nos encontrávamos à tarde, tomávamos cerveja e íamos testar harmonias. O Boto é de outra dimensão.” Com a canção na “pele”, como ela mesma diz, Miúcha chamou de volta Ogerman para retomar os arranjos, torná-los atuais.

A cantora ainda interpretará Retrato em Branco e Preto e Eu Te Amo, uma parceria entre Tom e o irmão dela, Chico Buarque, numa versão em francês. Uma nova homenagem ao amigo zombeteiro. “O Tom era muito divertido. E adorava falar francês, apesar de conhecer pouquíssimo a língua (risos)”, relembra Miúcha. Quando ela, Tom, Toquinho e Vinicius de Moraes lançaram um disco ao vivo, gravado no Canecão, em 1977, eles viajaram pela Europa e passaram por Paris. “É uma nova homenagem”, conclui.

O tributo ao maestro Tom Jobim passeia por fases e sucessos do carioca. Seu filho, Paulo Jobim, abre as celebrações ao lado do Quarteto com Chovendo na Roseira. Danilo Caymmi, filho do aclamado Dorival, exibe Samba do Avião, Anos Dourados e Felicidade. Mônica Salmaso, de quem, segundo Sérgio Cabral, Tom seria fã se estivesse vivo, faz a sua versão da esplêndida Insensatez. Joyce canta as clássicas Ela é Carioca, Águas de Março e Estrada do Sol, uma composição de Tom lançada apenas em 1987. A festa termina com Eu Sei Que Vou Te Amar, cantada por todos.

O passeio por sua obra não poderia vir em melhor momento. O ano 2012 é de Tom. Primeiro chegou aos cinemas o documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, homenageado em Cannes este ano. Na cerimônia do Grammy, Tom foi lembrado no prêmio Mérito Especial. Por fim, há ainda mais um filme de Pereira dos Santos, chamado A Luz de Tom, prestes a ser lançado. Tom merece tudo isso, mas o mais divertido é pensar que talvez ele trocasse tudo por um boteco com vista para o mar.

DIVIRTA-SE
O Tom Maior, o Tom da Natureza, o Tom do Brasil
Teatro Geo.
Av. Faria Lima, 201, Pinheiros. Telefone: 3728-4930.
Hoje e amanhã, às 21h.
Ingressos: R$ 60 a R$ 100.

Um retrato do Baixo Augusta

Categoria: Comportamento, Música

PEDRO ANTUNES

A Rua Augusta nasce na escuridão, como uma continuação da Rua Martins Fontes, pouco antes da ainda em reforma Praça Roosevelt. Noite negra de inverno cobre o início da subida de quase dois quilômetros até a Avenida Paulista, um oásis de luzes brilhantes e movimento, que forma o chamado Baixo Augusta. Suja, encardida, luxuriosa, boêmia, chique, pobre, rica, indie, pop. O lado do centro da via é tudo isso, com o sabor amargo de uma cerveja quente ou o doce e inebriante drinque de vodca e frutas.

Uma deliciosa contradição. E viciante. Quem garante é Marcelo Gross, de 39 anos, guitarrista da banda Cachorro Grande. Há sete anos, ele e o restante da banda saíram de Porto Alegre, e foram levados pela gravadora Deckdisc para a região, num flat na Rua Marquês de Paranaguá, uma travessa da Augusta. O músico se apaixonou pelo ambiente soturno e sujo, e é o único membro que mantém residência por lá, mora na esquina com a Dona Antônia de Queirós – Beto Bruno, vocalista, também mora perto, na paralela Rua Frei Caneca. “Quando viemos para cá, só existiam alguns botecos. Pegamos todas as mudanças na rua.”

Uma forte evidência da influência da região para a música da banda gaúcha está explícita no nome do recente disco, Baixo Augusta, do ano passado, com show de lançamento no Beco 203. “Ainda nos encontramos aqui para tomar umas cervejas, ver algum show, nacional ou internacional. É efervescente.”

Dos bons últimos shows, Gross elenca a apresentação do inglês Carl Barât, ex-Libertines, em abril, no Beco. A casa comemora um ano e meio, no número 609, ao lado do Studio SP. Ambas, contudo, não concorrem tão diretamente. Enquanto o Beco, que já tinha experiência no Rio Grande do Sul, busca por artistas internacionais, o Studio procura dar espaço para as bandas brasileiras.

Juntos, eles formam o epicentro musical da rua, que ainda tem o clubinho indie das antigas Outs (no número 486), Inferno Club (501) e o finado Vegas Club, que fechou após sete anos vítima do seu próprio sucesso (com a popularização da região, o terreno se valorizou, foi vendido e dará lugar a um grande empreendimento imobiliário). “Com essa popularidade, o que conhecemos como Baixo Augusta vai mudar logo”, diz.

Vitor Lucas, 28 anos, dono do Beco 203 é mais otimista. Tanto que em quatro meses o Beco abrirá uma nova filial, em Brasília, para fechar um eixo de shows com São Paulo e Porto Alegre. “O Beco é a cara da Augusta. Tivemos muita sorte de conseguir encontrar esse galpão, num espaço tão valorizado”, conta. Nos últimos tempos, o Beco tem conseguido atrair bons nomes da música indie para seu palco, como Gruff Rhys (Super Furry Animals), The Cribs, The Kills e, agora, Band Of Horses (amanhã) e Wild Beasts (dia 24).

Naquela noite de quarta-feira, cujo relógio no topo do Conjunto Nacional, na Av. Paulista, indica uma temperatura de 12º, tudo parece deserto e sem vida, com exceção de dois mendigos que pedem por moedas (e cigarros), e alguns vira-latas perambulando sem dono. Até os prostíbulos mostram pouco movimento. Até os leões de chácara, de terno, tentam se esquentar como podem.

No Teatro Augusta, os amigos Thiago Misciasci, 18 anos, e Monique Resende, 15, estudantes, saem rindo da comédia Me Engana Que Eu Gosto, quando o relógio se aproximava das 23h. “Adoro aqui, é tanta gente diferente”, diz a garota. Os amigos saem da zona sul, onde moram, e passeiam pela Augusta com frequência, de teatros e às baladas. “É uma pena que o Vegas Club fechou”, lamenta Mischiasci, antes de se despedirem.
Do lado da rua, num bar mequetrefe chamado O Pescador, a trilha sonora é Hunting High and Low, do A-ha.

Depois, quando a voz de Shakira sai das caixas de som cantando Pies Descalzos, um sujeito grita: “Agora que eu tava esquecendo ela!”, e volta para sua cerveja. Enquanto isso, a atriz Carol Goes, 21 anos, está prestes a ganhar a partida de sinuca contra o namorado Juan Dal Molin, 30. “Eu sou muito melhor do que ele”, diz, seguida pela careta do namorado. “Costumamos vir aqui duas a três vezes por semana”, explica ele. Dal Molin tem uma loja de roupas masculinas na Frei Caneca. Depois do curto papo, Goes encaçapa a bola. A vitória é dela.

A caminhada em direção a Paulista é interrompida por gritos. Urros de luta. No número 970, sobre um restaurante, a academia de kung fu TSKF está em pleno funcionamento. “Temos alunos de todos os tipos, crianças, idosos e travestis”, conta Willian Costa, professor e chefe da filial. “Estamos aqui há três anos. Esse movimento da rua é ótimo”, completa.

Foi pensando exatamente no constante movimento de pessoas que se deu uma mistura das mais improváveis. Um alemão, Guido Libera, montou uma pastelaria, próximo do coração de São Paulo. O Pastel da Augusta funciona há 2 meses, na esquina com a Rua Luis Coelho, com preços que vão de R$3,50 a R$5. “Sempre gostei muito da cultura brasileira”, diz o dono, que estava no caixa quando a equipe do JT entrou na loja. “O movimento aqui é intenso. No fim de semana, trabalhamos das 8h às 4h”, conta.

Enquanto espera seu pastel, o produtor cultural Francis Manzoni, 33 anos, explica que mora na região há dois anos e meio. “Tem muito agito, o tempo todo. Mas estou ficando velho, não vou mais para as baladas. Mas todos os agitadores cultuais da cidade estão aqui”, diz ele, pouco antes de pegar sua comida e partir para casa. E o Baixo Augusta se despede, iluminado e vibrante pelas luzes da Av. Paulista.

Os cavaleiros estão de volta

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

Na sua segunda visita a São Paulo em dois meses, Ben Bridwell, voz, guitarra e criador do Band of Horses, ainda se diz assustado com a grandeza da cidade. “Tenho medo dessas grandes metrópoles”, conta o músico americano. “Não sei nem atravessar a rua sozinho (risos).” Em abril, ele e o grupo foram uma das festejadas atrações do primeiro dia do festival Lollapalooza, ao lado de Foo Fighters, Cage The Elephant, TV On The Radio e Joan Jett.

Lá, eles tocaram duas vezes, num set acústico, no início do festival, e em seu show principal. Agora, voltam para tocar no Beco 203, nesta segunda-feira, às 22h30, em uma apresentação mais intimista, e com canções alternativas.

“É divertido ter a nossa própria turnê por aqui. Será algo para poucos, não para 20 mil pessoas. Assim, a chance de experimentar novas coisas é maior”, diz o vocalista. A vinda, em um curto espaço de tempo, é vista por Bridwell como uma grande oportunidade. “Estamos criando uma tradição. Pareceu uma boa ideia tocar aqui”, justifica ele. Desta vez, eles chegam embalados pelo lançamento nacional de Infinite Arms (de 2010), terceiro e mais celebrado álbum, pela Som Livre.

Foi com Infinite Arms que o grupo alcançou uma indicação ao Grammy em 2010, como melhor disco de indie rock, perdendo para os hoje gigantes Black Keys. Para a dupla de Ohio Dan Auerbach (guitarra) e Patrick Carney (bateria), aliás, aquele Grammy seria determinante para sair do ambiente underground e cair, enfim, no mainstream.

Bridwell, por sua vez, simpático, tenta não pensar no que mudaria se eles tivessem ganhado o prêmio. Hoje, eles espalham suas músicas por trilhas sonoras de séries de TV como The O.C., Gossip Girl, CSI e The Vampire Diaries, além do megassucesso dos cinemas Eclipse (da saga Crepúsculo, de 2010). “Talvez aquilo nos catapultasse para um outro ambiente, uma nova esfera, mas eu não sei. Estou muito feliz com tudo que está acontecendo. É a segunda vez que estamos no Brasil, é demais!”

Ben Bridwell era ainda jovem quando deixou South Carolina, na costa leste dos EUA. Aos 16, foi para Tucson, no Arizona, e, três anos depois, partiu para Seattle, histórica cidade onde nasceu o grunge, no extremo oeste do país. Tinha 19 anos e uma sede por novas músicas. “A cena musical de lá não existia. Cheguei e me apaixonei por aquele lugar”, explica.

Naquela época, ele estava longe de ser músico, mas tinha tino para o mercado fonográfico. Abriu um selo, Brown Records, e com ele lançou quatro bandas. No tempo ocioso, se dedicava a compor canções introspectivas. Sua primeira tentativa de se tornar um rockstar naufragou junto com o grupo Carissa’s Wierd. Band of Horses nasceria em 2004, mas o primeiro álbum seria lançado dois anos depois, Everything All The Time.

A banda se especializou em criar melodias densas, com pé no velho country e outro no indie rock dos anos 90 (Pavement e Dinosaur Jr). São canções imagéticas, que levam a mente a campos e planícies americanas graças à voz aveludada de Bridwell.

O grupo planeja lançar o quarto álbum em breve. “Quando fomos gravar, o produtor Glyn Johns me perguntou o que era o Band of Horses. Acho que é rock, soul, harmonia, folk, letras tristes, cheias de atmosferas. É difícil. Isso fez a minha cabeça pirar (risos).”

DIVIRTA-SE
Band of Horses.
Beco 203. Rua Augusta, 609, Consolação. Telefone: 2339-0358.
Abertura da casa às 21h.
Show às 22h30.
 

Mart’nália dá um passo para o pop

Categoria: Música, Show

PEDRO ANTUNES

“Se algum desavisado ouvir o meu disco vai pensar que eu fiquei louca”. A frase de Mart’nália chega rápido, seguida por uma longa e gostosa gargalhada. Uma herança do pai, o sambista de riso fácil Martinho da Vila. Cantora, compositora e percussionista, ela decidiu deixar o samba para o resto da família e partiu para o desconhecido. De mansinho, encostou pandeiro, cuíca e tamborim num canto, e vestiu a carapuça do pop. Sim, a filha do bamba renunciou o samba. Não Tente Compreender, novo álbum da carioca, que será apresentado nesta quinta, no HSBC Brasil, é um passo para um universo inóspito para ela.

Para guiá-la neste caminho sinuoso, pouco conhecido pela cantora de 46 anos, Djavan foi o nome escolhido e assina como diretor e produtor musical do projeto. Para conseguir convencê-lo, Mart’nália foi o cercando aos poucos, após seus shows, encorajada por algumas cervejas. “Tive de ir três vezes ao camarim dele, após os shows, para pedir. Na terceira, ele arregou (risos)”, conta.

Ela foi chamada para ir ao sítio dele em Araras, cidade próxima de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “Ele começou a me falar das suas ideias de sonoridade, de cantar outras coisas. Tudo o que ele falava batia com os sentimentos que eu tinha. As pessoas já tendem a me mandar músicas sobre Vila Isabel, macumba, sabe? Mas não posso ser só isso.” Ela mostrou a canção Daquele Jeito, foi a primeira a sofrer a mutação. “Fui aceitando as sugestões dele.”

O encontro com Djavan só ajudou a florescer o que já crescia em Mart’nália. “Estava na estrada com o mesmo pessoal há duas Copas do Mundo (2006, na Alemanha, e 2010, na África do Sul). Ia para a terceira! Daí não dá, né?”, brinca. Com o batuque e seu samba bastante percussivo, a cantora viu o mundo, da Europa à África, fez parcerias com Caetano Veloso, Maria Bethânia e, veja só, até com a dona de um jazz refinado, Madeleine Peyroux. “Comecei a perceber ainda mais a harmonia, não só a percussão, que é a minha principal formação”, diz. “Foi após Ária (disco de Djavan, de 2010) que decidi que precisava mudar.”

Ela não quer renegar o samba, nem esquecer o passado (seu e do pai). Mart’nália não consegue é ficar parada. Está sempre em movimento, para lá e para cá, como durante a entrevista por telefone ao JT: inquieta, riso solto, uma metralhadora de palavras e piadas. “Se eu pudesse, passaria os dias inteiros na praia (risos)”, diz. “Música, para mim, é trabalho, o meu emprego. Eu consegui me impor do meu jeito, me mostrar, mas começou a ficar repetitivo. As pessoas compravam meu disco sabendo que era um samba bacaninha. Isso que eu não queria mais.”

São os rótulos que enchem a paciência da percussionista. “Moro no Rio, tenho influências chegando por todos os lados. Ainda estou me encontrando.” Isso e o medo de estagnar. “Se eu ficar só no samba, posso perder muita coisa. Meu pai é um sambista eclético.”

Com a proposta principal do álbum definida, Mart’nália foi atrás dos compositores parceiros habituais: Paulinho Moska, Lula Queiroga, Marisa Monte e Dadi, Max Viana, Ivan Lins e Zélia Duncan, Gilberto Gil, Caetano, Nando Reis e Adriana Calcanhotto. Reunidas, elas propõem uma viagem ao Rio de Janeiro, uma cidade boêmia e romântica. “Queria me firmar como uma artista carioca. Busquei canções que tivessem a ver com isso”, diz. Vai Saber, canção de Calcanhotto, por sua vez, já era para ter sido gravada antes, em Menino do Rio (2006). “Eu perdi o CD que ela me entregou com a música. Fiquei com vergonha de pedir outro, então, peguei a versão gravada pela Marisa Monte”, explica.

Toda a con fiança no disco, apesar do “friozinho na barriga”, vai embora quando o papo é o show. “Peguei uma guitarra emprestada com o Tony Bellotto (do Titãs), mas não sei se vou conseguir fazer tudo sem o pandeiro na mão (risos).” Um passo de cada vez.