Consumidor dá carro de graça para se livrar de dívida
- 14 de abril de 2012 |
- 22h40 |
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Fernando Nakagawa
A inadimplência recorde e o aperto dos bancos no crédito têm provocado algo além de concessionárias vazias. Muitos consumidores que, com o incentivo do governo, compraram carro financiado nos últimos anos, chegam a um verdadeiro limbo quando têm dificuldade em pagar as parcelas: tentam vender o veículo, mas, como o carro deprecia rápido e há grande oferta, o valor conseguido na venda não é suficiente para quitar a dívida. Para resolver o problema, muitos têm tentado uma solução caseira: repassar o automóvel e a dívida a outra pessoa. Às vezes, no desespero, até de graça.
Em janeiro, o paulistano Felipe Di Luccio percebeu que as contas não fechavam. A faculdade, a parcela do apartamento recém-comprado e o financiamento do carro consumiam boa parte do salário. Para sair do vermelho, decidiu vender o Celta comprado sete meses antes em 60 parcelas. “Mas não dava. Receberia R$ 20 mil, insuficiente para quitar a dívida de R$ 23,5 mil no banco. Então, decidi repassar a dívida.”
O plano do estudante de arquitetura era simples: como a venda do carro não bastava para liquidar a dívida, queria se livrar do financiamento com a entrega do carro para outra pessoa. “Vai o carro, vai a dívida”, resume. Não há números oficiais, mas financeiras e lojas de automóveis reconhecem que a iniciativa de Luccio tem se repetido cada vez mais.
Após a exuberância do crédito fácil e abundante dos últimos anos, clientes com dificuldade financeira se desesperam ao perceber que não basta vender o carro para quitar o empréstimo. Os que mais sofrem são os que optaram pelo financiamento de 100% do veículo, assim como Luccio.
“Um carro pode depreciar até 40% em um ano. Em um crédito de 60 meses, os pagamentos do primeiro ano amortizam 10% da dívida. Esse foi o erro que cometemos em 2010 e 2011: reduzimos muito o juro, facilitamos demais as condições e, por isso, a inadimplência subiu”, reconhece o presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Oliva.
Em outras palavras: o erro foi permitir que o bem que garante o crédito passasse a valer muito menos que a dívida. A partir daí, a entrega do automóvel já não é suficiente para resolver o problema causado por um calote.
O presidente da Associação dos Revendedores de Veículos do Estado de São Paulo (Assovesp), George Chahade, lembra que o quadro fica ainda mais preocupante em situações como a atual, de inadimplência recorde.
“Aumenta a oferta de carros usados e, se o cliente tentar vender, os preços oferecidos são mais baixos que o normal, o que potencializa ainda mais o problema de quem tem dívida e obriga muitas pessoas a tentarem o repasse”, analisa o presidente da Assovesp.
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Para tentar se livrar do carro, Luccio recorreu a um site especializado no repasse de dívidas inaugurado no fim do ano passado. “Celta 2008, turbo, flex, motor perfeito, quatro portas, cinza escuro. Não quero nenhum real no carro, apenas a transferência da dívida de 56 parcelas de R$ 772,86”, dizia o texto que ficou no ar quatro meses.
“Vieram interessados e entreguei ao banco fichas de 15 pessoas. Nenhuma foi aprovada e o negócio não saiu”, lamenta. Para assumir a dívida, o novo cliente precisa ter um perfil de risco igual ou melhor que o do cliente original, dizem revendedores de veículos.
Diante de tantas restrições dos bancos e com o mercado de trabalho aquecido, o estudante resolveu a situação de outra maneira: quarta-feira passada pediu demissão do trabalho antigo e passará a ganhar mais em uma construtora como encarregado de obra. Confiante com o emprego, retirou o anúncio da internet e, por enquanto, desistiu do repasse da dívida.
No site em que Luccio anunciou seu Celta há mais de 2 mil consumidores à procura de outra pessoa para transferir a dívida. A maioria dos anúncios envolve carros, mas há motos e até imóveis na mesma situação. “Boa parte dos anúncios são de pessoas que pagaram de cinco a dez parcelas e não conseguem continuar. Muitos compraram o carro na empolgação”, diz Renato Nascimento, criador do site Repasso, especializado no repasse.


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