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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
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Velhos conhecidos brigam por holofotes do caso Bruno

Categoria: Justiça, Polícia

Tiago Dantas

A investigação sobre o desaparecimento de Eliza Samudio põe frente a frente dois velhos conhecidos: o delegado Edson Moreira, de 51 anos, que busca provas para indiciar o goleiro Bruno Fernandes por cárcere pivado e homicídio, e o advogado Ércio Quaresma, de 46, que tenta inocentar o jogador e outros cinco cusados. Em comum, ambos carregam o gosto pelos holofotes da imprensa, o carisma conquistado com as rases de efeito ou polêmicas, currículos em que aparecem outros casos de repercussão e até mesmo cusações que poderiam manchar suas carreiras.

Quaresma foi um investigador subordinado a Moreira na Polícia Civil de Minas Gerais no fim dos anos 1980. eria comum que o convívio diário por três anos tivesse criado laços de amizade entre os dois pofissionais. “Há 30 anos, éramos amigos. Hoje eu não sei. É melhor perguntar para o doutor Edson”, ironizou o advogado. Moreira nem chegou a comentar o assunto. Se não pelo trabalho, a amizade poderia ter sido motivada pelas semelhanças entre os dois. A mais perceptível delas, certamente, é o gosto pelas câmeras de TV.

Acostumados a trabalhar até tarde, os antigos colegas não poupam nem as horas de descanso para participar ao vivo de programas matutinos de televisão. Menos de seis horas após o primeiro depoimento de Bruno em Belo Horizonte, na madrugada de 9 de julho, lá estava Quaresma dando entrevista. Para não se atrasar, pediu para um produtor acordá-lo meia hora antes de o programa ir ao ar. Moreira chegou a perder a voz na primeira semana de investigação, quando dava duas coletivas por dia, fora os telefonemas de jornalistas.

“Vocês (repórteres) enchem meu saco, mas gosto de vocês”, disse o advogado, em conversa informal com jornalistas. Quaresma fuma compulsivamente. Nesse bate-papo de menos de 30 minutos, acendeu pelo menos cinco cigarros Dunhill. Outro costume do advogado é falar sobre si mesmo. “Eu sou a pior coisa que meus clientes podem enfrentar. Acabo com eles. O Macarrão ficou amedrontado depois de uma conversa de três horas que tive com ele.”

Muito eloquente, o advogado usa, por vezes, palavras pouco conhecidas, como bucéfalo – o mesmo que chamar alguém de cavalo. Embora seja mais popular, Moreira também tem no jeito de se expressar uma das suas características mais marcantes. Fala alto, rápido, grosso e, por vezes, engole sílabas. E reconhece isso. Numa entrevista coletiva, brincou com uma repórter mineira que fez tão rápido uma pergunta que quase não foi possível entendê-la. “Você parece o Edson Moreira falando. Repete, por favor.”

Não há um dia da cobertura do caso que não termine com alguma declaração polêmica de Moreira ou de Quaresma – ou dos dois. Semana passada, por exemplo, o advogado de Bruno sugeriu que Eliza estaria viva. “Ela pode aparecer a qualquer momento.” Moreira tem falado menos. Nos bastidores, especula-se que a cúpula da polícia mineira tenha pedido para o delegado só chamar a imprensa quando tiver novidades que possam ser divulgadas. Ao ser perguntado se a mídia atrapalha seu trabalho, respondeu prontamente: “Tudo atrapalha.”

O jeito ríspido, no entanto, não impediu o delegado de angariar fãs. Enquanto montava o aparato para a chegada de Bruno e Macarrão a Belo Horizonte, o policial foi aplaudido pela multidão. Encabulado, apertou o passo para chegar logo à porta da delegacia. Conhecido pelos colegas como um policial experiente e obcecado pelo trabalho, Moreira não abre mão do terno preto, mesmo que outros delegados do caso, como Vagner Pinto, nem gravata usem. Quaresma, quase sempre com a barba por fazer, parece gostar mais de tons de cinza.

Apesar da experiência acumulada em 30 anos de carreira, o caso Bruno é a primeira investigação que os coloca frente a frente. Nascido em Santos, no litoral paulista, Moreira fez carreira na Polícia Civil mineira. Trabalhou em delegacias do interior do Estado e exerceu cargos de chefia na Coordenação de Operações Policiais e na Divisão de Operações Especiais antes de chegar ao Departamento de Investigações.

Quaresma também é “forasteiro”. Nasceu no Rio de Janeiro e se mudou cedo para Minas. O defensor do goleiro Bruno deixou a polícia em 1989, alegando sofrer retaliações por ter participado do que ele chama de “uma das primeiras greves da polícia no Brasil”. No mesmo ano, arrumou o primeiro emprego no Direito: faxineiro em um escritório de advocacia. Antes de representar o ex-capitão do Flamengo, Quaresma já tinha participado de outros casos de repercussão. Defendeu o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Souza, o Bida, condenado a 30 anos de prisão, em abril, pela morte da missionária norte-americana Dorothy Stang, no Pará.

Em 1996, o advogado conseguiu a absolvição de seis policiais acusados de matar 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, também no Pará. “A imprensa chama o caso de massacre. Eu chamo de mentira”, disse, em uma das muitas vezes em que faz autorreferências. O chefe do DI também teve seu nome ligado a casos que ganharam manchetes fora de Minas, como a prisão de Marcos Antunes Trigueiro, de 32 anos. Conhecido como o “Maníaco de Contagem”, confessou o assassinato de cinco mulheres no ano passado.

Os dois colegas colecionam manchas no currículo. Há dois anos, Moreira respondeu a três inquéritos na Corregedoria da Polícia Civil, instaurados por denúncias anônimas que o acusavam de facilitar fuga de presos, corrupção e desvio de verbas. “Nada daquilo era verídico”, defende-se. Os casos foram trancados pelo Tribunal de Justiça. Em 2000, uma investigação desastrosa levou o delegado a indiciar o jornalista José Cleves da Silva pela morte da mulher. Oito anos mais tarde, porém, Cleves foi absolvido após o advogado Marcelo Leonardo convencer os jurados de que o jornalista fora vítima de armação.

Um dos escorregões na carreira de Quaresma mais lembrados ocorreu em 2002, no episódio que ficou conhecido como “o caso dos R$ 0,20”. O advogado foi condenado a pagar R$ 20 mil por xingar um juiz de “mentiroso” depois que o magistrado não aceitou um pedido de relaxamento de prisão. O advogado tentava liberar um eletricista que devia R$ 718,20 de pensão alimentícia. Como ele pagou R$ 718, sem os centavos, o juiz não permitiu que fosse solto, provocando os xingamentos do defensor.

Colaborou Eduardo Kattah

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