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Domingo, 27 de Maio de 2012
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2º dia de julgamento: o desabafo da família de Eloá

Categoria: Justiça

CAMILLA HADDAD
GIO MENDES

No segundo dia de julgamento de Lindemberg Alves Fernandes, de 25 anos – acusado de matar a ex-namorada Eloá Pimentel –, foi de desabafo para a família da jovem assassinada em outubro de 2008 depois de 100 horas de cárcere. Os parentes da vítima ofenderam e criticaram o réu, que não foi retirado nenhuma vez do plenário, diferente do que ocorreu no primeiro dia do júri, quando teve de sair durante o depoimento de Nayara Rodrigues, a pedido da jovem.

O policial militar Ronickson Pimentel dos Santos, irmão mais velho de Eloá, chorou diante do júri ao falar sobre o jeito carinhoso da jovem e ao lembrar que parte dos órgãos dela estão nos corpos de outras pessoas. Ronickson foi a primeira testemunha da defesa a ser ouvida quando os trabalhos foram retomados, às 9h20.

“Eloá era meiga, carinhosa, estudiosa demais. Queria ser veterinária”, lembrou ele no depoimento. O irmão de Eloá afirmou, ainda, que era radicalmente contra o namoro dos dois. Citou que Lindemberg era envolvido com pessoas de má índole na região de Santo André, onde moravam. “Ele é um monstro louco e agressivo. Ele era vingativo até durante uma simples brincadeira. Xingava a pessoa e já estourava”, descreveu Ronickson ao ser questionado pela promotora Daniela Hashimoto sobre a personalidade do acusado. O irmão da vítima também disse acreditar que Lindemberg jamais teria coragem de se matar como chegou a dizer nos momentos em que manteve Eloá em cativeiro.

Ana Cristina Pimentel, mãe de Eloá, entrou no plenário por volta das 11h para depor. No primeiro dia de julgamento, ela sequer estava relacionada entre as testemunhas. Foi chamada de última hora pela defesa de Lindemberg, que abriu mão de uma outra testemunha para pôr a mãe de Eloá no lugar. Ontem, para surpresa da plateia, a advogada Ana Lúcia Assad dispensou o depoimento de Ana Cristina, logo após a mãe de Eloá sentar diante dos jurados. Para alguns especialistas em Direito, a advogada nunca teve a intenção de ouvir Ana Cristina. A convocação foi apenas uma estratégia para a mãe da vítima não permanecer no plenário.

Antes de sair do júri, a mãe de Eloá olhou Lindemberg fixamente por cerca de um minuto. O réu não abaixou a cabeça e a encarou. Quando Ana Lúcia desistiu de ouvir a mãe da vítima, o público vaiou. A acusação não quis aceitar a decisão e exigia o depoimento da mãe de Eloá. Houve confusão. A juíza Milena Dias precisou pegar o microfone para acalmar os ânimos. Ana Lúcia ameaçou, pelo segundo dia, deixar o júri caso sua decisão não fosse acatada. Para impedir que isso ocorresse, a acusação voltou atrás e aceitou a sua decisão.

Já fora do tribunal, Ana Cristina lamentou não ter sido ouvida, mas disse que foi bom ficado frente a frente com o acusado. “Olhei para ele e pude perceber que não se arrependeu. Está ali mesmo só para limpar a sua barra”, acredita. “Queria vê-lo para saber se tinha mudado, mas está o mesmo e faria tudo de novo.” Diferente dos filhos, ela não rotulou Lindemberg de monstro. “Não o vejo como um monstro. Ele matou, é um assassino”, gritava.

Everton Douglas, irmão mais novo da vítima, quis depor na frente de Lindemberg, a quem chegou a considerar seu melhor amigo. O estudante revelou que por “infelicidade” foi amigo do réu. E, por “infelicidade”, apresentou a irmã àquele que seria o responsável por tirar a vida dela. “O que ele fez é desumano. Não é coisa de um cara normal que pode viver em sociedade.” Em alguns momentos, disse que sentia pena daquele “monstro insignificante”.

Everton respondeu a maioria das perguntas da advogada Ana Lúcia Assad sinalizando com a cabeça, até ser advertido por ela. “O senhor tem de me responder e não falar assim comigo.” É que, minutos antes, Ana Lúcia perguntou ao estudante, em tom de ironia, onde seu pai está atualmente. “A senhora sabe. Por que está me perguntando?”, reclamou o jovem. “Ele está preso (condenado por dois homicídios em Alagoas)”.

Após o testemunho da família, todos puderam sentar na plateia para acompanhar o júri. Eles deram as mãos e ficaram na última fileira, muito assediados pelo público, que ofereceu solidariedade e demonstrou indignação com o caso. Até as 23h15 de ontem, os trabalhos do júri ainda não haviam sido encerrados. A previsão é que o julgamento termine hoje.

Advogada queria mãe fora da plateia
Apesar de ter incluído a mãe de Eloá Pimentel, Ana Cristina Pimentel, entre suas testemunhas no primeiro dia de julgamento, na verdade a advogada Ana Lúcia Assad nunca teve a intenção de ouvir o depoimento dela. Essa é a opinião de especialistas, como o jurista Luiz Flávio Gomes – que acompanha o júri de Lindemberg desde o primeiro dia –, e também de advogados que atuam como apoio à acusação, como Ademar Gomes.

A única intenção ao convocar a mãe da vítima seria tirá-la do plenário onde poderia influenciar o júri com demonstrações de sentimentos, choro. Ao ser incluída entre as testemunhas, Ana Cristina passou a ficar confinada à disposição da Justiça e bem longe dos olhares dos jurados e da plateia.
Ontem, ao desistir do depoimento da mãe de Eloá, Ana Lúcia não deu qualquer explicação. Mas causou mal-estar na plateia, que chegou a vaiá-la. Para Luiz Flávio Gomes, a tática foi acertada.

Já o advogado especialista em júri Waldiner Alves da Silva classificou a estratégia como uma ação suicida.

Ademar Gomes diz que a convocação teve o único objetivo de evitar comoção dos jurados com a presença de Ana Cristina no plenário. Situação semelhante ocorreu durante o júri do caso da menina Isabella, em que o pai da garota, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, foram condenados por tê-la jogado pela janela do prédio onde moravam causando a sua morte.

Na época, a mãe de menina, Ana Carolina Oliveira, foi convocada pela defesa do casal para depor. Na ocasião, a acusação fez a mesma leitura da manobra: o único interesse era deixar a mãe longe dos olhos dos jurados. A tática também não foi bem aceita na ocasião. Ana Carolina Oliveira foi dispensada após o período em que ficou incomunicável.

Festival de desacatos e bate-boca
Um festival de desacatos e bate-bocas tomou conta do plenário ontem no Fórum de Santo André, no ABC. Um dos momentos mais quentes foi quando Ana Lucia Assad, advogada de Lindemberg, falou para a juíza Milena Dias que ela precisava “voltar a estudar”. A discussão começou quando a perita criminal Dairse Aparecida era ouvida e dava explicações sobre armas usadas na noite de crime no apartamento de Eloá. Furiosa, Ana Lúcia reclamou com a promotora Daniela Hashimoto que ela estava induzindo os jurados ao erro e que ela havia faltado com o “princípio da verdade real”.

Quando Milena interferiu dizendo que nem era aquele o termo mais correto, Ana gritou: “Então você precisa voltar a estudar”. A plateia ficou inquieta. Logo em seguida, Daniela defendeu a magistrada dizendo que poderia abrir uma representação de desacato contra a advogada de Lindemberg.
As alfinetadas no julgamento aconteceram desde a manhã, quando Ana Lúcia já havia falado em tom bem alto com a promotora. “Você não precisa gritar, tem o microfone”, orientou a juíza Milena. “É que eu não estou acostumada a usar”, rebateu Ana Lúcia. Com uma sequência de atitudes desafiadoras, Ana Lúcia saiu do plenário para consultar uma pessoa na plateia: também recebeu advertência de Milena.

Mais tarde outra confusão. O perito criminal Hélio Ramacciotti foi prestar depoimento e deixou Ana Lúcia irritada. “Eu dispensei essa testemunha”, afirmou a advogada à juíza. Que retrucou que não havia requerimento formal sobre o assunto. “Você não pode falar as coisas pelos corredores do fórum”, alertou a promotora Daniela Hashimoto. O perito acabou sendo ouvido pela acusação.

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