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Quarta-feira, 22 de Maio de 2013
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Guerra arrasa tesouro histórico na Síria

Categoria: Mundo, Oriente Médio, Síria

ANDREI NETTO

Além de causar centenas de mortes diariamente, os combates entre rebeldes e tropas de Bashar Assad pelo controle da cidade de Alepo, a segunda mais importante da Síria, têm destruído o patrimônio histórico da humanidade. O alerta foi feito ontem por rebeldes sírios e por técnicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), depois que parte do mercado árabe medieval da cidade foi destruído por um incêndio.

O fogo no mercado foi registrado pelas câmeras de cinegrafistas amadores, que mostraram corredores incinerados e outros em chamas. O desastre teria sido causado pelo bombardeio das forças armadas leais ao regime, que respondiam à ofensiva dos rebeldes sobre a região histórica de Alepo.

Ao menos cinco dos mais de 20 setores do mercado medieval foram incendiados (Foto: FABIAN BIMMER/REUTERS – 3/3/2011)

Segundo a agência Reuters, houve enfrentamentos com metralhadoras pesadas e granadas. Alguns disparos atingiram lojas com materiais inflamáveis. Cinco dos mais de 20 setores do complexo teriam sido destruídos, entre os quais os destinados às mulheres e o de venda de ouro.

O grande mercado, situado na cidade antiga de Alepo, foi tombado pela Unesco como patrimônio histórico da humanidade em 1986. Um dos argumentos para a decisão foi o fato de a atividade econômica da região ter sido importante para o comércio de todo o Oriente Médio na Idade Média.

Em Paris, a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, classificou a destruição em Alepo como “profundamente angustiante”. “Os mercados de Alepo têm sido uma parte próspera da vida econômica e social da Síria desde a fundação da cidade e permanecem como testemunho da importância de Alepo como cruzamento cultural desde o segundo milênio antes de Cristo”, disse em nota oficial.

A diretora-geral contou que o governo da Síria viola a Convenção de Hague de 1954, que dispõe sobre a proteção de propriedades culturais em um conflito armado. “Apelo a todas as forças fazer um esforço para poupar esses monumentos da história humana, que tanto têm contribuído para o crescimento e a prosperidade da Síria”, disse Irina.

Ao JT, um assessor da direção da Unesco afirmou que a uma equipe da Unesco está pronta para ir à Síria, avaliar a extensão dos danos no mercado de Alepo e analisar a possível reconstrução. “Ainda não temos uma ideia precisa da destruição e será impossível avaliar os edifícios enquanto a situação de segurança não permitir o ingresso de nossas equipes.”

Morsi exige diálogo para a questão síria

Categoria: Mundo, Oriente Médio, Síria

GUSTAVO CHACRA

Do púlpito da Assembleia-Geral da ONU, o primeiro presidente eleito do Egito, Mohamed Morsi, chamou de “vergonha” a ocupação dos territórios palestinos, condenou o conflito na Síria — embora rejeitando qualquer possibilidade de uma intervenção externa — e defendeu um Oriente Médio livre de armas nucleares.

Os protestos anti-EUA no Egito também entraram no discurso, com Morsi dizendo respeitar a liberdade de expressão, mas acrescentando ser preciso uma ação da internacional para conter a islamofobia no Ocidente. O líder egípcio silenciou sobre acusações de que há uma escalada do sentimento anti-Israel e de perseguições a cristãos em seu país.

Mohamed Morsi discursou ontem na Assembleia-Geral da ONU (Foto: STAN HONDA/AFP)

“As obscenidades publicadas recentemente como parte de uma campanha organizada contra o islamismo são inaceitáveis”, afirmou Morsi ao se referir ao vídeo que insulta o profeta Maomé. “Temos a responsabilidade neste encontro internacional (na Assembleia-Geral da ONU) de estudar como proteger o mundo da instabilidade e do ódio.”

Segundo o presidente, “o Egito respeita a liberdade de expressão, mas uma que não seja usada para incitar o ódio”. A afirmação foi uma resposta à declaração de anteontem do presidente norte-americano, Barack Obama, que do mesmo púlpito condenou o vídeo anti-Islã, mas defendeu a liberdade de expressão conforme consagrada na Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

Sobre a questão palestina, Morsi criticou duramente “o mundo livre por aceitar, independentemente das justificativas oferecidas, que um membro da comunidade internacional continue negando o direito de uma nação de conseguir a sua independência”, em referência a Israel – que ele não citou nominalmente em nenhum momento.

Para Morsi, “é uma desgraça a continuação dos assentamentos nos territórios desse povo (palestino)”. “Eu peço imediatas e significativas medidas para acabar com a colonização (dos territórios palestinos) e a alteração da identidade de Jerusalém ocupada”.

Egito e Israel assinaram um acordo de paz há mais de 30 anos, mas as relações entre os países se deterioraram desde a queda de Hosni Mubarak, no início de 2011. O premiê Binyamin Netanyahu fala hoje na ONU, bem como o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Para a maioria dos israelenses, Jerusalém é sua capital indivisível. Os palestinos reivindicam a parte oriental, de maioria árabe, como a capital de um futuro Estado.

Mais grave do que a situação na Palestina, para Morsi, é a situação na Síria. “O derramamento de sangue e a crise humanitária precisam ser interrompidos”, disse. “Nós, egípcios, estamos comprometidos em colocar um fim a esta catástrofe”, acrescentou, mas afirmou ser “contra uma intervenção militar externa”.

No fim de seu discurso, Morsi levantou mais uma vez a bandeira de um “Oriente Médio livre de armas nucleares” e considerou necessária uma conferência internacional sobre este assunto.

Dilma critica ações dos EUA no Oriente Médio

Categoria: EUA, Mundo, ONU, Oriente Médio

LEONENCIO NOSSA
GUSTAVO CHACRA

A presidente Dilma Rousseff apresentou ontem divergências acentuadas em relação ao discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ao abrir a 67ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, ela apontou “ilegalidade” nas coalizões lideradas por Washington sem participação do Conselho de Segurança da ONU e no apoio logístico e militar à oposição na Síria.

“Não há solução militar para a crise na Síria. A diplomacia e o diálogo são, não só a melhor, mas a única opção”, disse Dilma. “O uso da força sem autorização do Conselho de Segurança é uma ilegalidade clara que vem ganhando ares de opção aceitável.”

Ela avaliou que o Conselho de Segurança acompanha “imóvel” as intervenções dos EUA no Oriente Médio. “Não podemos permitir que esse conselho seja substituído, como vem ocorrendo, por coalizões que se formam à sua revelia, fora de seu controle e à margem do direito internacional.”

Para Dilma, o mundo vê “consternado” à evolução da “gravíssima situação da Síria e a atacou o regime de Bashar Assad. “O Brasil condena, nos mais fortes termos, a violência que continua a ceifar vidas nesse país. A Síria produz um drama humanitário de grandes proporções”, disse. “Recai sobre o governo de Damasco a maior parte da responsabilidade pelo ciclo de violência que tem vitimado o grande número de civis, sobretudo mulheres, crianças e jovens”, prosseguiu. “Mas, sabemos também da responsabilidade das oposições armadas, especialmente daquelas que contam crescentemente com apoio militar e logístico estrangeiro.”

Dilma deixou clara sua oposição às intervenções dos EUA no Oriente Médio. Ela reiterou que as ações de extremistas na região não justificam preconceito contra a comunidade islâmica. “Como presidente de um país no qual vivem milhares e milhares de brasileiros de confissão islâmica, registro nesse plenário nosso mais veemente repúdio à escalada de preconceito islamofóbico.”

Dilma não deixou de lamentar a morte do embaixador dos Estados EUA Christopher Stevens e outros três diplomatas na Líbia. “Com a mesma veemência repudiamos os atos de terrorismo que vitimaram os diplomatas.”

O discurso da brasileira sobre o Oriente Médio não alterou as posições dos membros influentes da ONU, mas agitou a plateia. A fala da presidente em relação à Síria arrancou aplausos da plateia em dois momentos. Ela também foi aplaudida, pela terceira vez, ao defender um assento da Palestina como membro pleno da ONU.

Presidente dos EUA
Horas depois, em seu discurso, o presidente norte-americano, Barack Obama, atacou a intolerância e o extremismo, defendeu a Primavera Árabe e, mais uma vez, insistiu que os EUA não aceitarão o avanço dos planos iranianos. “Um Irã nuclear não é uma ameaça que pode ser contida. Seria uma ameaça para Israel, para as nações do Golfo e para a estabilidade da economia global”, disse.

A declaração ocorreu em meio a pressões do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que acusa o governo americano de não impor limites ao programa nuclear iraniano, que, segundo Teerã, tem fins civis.

Mesmo dizendo que “o futuro da Síria não pertence a um ditador que massacra seu próprio povo”, ao se referir a Bashar Assad, Obama não mencionou uma intervenção militar e tampouco declarou apoia à oposição.

Irmã de Assad foge com os filhos da Síria

Categoria: Mundo, Oriente Médio, Síria

Bushra Assad, a irmã mais velha do ditador sírio Bashar Assad, fugiu para os Emirados Árabes com seus cinco filhos, revelou ontem o jornal espanhol El País. Ela é o primeiro membro do clã a deixar a Síria desde o início da revolta contra o regime, em março do ano passado.

A fuga da irmã de Assad foi noticiada pela oposição síria e confirmada, segundo o El País, por membros da comunidade síria em Dubai. O jornal libanês Al-Diyar, simpático a Assad, também noticiou a presença de Bushra no país. O governo dos Emirados não desmentiu a informação.

Em Alepo, rebeldes observam a movimentação das tropas leais ao ditador Bashar Assad (Foto: HUSSEIN MALLA/AP)

Farmacêutica de 51 anos, Bushra matriculou os filhos em um colégio em Dubai. Assim como outros membros da família Assad, ela está proibida de viajar para países da União Europeia e para os EUA. Ela era casada com o vice-ministro de Defesa da Síria, Assef Chakaut, morto em um atentado em Damasco há dois meses.

Segundo analistas sírios, Assad via com ressalvas o marido de Bushra. Assef tinha origem humilde e a família era contra a união.

O enviado especial da ONU à Síria, Lakhdar Brahimi, disse ontem que o conflito está se agravando e pode se espalhar para outros países do Oriente Médio. O diplomata negocia com os membros do Conselho de Segurança da ONU um caminho para solucionar a crise, mas o impasse continua. China e Rússia ameaçam vetar qualquer resolução que exija o uso de força contra Assad.

Protestos contra os EUA completam 7 dias

Categoria: Afeganistão, Ásia, EUA, Oriente Médio

Os protestos antiamericanos em países islâmicos completaram ontem uma semana. O maior deles, no Líbano, reuniu 500 mil pessoas no sermão do líder espiritual do movimento xiita Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah. Ele fez uma rara aparição pública para criticar o governo dos Estados Unidos e pedir novos protestos na região. Em sua maioria, os atos foram pacíficos, mas no Afeganistão, Paquistão e Indonésia houve confrontos com a polícia.

A onda de revolta provocada pelo filme “Inocência dos Muçulmanos”, que ridiculariza o profeta Maomé, já deixou dez manifestantes e quatro diplomatas norte-americanos mortos — entre eles o embaixador na Líbia, Jay Christopher Stevens. Em sete dias ocorreram protestos em 20 países da África, Oriente Médio e Ásia.


O líder do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah, levou 500 mil pessoas às ruas de Beirute para criticar os EUA (Foto: HUSSEIN MALLA/AP)


O líder do Hezbollah não aparecia em público desde dezembro. Ele incitou a multidão que usava as cores do movimento radical xiita a não se calar perante as ofensas a Maomé. “Esse é o começo de uma campanha séria que precisa continuar em todo o mundo islâmico em defesa do profeta de Alá. Enquanto o sangue correr nas nossas veias, não nos calaremos diante dos insultos ao nosso profeta.”

Em resposta, a multidão gritou palavras de ordem como “A América é o Grande Satã”, “Morte a Israel” e “Nós nos sacrificaremos por ti, Maomé”.

O sermão de Nasrallah, que durou 15 minutos, foi dado na zona sul de Beirute, conhecido reduto do Hezbollah e não houve incidentes violentos. Não foram registrados protestos na Embaixada dos Estados Unidos em Beirute, que fica do outro lado da cidade.

Um funcionário do departamento de Estado norte-americano disse em Washington que a embaixada no Líbano, protegida por um forte esquema de segurança, não esteve ameaçada ontem.

Violência
No Afeganistão, houve protestos violentos pela primeira vez. Centenas de pessoas queimaram carros e atiraram pedras contra uma base norte-americana em Cabul. Vinte policiais ficaram feridos.

O Paquistão também viveu um dia de protestos violentos. Centenas de manifestantes na região tribal do noroeste do país enfrentaram a polícia após pôr fogo em um escritório de jornalistas e um prédio público. Na cidade de Wari, um manifestante morreu.

Na Indonésia, país muçulmano mais populoso do mundo, centenas de pessoas atiraram pedras e bombas incendiárias contra a Embaixada dos Estados Unidos em Jacarta. Dez policiais se feriram.

Rússia não deixará de vender armas à Síria

Categoria: Mundo

A Rússia não vai deixar de vender armas para a Síria, afirmou o vice-ministro da Defesa Anatoly Antonov ontem. Moscou mantém seu apoio ao antigo aliado, apesar da crescente condenação internacional contra a sangrenta repressão do governo sírio a dissidentes em dez meses de rebelião.

Antonov disse que seu país não está violando suas obrigações internacionais ao vender armas para Damasco. “Não há restrições a nossas entregas de armas”, disse ele, segundo agências de notícias estatais do país. “Devemos cumprir nossas obrigações.”

Moscou tem sido um dos mais poderosos aliados da Síria, juntamente com o Irã, na medida em que o governo sírio tenta esmagar a revolta contra o presidente Bashar Assad. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 5.400 pessoas tenham sido mortas pela repressão.

A postura de Moscou é em parte motivada por suas alianças estratégicas com a Síria, que incluem a venda de armas. Mas a Rússia também rejeita o que vê como uma ordem mundial dominada pelos Estados Unidos. No mês passado, a Rússia assinou um acordo de US$ 550 milhões para a venda de jatos de combate para a Síria.

Embaixadores na ONU tentam superar a oposição da Rússia a um esboço de resolução no Conselho de Segurança que pede que Assad deixe o poder. Moscou diz que vai vetar o esboço porque acredita que ele abrirá o caminho para uma eventual intervenção militar internacional no país.

Enquanto a pressão diplomática continua, ativistas sírios lembram o 30º aniversário do massacre de Hama. As três semanas de ataque contra a cidade rebelde pôs abaixo bairros inteiros e mataram milhares de pessoas, num dos mais notórios massacres do Oriente Médio. O ataque foi ordenado em 1982 quando o pai de Assad, Hafez, era presidente.

Repórter do ‘Estado’ está preso na Líbia

Categoria: Mundo

O repórter Andrei Netto, correspondente do Estado em Paris que estava na Líbia cobrindo os confrontos entre rebeldes e forças do regime de Muamar Kadafi, está preso a oeste da capital Trípoli. A embaixada brasileira está tomando as providências para liberá-lo.

 O Estado havia perdido todo contato direto com Netto. Até domingo, o Estado recebia informações indiretas de que seu repórter estava bem, escondido na região de Zawiya – cenário de violentos confrontos entre Kadafi e os insurgentes, a 30 quilômetros de Trípoli. A comunicação direta com a redação – por meio de telefonemas e e-mails – havia sido propositadamente cortada por segurança, afirmavam fontes líbias.

 O governo brasileiro, a Embaixada da Líbia no Brasil, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a ONU e vários veículos de comunicação do Brasil e do mundo estão colaborando no sentido de garantir a integridade física e segurança do repórter.

‘Estado’ perde contato com repórter na Líbia

Categoria: Mundo

O jornal O Estado de S. Paulo perdeu há uma semana todo contato direto com seu repórter Andrei Netto, correspondente em Paris que estava no oeste da Líbia cobrindo os confrontos entre rebeldes e forças do regime de Muamar Kadafi. Segundo informações não confirmadas obtidas nesta quarta-feira pelo jornal, Netto teria sido preso pelo governo, juntamente com um outro jornalista e um guia líbio que os auxiliava.

Até domingo, o Estado recebia informações indiretas de que seu repórter estava bem, escondido na região de Zawiya – cenário de violentos confrontos entre Kadafi e os insurgentes, a 30 quilômetros de Trípoli. A comunicação direta com a redação – por meio de telefonemas e e-mails – havia sido propositadamente cortada por segurança, afirmavam fontes líbias.

Nesta quarta, porém, novas informações indicavam que Netto tinha sido preso na região de Zawiya. Em conversa por telefone com o Estado, o vice-chanceler da Líbia, Khaled Qaim, disse que a notícia da prisão era “provavelmente correta”. Ele já estava informado sobre o assunto antes de ser contatado pelo jornal e se comprometeu a ajudar a localizar o brasileiro. Até o ínicio da noite desta quarta, porém, Trípoli não tinha confirmado oficialmente a detenção.

O governo brasileiro, a Embaixada da Líbia no Brasil, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a ONU e vários veículos de comunicação do Brasil e do mundo estão colaborando com o Estado no sentido de garantir a integridade física e segurança do repórter, bem como sua saída imediata e em segurança da Líbia. A família do repórter – que tem 34 anos e é gaúcho de Ijuí – está em contato direto com o jornal.

Netto entrou em território líbio pela fronteira da Tunísia no dia 19, dias após o início dos confrontos entre Kadafi e opositores. Pouco a pouco, ele foi avançando na direção de Trípoli, mas parou em Zawiya, onde se intensificaram os confrontos.

A cidade, que havia sido tomada pelos rebeldes, foi sitiada por soldados leais ao governo há uma semana. Em seguida, forças da brigada Khamis – tropa de elite comandada por um dos filhos de Kadafi – realizaram várias investidas contra Zawiya.

Correspondente do Estado em Paris desde 2006, Netto tem experiência em grandes coberturas internacionais, como o terremoto de L’Áquila, na Itália, o acidente do voo 447 Rio-Paris da Air France e cúpulas do G-20.

Líbia: forças de segurança abrem fogo

Categoria: Mundo

Quinze pessoas morreram e dezenas estão feridas depois que as forças de segurança de Moamar Gadafi abriram fogo contra enlutados que saíam de um funeral para manifestantes neste sábado, 19, em Benghazi, dizem testemunhas.

Grupos líbios de protesto estão nas ruas pelo quinto dia consecutivo. De acordo com Mohamed Sedaka, ativista de direitos humanos, Benghazi se encontrava desde manhã “totalmente sob controle” dos manifestantes contrários ao regime de Gadafi. “Já não há policiais, nem militares em Benghazi. Os manifestantes controlam a cidade agora”, afirmou Sedaka.

Segundo testemunhas, forças do governos também teriam atirado contra manifestantes em Mosrata, terceira cidade da Líbia, localizada há 200 quilômetros de Trípoli, e ferido ao menos oito pessoas, declararam moradores do local à rede de televisão Al-Jazira.

Abderrahman Souihli, professor universitário originário da localidade, afirmou que dezenas de jovens estavam nas ruas para exigir a troca do regime e a saída de Muamar al Gadafi. Forças policiais teriam respondido de forma particularmente violenta. “Vimos oito pessoas atingidas por balas de verdade. Não sei se há mortos, mas é certo que alguns estão gravemente feridos”, disse o professor.

De acordo com o veículo eletrônico líbio “Quryna”, 24 pessoas morreram desde o início dos protestos em Benghazi. Já a organização Human Rights Watch (HRW) diz que esse número chega a 84.

Protestos na Líbia já deixaram 84 mortos, diz ONG

O número de pessoas mortas em três dias de protestos contra o governo da Líbia já chegou a 84, segundo a organização internacional Human Rights Watch, com sede em Nova York.

O principal foco das manifestações contra o líder líbio, Muammar Khadafi, foi a segunda maior cidade do país, Benghazi, onde 35 mortes foram registradas em apenas um hospital.

A mídia estatal advertiu sobre retaliações contra os críticos de Khadafi, que está no poder desde 1969. Serviços de internet e energia elétrica foram cortados em algumas áreas do país após o início dos protestos.

O principal provedor de internet cortou o acesso à rede, de acordo com o jornal Guardian. A rede de TV Al-Jazira também informa que a rede de telefonia celular também não está funcionando por imposição do governo líbio.

As forças de segurança líbias abriram fogo contra manifestantes em Benghazi na sexta-feira quando eles se aproximaram de um local usado pelo coronel Khadafi quando visitava a cidade, localizada a cerca de mil quilômetros da capital, Trípoli. Segundo relatos de órgãos de mídia e a contabilização da Human Rights Watch (HRW), o hospital Al-Jala, na cidade, recebeu os corpos de 35 pessoas mortas pela repressão aos protestos.

Corpos ensanguentados

Em um comunicado publicado na internet, a HRW afirmou que houve protestos também em pelo menos outras quatro cidades no leste do país na sexta-feira – Al-Bayda, Ajdabiya, Zawiya e Darnah – mesmo após a morte de alguns manifestantes em protestos nos dias anteriores.

Imagens gravadas em Al-Bayda mostravam corpos ensaguentados em um necrotério e manifestantes ateando fogo a um prédio do governo local e demolindo uma escultura do “livro verde”, que representa a ideologia de Khadafi.

Em Darnah, ao leste de Al-Bayda, delegacias de polícia teriam sido desocupadas após os protestos. Um jornal de propriedade de um dos filhos de Khadafi afirmou que manifestantes lincharam dois policiais na cidade.

Um manifestante disse à BBC que soldados estavam mudando de lado em algumas áreas e passaram a apoiar os protestos.

“Os soldados dizem que somos cidadãos deste país e que não podem combater seus cidadãos”, disse. “Respeitamos nosso povo, não precisamos lutar contra eles”, afirmou.

Não foram registrados até agora grandes protestos contra o governo na capital do país, Trípoli, onde manifestantes pró-Khadafi vêm realizando atos em apoio ao líder.

Mudanças no governo

Em meio à repressão aos protestos, o jornal semi-independente Quryna relatou que o governo faria mudanças em muitos cargos do executivo e descentralizaria e restruturaria o governo. Não havia uma menção aos protestos como catalisadores das mudanças.

O jornal pró-governo Al-Zahf Al-Akhdar havia advertido antes que que as autoridades responderiam “violentamente e contundentemente” aos protestos.

“O poder do povo, a Jamahiryia (termo em árabe para designar o sistema de governo adotado pela Líbia, chamado ‘Estado das Massas’), a revolução e o coronel Khadafi são linhas vermelhas, e aqueles que as tentarem cruzar ou chegar próximos dessas linhas são suicidas brincando com fogo”, afirmou o jornal.

As manifestações líbias são parte da onda de levantes pró-democracia no mundo árabe e muçulmano, que já derrubou governantes na Tunísia e no Egito e se espalhou por países como Bahrein, Argélia, Iêmen e Irã.

Mas analistas dizem que a situação no país é diferente da situação no Egito ou na Tunísia, porque Khadafi teria as grandes receitas com petróleo para conter os problemas sociais e tem uma alta popularidade em todo o país, apesar de ser menos popular na região de Cyrenaica, onde está Benghazi.

Egito deve decidir seu futuro

Categoria: Mundo

Agência Estado (AE) e Associated Press (AP)

Em Davos, especialistas dizem que a comunidade internacional deveria agir com cautela e deixar os egípcios decidirem o próprio futuro. O ex-presidente mexicano Ernesto Zedillo, que agora dirige o Centro de Estudos da Globalização em Yale, afirmou que um dos princípios centrais do direito internacional “é não intervir nos assuntos internos de outros países, e eu acredito que esta regra é muito tênue”.

O ex-vice-secretário-geral das Nações Unidas e que agora é presidente de relações globais da britânica FTI Consulting, Lord Mark Malloch-Brown, disse que a ONU já havia registrado, há quase dez anos, no Relatório de Desenvolvimento Árabe, as desigualdades e falta de espaço político contra os quais os manifestantes no Egito estão protestando. “É um momento extraordinário no Egito”, disse, no sábado, mas acrescentou que “não deveria haver críticas frívolas imediatas de Davos”. “É preciso esperar que resulte em um governo muito mais inclusivo. Mas como eles chegarão lá, quando e se o governo mudar, deve ser uma questão dos egípcios”, acrescentou.

O ex-embaixador de Cingapura na ONU e atual reitor da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew, Kishore Mahbubani, lembrou aos participantes que assistiam a um painel no Fórum Econômico de Davos que “estes tipos de revoluções de rua podem conduzir a resultados negativos”. “É por esta razão que você descobrirá que o tipo de entusiasmo na mídia Ocidental sobre estes eventos não é transportado para outros lugares – porque todos pensam: Cuidado com o que você deseja. Você pode obter algo pior”, afirmou.

Mahbubani citou o exemplo da revolução iraniana de 1979, que derrubou o xá favorável ao Ocidente e instalou o aiatolá Ruhollah Khomeini, que estabeleceu o governo islâmico. “Todos dizem que maravilhoso. Há uma revolução nas ruas”, acrescentou. “Você se livra do xá e tem Khomeini. O que é melhor? Imagine se você estiver em Israel hoje”, acrescentou. “O maior pesadelo geopolítico para Israel é ter o mais populoso país árabe na vizinhança com instabilidade política. Acredite em mim, muda todo o equilíbrio no Oriente Médio. Faz tudo o mais parecer muito simples, porque, de repente, nós retrocedemos 30 anos. Então tenha cuidado com o que deseja”, afirmou Mahbubani.

Zedillo afirmou que ele, Malloch-Brown e Mahbubani são todos “amigos muito próximos” de Mohamed ElBaradei, o líder egípcio Nobel da Paz, que supostamente está em prisão domiciliar. “Aqui estamos nós três recomendando prudência, deixe a situação se tornar mais clara – e nós somos amigos da oposição e estamos dizendo seja prudente”, afirmou.

O diretor de um centro de pesquisa econômica da China, Li Daokui, disse que estava “extremamente cauteloso sobre o que pode acontecer”.

As informações são da Associated Press.