Estado.com.br
Domingo, 27 de Maio de 2012
Radar
Seções
Arquivos
Tamanho do Texto

Papa recebe apoio no Brasil

Categoria: Sem categoria

A declaração do papa Bento 16 sobre o uso do preservativo chocou a comunidade católica (Foto: Ricardo Stuckert/PR/ABR/Divulgação)

A declaração do papa Bento 16 sobre o uso do preservativo chocou a comunidade católica (Foto: Ricardo Stuckert/PR/ABR/Divulgação)

As declarações do papa Bento 16 de que o uso da camisinha é permitido em alguns casos têm impacto direto na vida dos católicos praticantes e não é apenas uma fala com repercussão dentro da Igreja. Essa é a opinião de estudiosos da religião e de grupos de combate à Aids. A socióloga Lúcia Ribeiro, consultora do Instituto de Estudos da Religião (Iser) afirma que existe repercussão na vida de católicos que são muito alinhados com a fala do pontífice. “Isso está vindo da autoridade máxima da igreja e vai ajudar no uso da camisinha. Mesmo os católicos que já usam e se sentem constrangidos, vão se sentir aliviados”.

Lúcia acrescenta que a prática dos católicos em usar preservativos antecede a essa posição do papa. “Encaro as declarações como muito positivas mas que chegaram um pouco tarde”. Para ela, a esperança é que se abra uma porta para a Igreja discutir outros assuntos como os direitos sexuais e reprodutivos que “ainda têm muito a avançar”.

O presidente do Fórum de ONGs do Estado de São Paulo, Rodrigo Pinheiro, também acredita em uma repercussão na vida diária. “Isso porque alguns católicos seguem à risca a tradição”. Para ele, apesar do posicionamento estar vindo um pouco tarde está existindo bom senso do Vaticano no combate a doença. “O mais importante é o efeito mundial disso, inclusive no continente africano, que é o mais atingido pela aids”.

Para o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, do Núcleo de Fé e Cultura da PUC, Bento 16 é no último século um dos papas mais preocupados em não reduzir a moral cristã em moralismo. E isso, segundo ele, pôde ser visto de perto pelos brasileiros na passagem do pontífice pelo Brasil em maio de 2007. Em um encontro com jovens no Pacaembu ele afirmou que as regras morais servem para se realizar na vida, o que denota um discurso não moralista. “Mas existe uma dificuldade enorme em expor essas questões dentro do cenário cultural no qual a Igreja se move”. Ele lembra que a máxima no Catolicismo é a abstinência sexual no combate à aids. “Só que para chegar a isso é necessário um caminho e nesse caminho o uso do preservativo pode ser tolerado é o que está dizendo o papa”.

Momento histórico

Com 38 anos de sacerdócio e influente entre os fiéis, o padre Rosalvino Moran Vinayo, de 69 anos, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Itaquera, zona leste, avaliou que a declaração papal representa um momento histórico para a Igreja Católica. “O papa está trazendo uma contribuição necessária ao debate. A Igreja fala sobre o respeito ao corpo e a integridade humana. São esses os valores. A sexualidade deve respeitar isso”. Sobre a possibilidade de o papa liberar o uso da camisinha em todos os casos, o padre avaliou que essa é uma posição complicada. “A Igreja não muda em cima de pressões da sociedade”. Para a socióloga Lúcia Ribeiro, a doutrina moral da Igreja muda de maneira muito lenta em comparação com a velocidade das transformações sociais e científicas. “Mas ela muda até porque os comportamentos mudam”.

O cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer irá se posicionar amanhã sobre as declarações do papa, já que volta hoje de Roma. A assessoria de comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou que pretende esperar a publicação do livro antes de qualquer pronunciamento. O livro Luz no Mundo, no qual o papa faz as declarações sobre o uso da camisinha, será lançado hoje.

Deixe um comentário: