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Domingo, 27 de Maio de 2012
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O ano mais difícil para Bento XVI

Categoria: Mundo

(Foto: Alessia Pierdomenico/Reuters)

Os escândalos de padres pedófilos atingiram a Igreja Católica em 2010. Foi um “annus horribilis”  para Bento XVI, que em seu último livro, Luz do mundo, reconhece que foi “um choque enorme” e que é “difícil ver o sacerdócio manchado dessa maneira”.

O quinto ano do pontificado foi considerado pelos analistas como o mais delicado e difícil, já que os casos de padres pedófilos abalaram as igrejas da Irlanda, Estados Unidos, Alemanha, Áustria e Bélgica, entre outras, e atingiram o próprio pontífice.

Bento XVI foi acusado de ter “encoberto” padres pedófilos durante sua etapa à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, o que foi negado taxativamente pela Santa Sé, que denunciou uma “campanha” para atacar o papa a qualquer preço.

Após centenas de casos nos EUA, que seguem arruinando dioceses devido às indenizações milionárias que tiveram que pagar, nos últimos meses foram publicados os polêmicos relatórios Ryan e Murphy, que denunciaram abusos sexuais de centenas de crianças irlandeses, durante décadas, por parte de sacerdotes, sobretudo na arquidiocese de Dublin, entre 1975 e 2004.

Perante a situação criada, o chefe da Igreja Católica convocou os bispos irlandeses ao Vaticano e ordenou uma inspeção das dioceses envolvidas. Após qualificar os abusos de “crime atroz”, em carta aos católicos irlandeses, o papa pediu perdão às vítimas.

No meio do caso irlandês, mais escândalos: cerca de 350 menores sofreram abusos na Alemanha nos últimos trinta anos, entre eles na escola de elite dos jesuítas Canisius, em Berlim.

Como num efeito dominó, as denúncias se estenderam à Áustria, Holanda e Itália e, por sua vez, o jornal americano The New York Times  acusou Bento XVI de encobrir um sacerdote que abusou de 200 crianças surdas nos EUA.

Para piorar, o diário alemão Süddeutsche Zeitung  informou que nos anos 1980, quando o papa era arcebispo de Munique, autorizou um sacerdote com antecedentes de pedofilia a exercer atividades na capital bávara.  Perante os incessantes ataques, o Vaticano anunciou que acusar o pontífice de ocultação é “falso e calunioso”.

Em paralelo, as famílias das vítimas exigiram sua renúncia e alguns intelectuais britânicos pediram inclusive sua detenção. O papa Ratzinger também contou em seu livro que em nenhum momento pensou em renunciar, “já que quando o perigo é grande não se pode escapar”.

O pontífice voltou a se reunir durante suas viagens a Malta e Grã-Bretanha com vítimas de abusos, às quais expressou “sua vergonha e pesar” e lhes garantiu que continuaria trabalhando para levar perante a justiça os responsáveis dos abusos sexuais.

Em Londres, Bento XVI admitiu pela primeira vez que o Vaticano não foi suficientemente “vigilante, veloz e decisivo” na hora de enfrentar os abusos.

Em Portugal, disse que o “perdão não substitui a justiça” e que os escândalos evidenciam que a “maior ameaça para a Igreja não vem de inimigos externos, mas de seu interior, dos pecados que existem nela”.

Além disso, o papa revisou o Código de Direito Canônico para tornar as penas mais rigorosas e incluiu o delito de posse de pornografia infantil pelo clero.

Neste ano, Ratzinger nomeou um comissário para supervisionar os Legionários de Cristo, após comprovar-se que seu fundador, a padre mexicano Marcial Maciel (1920-2008), abusou sexualmente de seminaristas e teve filhos com várias mulheres.

No fim do ano, o papa Bento XVI surpreendeu a opinião pública ao justificar em “alguns casos o uso do preservativo”, a primeira vez anunciada por um pontífice.

O chefe da Igreja também viajou à Espanha, onde denunciou o “forte enfrentamento” entre fé e modernidade, que lhe lembrava, disse, o “anti clericalismo e secularismo forte e agressivo” da época da Segunda República.

Suas palavras renderam uma onda de críticas, especialmente dos partidos de esquerda. O Governo espanhol evitou a polêmica, embora se mostrasse surpreendido pela comparação.

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