Jogo rouba a cena nos bastidores do debate
- 6 de agosto de 2010 |
- 15h24 |
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Gilberto Amendola
Nem bandeira do PT. Nem bandeira do PSDB. A militância presente ao primeiro debate presidencial foi a do São Paulo Futebol Clube. O único frisson ao redor da rede Bandeirantes era um distante eco de torcida organizada, alguns fogos de artifício e gente interessada em “correr pra casa”. Antes mesmo das primeiros candidatos e aliados chegarem ao debate, a turma de manobristas apostava caixas de cerveja no resultado da semifinal da Libertadores. “Sou o único são-paulino aqui. Vou ganhar uma geladeira cheia”, brincou um dos trabalhadores.
A própria polícia que trabalhava no entorno estranhou a calmaria. Na falta de empolgados militantes para vigiar, o assunto era futebol e a aparência de alguns políticos. “Como o Quércia envelheceu”, “Esse Paulo Skaf (candidato ao governo do Estado pelo PSB) é narigudo” e outras pérolas. O ápice foi quando um segurança espiou dentro de um carro e gritou: “É a dona Marisa(primeira-dama)”. Ledo engano. Quem saiu do carro foi Marta Suplicy.
Quem estava do lado de fora ainda tinha uma esperança de ver o jogo. A pequena televisão do ponto de táxi e uma outra disponível em frente à Bandeirantes. Qual o quê? A fidelidade à emissora fez com que esses pontos optassem pelo civismo e sintonizaram no debate. Os taxistas ouviram uma breve choradeira. Prontamente, desligaram a tevê. Jogo da Libertadores? Só nos monitores da portaria da Bandeirantes, nos computadores de alguns jornalistas e no celular de muitos presentes.
E o interesse no debate? Uma história exemplar é a do casal Francisca Santos Silva, 36 anos, e Raimundo Santos, 29. Os dois tinham acabado de sair de uma consulta médica no hospital Darcy Vargas (tinham levado a filha, Sabrina, 5 anos, para exames de rotina). A Rua Radiantes, onde fica a Bandeirantes, ficava exatamente no caminho desta família. Para chegar à favela Paraisópolis, eles precisaram passar pelas barreiras policiais. “Ué? Aconteceu alguma coisa? É por causa do jogo?”, perguntou Raimundo. Ao saber que se tratava de um debate político, o homem retrucou. “Debate de quê?” Ao ser informado que se tratava de um debate presidencial, Raimundo olhou espantado e disse. “Presidente? Já. Poxa…”
Além do casal voltando do médico, um solitário manifestante sentava-se em cima de uma pasta 007 em busca de atenção. “Estou aqui lutando pela aposentadoria dos advogados”, falou Pedro Alberto do Santos, 66 anos. “Achei que ia ter mais gente. Não vou ficar até o fim. Acabei de saber que minha casa foi assaltada.” Assim, o protesto de um homem só se dissipou. Trabalho, trabalho mesmo, a polícia só teve com um sujeito alcoolizado que queria (queria muito) curtir seu porre na frente da Bandeirantes.
Mas, a informação que chegava nos bastidores, é que o jogo estava chato. O jeito era circular por entre políticos de diversos matizes. Como tantas opiniões diferentes, alguma faísca deveria aparecer, algum sorriso amarelo. O que essa reportagem não contava foi com uma mesinha de salgadinhos e lanches oferecida pela organização do debate. A conclusão é: o que a política separa, a mesa de salgadinhos une. Só conversas amenas e tapinhas nas costas. Coisa civilizada. Clima da chá das cinco com as tias do interior. É o que chamam de democracia madura, não é? A única faísca acontecia quando os repórteres do CQC se aproximavam dos políticos. Era possível perceber aquela tensão.
Mas o debate começou. Comentários maldosos pipocavam. O melhor deles: “Nenhum dos candidatos pegou a senha do carisma”. Uma única e urgente pergunta afligia os presentes no finzinho do debate: “Quanto foi o jogo do São Paulo?”.
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