Estado.com.br
Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
Esportes
Seções
Arquivos
Tamanho do Texto

O goleiro de uma nação

Categoria: Futebol, Palmeiras

RAPHAEL RAMOS

Às vésperas da Copa do Mundo de 2002, Marcos chamou Felipão para uma conversa reservada e fez um pedido: “Não me coloque como titular. O Rogério Ceni e o Dida estão voando, e eu estou sendo cornetado por todo mundo. É melhor você escolher um dos dois para ser o seu camisa 1.”  O treinador não deu bola para ele, e o final da história todos sabem: a Seleção conquistou o quinto título mundial com atuações importantíssimas do palmeirense, sobretudo nas oitavas de final contra a Bélgica e na decisão diante da Alemanha.

Se a Libertadores de 1999 serviu para elevar Marcos à condição de santo para os palmeirenses, a Copa do Mundo da Coreia da Sul e do Japão fez com que ele passasse a ser idolatrado e respeitado por torcedores de todo o País, até mesmo dos rivais São Paulo e Corinthians.

“Nas preleções, o Felipão passava imagens do povo brasileiro sofrido, cenas de enchentes, pobreza… E a melhor coisa de você defender a Seleção é cantar o hino nacional perfilado com os demais jogadores sabendo que o País todo está te assistindo”, relembra Marcos.

Apesar de ter iniciado aquele Mundial sem muita confiança, a ponto de ter pedido para Felipão não colocá-lo como titular, ele chegou à decisão tão seguro de si que beirou a arrogância, algo impensável para um jogador como ele. Na preleção, o treinador passou a palavra a Ronaldo, astro da companhia. E o Fenômeno prometeu marcar pelo menos um gol – acabou fazendo dois.

Marcos, então, cravou sem medo que o Brasil sairia do estádio Internacional de Yokohama pentacampeão do mundo. “Como o Ronaldo vai garantir o gol dele lá frente e por mim não passa nada hoje, esse título é nosso”, disse para delírio do grupo.

Cafu era o capitão daquele time, mas não era o único líder. Roque Júnior também havia sido escolhido por Felipão para comandar a equipe, principalmente fora de campo, e lembra da importância de Marcos naquela conquista. “Ele estava em uma fase muito boa. Tinha a confiança do Felipão e, para nós jogadores, quando você olha para trás e vê um goleiro da qualidade do Marcão você se sente mais tranquilo.”

Companheiro de Marcos no Palmeiras de 1995 a 2000, Roque Júnior o conhecia bem e sabia que ele poderia ser fundamental para apagar qualquer princípio de crise que pudesse existir. Mas nem foi preciso. “Não perdemos nenhum jogo naquela Copa, mas caso perdêssemos e um jornalista fosse entrevistá-lo, ele poderia soltar uma ou duas pérolas para desviar a atenção para ele, porque sempre foi assim”, conta.

As melhores lembranças que o ex-zagueiro tem de Marcos são da final. “Quando foi exigido, ele não decepcionou. Em uma falta cobrada pelo Neuville, por exemplo, ele se esticou todo e, com a pontinha dos dedos, espalmou a bola, que ainda bateu na trave.”

O lance citado por Roque Júnior ocorreu aos três minutos do segundo tempo, quando a partida ainda estava 0 a 0. O alemão chutou forte da intermediária, a bola passou pela barreira e, quase em cima de Marcos, fez uma curva. Neuville levou as mãos à cabeça como se não acreditasse que o brasileiro tivesse conseguido fazer a defesa. Mal sabia ele que estava diante de um santo.

O dia mais difícil de São Marcos

Categoria: Futebol, Palmeiras, Sem categoria

DANIEL AKSTEIN BATISTA

 

São 38 anos de vida, quase 20 de Palmeiras. E uma humildade sem tamanho. Marcos Roberto Silveira Reis, o São Marcos da torcida do Verdão, falou pela primeira vez sobre a aposentadoria ontem, em evento na Academia de Futebol. Foram 58 minutos de coletiva, e outro tanto de conversa depois disso. O goleiro que deve ganhar um busto no futuro estádio, do qual também será o embaixador, e ainda verá sua camisa 12 ser aposentada, prometeu não chorar na despedida. Só soltou algumas lágrimas quando falou do pai, falecido.

Hora do adeus
Vou tentar responder sem chorar, me preparei uma semana pra isso, pra não ficar com beicinho. Mas se eu soubesse que ia ter tudo isso… Caiu minha pressão, estava nervoso, ontem não dormi. Não sou de oba-oba, preferia falar: ‘parei, tchau’. É meio horrível pegar e sair do clube. Quando decidi parar, fiquei muito mal. E quando saí com o carro daqui, deu vontade de voltar e falar pro César Sampaio: é mentira. Aquele dia que o Sampaio deu a notícia pra vocês eu tirei pra chorar. E ganhei uma semana pra preparar o psicológico.

Estranha sensação
Um dia cheguei em casa, vi todas aquelas matérias sobre mim, e falei: ‘parece que morri’. A aposentadoria do jogador é mesmo como se você tivesse morrido. Você chega em casa e vê a mala, a roupa de concentração e fala: ‘rapaz, morri mesmo’. Somos dois personagens: o pai da Juju (Ana Julia) e marido da Sônia, e o goleiro. E o goleiro morreu mesmo, jogo agora só na despedida.

A decisão
Não foi algo que decidi agora. Venho falando isso há três anos. Cada vez que a gente perdia eu falava que iria parar. Usei muito o ano passado pra parar e espero que não sinta tanta falta do futebol, já que me preparei pra isso. A decisão veio mesmo quando não consegui entrar em forma. Fiz algumas partidas acima do peso e joguei abaixo do esperado. Sempre briguei muito com a balança. Corria e ficava com o joelho inchado. O corpo pediu arrego. E sabia que daqui pra frente iria ficar me arrastando pelo campo. Quando se tem uma dor muito forte é difícil ter prazer. Termino feliz com minha carreira. Fiz defesas maravilhosas, tomei frangos e dei entrevistas boas pra vocês e ruins pra mim.

Homenagens
Sobre aposentar camisa 12, fiquei muito feliz. É um pouco de egoísmo querer um número só pra mim. Camisa 1 no Palmeiras teve um monte melhor que eu, mas com a 12 acho que fui um dos melhores. E acho que vocês dão muito mais moral pra mim do que mereço.

Personalidade
Eu dava boas entrevistas. E que davam problemas pra mim, mas sempre dormi tranquilo. É difícil mudar a personalidade de uma pessoa. Hoje sempre tem alguém que diz o que você deve falar, vestir… Jogador um pouco mais antigo tinha personalidade pra falar. Hoje tem marketing daqui, manager dali. É por isso que estou aqui hoje e tenho respeito de todos. Me identifiquei muito pela torcida por ela reconhecer o torcedor que estava em campo. Muitas vezes falei muita bobagem, devia ter ficado quieto, mas sempre falei o que o coração mandava.

Marketing e futuro
Como jogador fazia pouco evento, até porque era difícil concentrar, treinar e fazer eventos. Mas quero ficar um tempo parado agora. Tenho vários projetos, muita gente me procurou. Talvez eu seja embaixador na Nova Arena. O Palmeiras pode contar comigo no que precisar. Não vou dar entrada no contrato de trabalho agora, mas vou ajudar e me preparar pra isso. Eles deixaram a porta aberta pra eu vir aqui e conversar com os amigos e isso vai ser bom pra eu não sentir tanta falta.

Paixão alviverde
É difícil viver muito tempo num clube e só ser profissional. Não dá pra não gostar, não ter amor. Sempre cobrei muito isso dos jogadores e cobrava porque queria que eles fossem iguais a mim, mas eles têm direito de ser diferentes. E sempre pedi desculpas após minhas fortes declarações.

Família
Minha mãe ficou muito triste. Aí expliquei as condições e ela entendeu. Ela perguntou se não dava pra jogar mais um tempinho e falei que estava com dor. Ela só pediu pra eu ir mais em casa. Meu pai tenho certeza que está feliz… O que ele mais me ensinou era preservar o nome e acho que isso fiz bem (chora). Quando meu pai estava doente tinha muito jogo seguido e não o vi morrer porque estava concentrado. Este ano vou tentar ficar mais próximo das pessoas de que gosto.

Esposa e filhos
É o preço que se paga pela profissão, nunca estamos no álbum de família de ninguém. Eu só tenho a agradecer à profissão, meus filhos vão ter futuro melhor por esse sacrifício. Vou ver as coisas da escola dos dois (filhos) agora e estou devendo ver o filme dos Smurfs com ela (Ana Júlia, de 8 anos). Mas a gente vê filme e eu durmo, aí ela fica brava.

Mito
Sempre tentei focar que eu gosto daqui, que ganho bem, mas que dinheiro não era a maior prioridade. Queria estar ao lado de quem eu gostava, criar uma raiz e me tornar ídolo aqui. Quem pula de time em time talvez ganhe mais, mas não será tão lembrado. Seria legal que mais jogadores pensassem assim, que dinheiro nem sempre é tudo. Não sei quando me tornei diferente. Achei injusto sair do time quando caiu para a Série B. Resolvi ficar e, sem querer, foi uma das melhores coisas que fiz na vida.

Jogo de despedida
Vou deixar pro marketing decidir. Quem sabe um jogo entre Palmeiras e Corinthians de 1999 ou 2000, ou contra o Deportivo Cali. Ou meus amigos que jogaram aqui. Mas se chamar todos os amigos vai ter que ter uma semana de jogo para todo mundo poder jogar um pouquinho.

E o time?
Agora estamos torcendo, viu presidente! Estou sem contrato e vou ‘cornetar’ na arquibancada. O Palmeiras tem bom time, mas é claro que precisa de reforços. Ano passado no papel o Corinthians não era o melhor, mas era o mais raçudo, unido.

Ídolos no gol
Tive muitos ídolos, o Carlos, o Gato Fernández, mas os maiores foram Velloso, Zetti, Ronaldo e Taffarel. O Sérgio também me ajudou muito, mas meu grande ídolo mesmo foi o Velloso.

Momentos
Talvez a melhor defesa foi uma bola que não peguei: a do Zapata, que foi para fora (final da Libertadores de 1999). Esta foi a minha maior alegria. A tristeza foi o Mundial (contra o Manchester). Cacei borboleta e deixei o torcedor triste.