As relíquias do Hotel Cambridge
- 25 de julho de 2011 |
- 23h28 |
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Categoria: Cultura, Geral, Habitação, Patrimônio, Urbanismo
RODRIGO BRANCATELLI
José Osvaldo Gonzaga é um sujeito grande e de olhos bem atentos que já se acostumou a passar o dia sozinho na penumbra. Completamente sozinho, completamente na penumbra. Há cerca de 15 dias, ele toma conta do Hotel Cambridge, no número 216 da Avenida 9 de Julho, recentemente desapropriado pela Prefeitura para virar moradia popular.
“Como não tem luz aqui, às vezes tomo uns sustos. Bate a janela, até parece que é fantasma”, diz Gonzaga, que já aprendeu a se movimentar pelo Cambridge sem bater em algum pedaço de madeira.
Por trás da sujeira, de pedaços de móveis destruídos, das cortinas mofadas, da umidade na parede e de um mundo de cacarecos deixados para trás, é possível reparar detalhes de uma época áurea do centro.
“Cuidado”, diz uma placa no lobby, visível apenas com luz de lanterna. Ali, justamente onde o zelador permanece de guarda do início da manhã até fim de tarde, apenas alguns miúdos fachos do sol vencem as janelas lacradas com tapumes. Depois do fechamento em 2002, o bar do Cambridge continuou recebendo festas como a Trash 80’s, Gambiarra e Talco Bells. O saguão era transformado em pista de dança e a recepção virava bar.
Após 22 degraus até o primeiro andar, logo perto da escada, há um sinal de que não se trata de um prédio abandonado como outro qualquer – um sarcófago encostado na parede causa calafrio na espinha. Feito de plástico, ele parece ter sido deixado pelos organizadores de alguma balada, com vários rolos de papel crepom, pôsteres, caixas de cerveja, vasos sanitários quebrados, cadeiras vermelhas e um disco em vinil com a trilha de Flashdance – Em Ritmo de Embalo.
Mais 22 degraus para cima e o cenário começa a parecer mais a um hotel de verdade. O piso de taco de madeira do corredor continua intacto, camas de casal e solteiro seguem com colchões e até armários de madeira permanecem abertos, como se estivessem à espera dos hóspedes. Desde o começo dos anos 2000, ninguém dorme ali.
Projetado pelo arquiteto Francisco Back e financiado pelo empresário Alexandre Issa Maluf, o Cambridge virou sinônimo de sofisticação assim que seus 119 apartamentos foram inaugurados, em 1951. Mas a deterioração do centro se refletiu na decadência do endereço. Turistas sumiram da região, carregando suas malas para endereços nos Jardins e na Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini e levando hotéis outrora riquíssimos à falência. Uma triste história que a sujeira na fachada, as janelas quebradas e o abandono não deixam esquecer.
Depois de uma batalha jurídica de quase um ano com herdeiros do Cambridge, a Prefeitura depositou há um mês R$ 6,5 milhões pela desapropriação, encerrando de vez atividades ali. A ideia é transformar o antigo hotel em moradia para famílias de baixa e média renda – quartos serão remodelados em 115 unidades habitacionais de cerca de 38 m².
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