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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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Camelôs invadem check-in e cafés de Cumbica

Categoria: Aviação, fiscalização

Adriana Ferraz
Nataly Costa

A cena é comum em semáforos ou locais de grande aglomeração, como os centros das cidades ou pontos turísticos: os pedestres passam e são assediados por vendedores de toda sorte, oferecendo vários tipos de quinquilharia. Agora, imagine um saguão de aeroporto lotado, com fila no check-in e no cafezinho, enquanto os passageiros também são abordados pelos ambulantes. É o Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, o maior do Brasil, agora também tomado pelo comércio informal.

A reportagem do Jornal da Tarde foi ao aeroporto em quatro dias diferentes, em horários variados, e flagrou vários ambulantes. Nos cafés localizados no primeiro andar, entre os embarques nacional e internacional, eles abordam passageiros nas mesas. Sacos com bloquinhos de papel, caneta e chaveiros são colocados ao lado de bandejas com salgados ou sucos, com o preço e a mensagem do vendedor em destaque.

“Quanto mais lotado o aeroporto, mais ambulantes aparecem. Os passageiros ficam meio desconfiados, principalmente os gringosâ€, diz uma vendedora de uma lanchonete que pediu para não ser identificada. A “oferta†confunde turistas estrangeiros que, sem entender a mensagem em português, não sabem se é gratuito ou não.

Chaveiros, geralmente com a bandeira do Brasil, custam entre R$ 2 e R$ 3. “Mas faço quatro por R$ 10â€, oferece um vendedor a um empresário que aguardava sua mala ser embalada por um plástico protetor, antes de despachá-la no check-in. Sentindo a falta de interesse do cliente pelos chaveiros, o ambulante sacou um “cabide†cheio de cadeados para mala. Vendeu por R$ 5.

“Tem de tudo nesse aeroporto, gente vendendo, gente pedindo, só não tem segurança, policiamento. Isso eu não vejoâ€, afirma o empresário mato-grossense Alexandre de Medeiros, de 40 anos.

Do lado de fora do aeroporto, na fila do táxi, o forte dos ambulantes é a venda de água e chocolates. “O movimento aqui de manhã é melhor do que no centroâ€, diz o vendedor Anastácio Silva, de 48 anos, que trabalha em Guarulhos. O delegado Ricardo Guanaes Domingues, titular da delegacia do Aeroporto de Cumbica, diz que cabe à prefeitura de Guarulhos coibir a ida dos ambulantes para o aeroporto. “Já tivemos reuniões com a prefeitura sobre isso e eles até tomaram algumas medidas, mas os ambulantes acabam voltandoâ€, disse.

Jogo de empurra
A prefeitura de Guarulhos afirma que o problema é da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). A Infraero, por sua vez, afirma que “tem se esforçado para retirar os ambulantes de áreas públicasâ€, mas ressalta que “não tem competência legal†para essa ação, já que a área do aeroporto é pública, não privada. Desse modo, a responsabilidade caberia à prefeitura de Guarulhos – que reitera não se responsabilizar pelo que acontece dentro de Cumbica.

Vestido de 15 anos tem até foto

Categoria: Comportamento

Valéria França

De todos os elementos obrigatórios em uma festa de 15 anos, digamos, de arromba, o vestido é dos mais importantes. E, para causar impacto, vale tudo na moda delirante das debutantes. Vale, por exemplo, copiar o look de cantoras internacionais, como Katy Perry e Beyoncé – ou mesmo de alguma personalidade do cenário nacional, como Ivete Sangalo. Ou ser diferente – e um tanto narcisística – e mandar estampar o próprio retrato no modelito.

“Elas sempre pedem a roupa do último show ou do clipe de alguém da cena popâ€, confirma o estilista Israel Valentim, de 40 anos. Disputado na região do Tatuapé e do Jardim Anália Franco, na zona leste de São Paulo, ele vem conquistando clientes de outras partes da cidade, como Alto da Lapa, na zona oeste, e Jardins, na zona sul, e assinou os vestidos da miss interpretada pela atriz Bruna Marquezine na novela global das 19h, Aquele Beijo, que acabou em abril. Segundo ele, hoje as debutantes usam até cinco vestidos.

“Elas escolhem um modelo longo para a valsa e outro bem curtinho para a baladaâ€, conta Emmanuele Junqueira, estilista conhecida por ter uma linha romântica, com ateliê nos Jardins. Os vestidos custam a partir de R$ 5 mil.

A paulistana Stephany Martins não fugiu à regra e usou três vestidos em sua festa, em fevereiro – um curto cor de champanhe para receber os convidados, um longo e rodado com a sua foto estampada na saia para dançar a valsa e um de paetê brilhante, bem curto, para a hora da balada.

“Elas sempre querem vestido de paetê. Tento convencê-las a sair do lugar comum, mas nem sempre dá certoâ€, diz Rodrigo Rosner, estilista de roupa de festa, com ateliê em Higienópolis.

Stephany, Suellen, Amanda e Nicole, clientes de Valentim (Foto: Paulo Liebert/AE)

A paulistana Suellen Lembi Roberto sonha ser diretora de cinema. Na sua festa de 15 anos, no começo do ano, ela abusou do tema. Para receber os convidados no Buffet Torres, em Moema, zona sul, escolheu uma réplica – mais curta e menos decotada – de um dos vestidos mais fotografados de Marilyn Monroe, o plissado branco e esvoaçante que a atriz usou em O Pecado Mora ao Lado, de 1955. Duas horas depois do início da festa, Suellen saiu de cena. Nos bastidores, um cabeleireiro a esperava. Ela teve o cabelo solto e envergou uma tiara de strass. Enquanto isso, os convidados assistiam uma das cenas de Titanic (1997). Então, as luzes do salão se apagaram, e Suellen surgiu num longo vermelho, como se estivesse saindo do filme.

O terceiro modelito foi inspirado em Moulin Rouge (2001). “Abri a pista em cima de uma réplica da Calçada da Famaâ€, conta a menina. No total, a festa custou cerca de R$ 250 mil. “Ver os olhos da minha filha brilhando valeu cada centavoâ€, garante a mãe, a advogada Jaqueline, de 48 anos.

“Em salões top, como os do Grupo Leopolldo, Casa Fasano e La Luna, uma festa desse porte começa em R$ 400 milâ€, diz Romy Godoy, da Romy e Tangrê, que faz assessoria de festas e está há 25 anos no mercado.

Os exageros incluem entradas triunfantes das meninas de moto, a cavalo e, acredite, até voando, presas em cabos de aço. Romy, no entanto, dá uma pista de onde vem tanta imaginação: “Muito do que acontece na festa é a realização do sonho da mãe.â€

Kátia Sanches, de 45 anos, diretora de uma escola da zona norte, não mediu esforços para realizar o sonho. Ela pagou a festa de debutante da filha durante dois anos. A recepção ocorreu na semana passada, no Spaço Quatá, na Vila Olímpia, zona sul. A filha, Nicole, escolheu vestir-se de Katy Perry e ganhou de presente um cavalo, entregue na frente dos convidados. “O problema é que o exagero chega a um ponto que a festa nem parece de verdadeâ€, diz o estilista Rosner. Nicole, claro, discorda. “Tive uma noite de princesa. Melhor: tive uma noite de Katy Perryâ€, conta. “É melhor do que casar, porque não precisei dividir as atenções com o noivo.â€

Verde dá nova cara ao Memorial

Categoria: Meio ambiente, Urbanismo

FELIPE TAU

Criticado por ter muito concreto e pouco verde em sua área, o Memorial da América Latina, na Barra Funda, zona oeste da cidade, começa a mudar de cara. Parte das 722 árvores plantadas no terreno entre 2006 e 2009 começou a ficar mais visível e, na opinião dos frequentadores, deixou o clima do lugar menos árido.

As que mais se destacam são as palmeiras enfileiradas diante da Avenida Auro Soares de Moura Andrade. Das 162 unidades existentes ali, 48 foram plantadas desde 2006. Elas cresceram e o conjunto está chamando a atenção de quem passa.

“As obras arquitetônicas são belíssimas, mas era muito concreto. As árvores deixam o ar melhor para respirarâ€, disse a professora de matemática Liliana das Graças Giovanni, de 47 anos, que frequenta o Memorial há 14.

O fotógrafo goiano Hélio Leonardo da Silva, de 58 anos, também notou a mudança. “Cresceu bem desde que estive aqui pela última vez, há três anos. Acho que fica bonita a integração do verde com os prédios.â€

O responsável pelo paisagismo atual é o engenheiro Joaquim Boaventura, gerente técnico da Fundação Memorial da América Latina. Segundo ele, havia poucas plantas quando assumiu o cargo, em 2005 – apenas parte dos coqueiros. Ele conta que foi necessário elaborar um plano de arborização, que não constava do projeto original do complexo. Inaugurado em 1989, ele foi concebido pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

“Fora as palmeiras, já previstas, só havia nacos de terra vazios na planta, na periferia do terreno. O que fizemos foi adensá-los ao máximo com vegetaçãoâ€, explica. Como o Memorial é tombado, foi necessária a autorização do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Segundo Boaventura, os 12 mil metros quadrados de área verde existentes hoje são o limite suportado pelo espaço. Eles representam 14% da área total, de 84,5 mil metros quadrados.

Incluindo os dois tipos de palmeiras – árvores mais abundantes – há 26 espécies de plantas. Entre elas, 15 tipos de árvores frutíferas, localizadas em um pomar ao lado do restaurante. As primeiras mudas foram trazidas do Horto Florestal e do Jardim Botânico de São Paulo, mas agora um viveiro, atrás do Auditório Simón Bolívar, reproduz os exemplares.

Mata Atlântica
Quase todos são originários da Mata Atlântica, como o Pau-Brasil. Para o professor Grégório Ceccantini, do Departamento do Botânica da Universidade de São Paulo (USP), a escolha de espécies típicas do Brasil foi acertada. “Acho a proposta bacana, é boa para a fauna urbanaâ€, explica. As exceções, diz, são árvores frutíferas não nativas do País, como o caqui e a lichia. Elas exigem mais cuidado.

SP tem associações de todo tipo

Categoria: Comportamento

Edison Veiga
Nataly Costa

Hobbies, afinidades culturais, ideais compartilhados. Tão diferentes podem ser as motivações para um grupo montar uma associação que isso, por si só, já garante a existência de entidades dos mais variados tipos. Um exemplo é a Associação dos Colecionadores de Embalagens de Cigarros e Afins (Aceca), fundada em 1990. “Em casa ninguém fuma, mas eu sou um dos maiores colecionadores, com cerca de 8 mil embalagensâ€, conta o professor de Educação Física aposentado Antonio Fiaschi Teixeira, de 57 anos.

A Aceca tem 96 sócios, que se reúnem cerca de cinco vezes por ano. “Tenho um escritório só para guardar minhas embalagens. São umas 50 mil ao todoâ€, diz o presidente Ricardo Locatelli, um dos poucos que fumam no grupo.

E talvez seja difícil encontrar em outro lugar que não São Paulo um grupo tão peculiar quanto a Associação das Esposas de Executivos Franceses – ou São Paulo Accueil, como vem sendo conhecida a entidade criada há mais de 30 anos. Mas com que propósito? “Acolher as mulheres ou qualquer um que fale francêsâ€, conta Florence Balay, de 54 anos, uma das associadas, casada com um executivo – ela francesa, ele brasileiro. “O começo é sempre difícil, a procura por apartamento, móveis, escola para os filhos. Vou na loja e compro um celular para a esposa, ajudo na mudançaâ€, diz.

A associação conta com 280 famílias e tem uma anuidade de R$ 100. Mas as atividades não são só burocráticas, pelo contrário. As esposas se encontram pelo menos uma vez por mês para um café, uma ida ao museu, uma sessão de costura ou de jogo entre amigas.

A atual presidente, Catherine Tissot, de 46 anos, chegou à cidade em setembro e já se sente acolhida. “Em São Paulo existe muita solidariedade entre as famílias francesas. A única coisa que não entendo é o rodízioâ€, conta ela, que antes morava em Buenos Aires com o marido – ele sim, um executivo francês.

Karaokê
A “associação das associações†dos entusiastas do karaokê é a União Paulista de Karaokê (UPK), presidida por Toshio Yamao, de 72 anos. Apesar de ditar todas as regras para os aspirantes a cantores, ele mesmo não solta a voz. “Entrei nessa por causa dos meus filhos, que gostavamâ€, explica.

Para quem não sabe, a UPK tem mais de 200 associadas no Estado de São Paulo – mais de 50 só na capital. Uma vez por ano, um megaevento junta todos os cantores amadores do Estado e promove um concurso dividido por faixa etária – de 2 a 90 anos de idade – e grau de especialidade (iniciante, extra, super extra). Algumas edições chegam a ter 300 candidatos.

Os concursos, porém, passam longe dos karaokês da Liberdade. “ Aquilo é bar, boate, coisa parecida. O nosso é para ir família inteira, alugamos um salão ou vamos em uma das sedes das associações.†O da Rua Vergueiro, 193, é um dos endereços preferidos.

Imóvel em favela valoriza até 900%

Categoria: Habitação, Urbanismo

BRUNO PAES MANSO

Em 1980, os moradores do Residencial dos Lagos, à beira da Represa Billings, na zona sul de São Paulo, precisavam mentir o endereço do lugar onde moravam para ter alguma chance de serem contratados nas entrevistas de emprego. O mesmo ocorria com quem residia em Paraisópolis e em Heliópolis, as duas maiores favelas de São Paulo, também na zona sul, e no Jardim São Francisco, na zona leste, cujos barracos de madeira, iluminados por “gatos†que roubavam a luz dos postes, cortados por ruas de terra sem rede de esgoto, eram cenários de um ambiente violento, com taxas elevadas de assassinatos.

As melhorias decorrentes das lutas sociais das décadas passadas, que se transformaram em investimentos em infraestrutura, ajudaram não somente a amenizar o preconceito contra os moradores das favelas como também serviram para valorizar fortemente o preço dos terrenos nas comunidades que receberam investimentos públicos. “Barracos†viraram “imóveis†e os preços dispararam até 900%.

No Residencial dos Lagos, que começou o processo de urbanização em 2008, um apartamento de três quartos, sala e banheiro, que anteriormente era alugado por R$ 200, hoje custa R$ 700. É difícil encontrar aluguel nas favelas por menos de R$ 400 – valor do bolsa-aluguel pago pela Prefeitura para aqueles que são removidos de barracos em área de risco.

Mas o preço para a compra dos imóveis também disparou, chegando a se multiplicar por dez. Casas de quatro a cinco cômodos, que antes da urbanização eram vendidas por R$ 15 mil a R$ 20 mil no Residencial dos Lagos, hoje não são vendidas por menos de R$ 100 mil, podendo chegar a R$ 150 mil. “E mesmo assim é difícil encontrar quem queira vender porque ninguém vai querer sair daquiâ€, diz a líder comunitária Vera Lucia Basália, integrante do comitê gestor do processo de urbanização local.

Sem medo
Em Heliópolis, a valorização segue a tendência de alta. Um imóvel de dois quartos, sala e cozinha, que em 2002 era alugado por R$ 280, atualmente sai por R$ 800. O preço de venda passou de R$ 20 mil para R$ 100 mil.

“As pessoas tinham medo de entrar aqui e o estigma de favelado era muito forte e prejudicial. Hoje, Paraisópolis está inserida na cidadeâ€, diz Paulo Henrique da Silva, que mora no bairro há 28 anos e estuda Contabilidade na FMU do Itaim-Bibi.

Quando ele mudou para lá, Paraisópolis tinha três escolas. Hoje, são 15. “Ontem, na universidade, uma colega me perguntou se eu morava na favela. Se fosse no passado, eu ficaria constrangido. Hoje sinto orgulho e sei que qualquer estranheza é desconhecimento por parte dela.â€