Estado.com.br
Terça-feira, 29 de Maio de 2012
Cidade
Seções
Arquivos
Tamanho do Texto

Médicos estudam menos no Brasil

Categoria: Saúde

TATIANA PIVA

Médicos brasileiros estudam menos para se tornarem especialistas do que profissionais de outros países. A diferença, em média, é de um ano. Mas há casos em que a formação nacional dura quase metade do tempo praticado no exterior, de acordo levantamento feito pelo JT junto às sociedades médicas do País. Para cirurgia cardiovascular, por exemplo, o tempo para virar especialista é de seis anos no Brasil (sendo os dois iniciais de cirurgia geral), mas chega a uma década nos EUA. Outro exemplo que chama a atenção é ginecologia e obstetrícia: aqui, o título sai em quatro anos, mas são necessários sete anos de estudo na Inglaterra.

Para os profissionais ouvidos pela reportagem, inclusive residentes, o pouco tempo para a formação em especialidades médicas no Brasil é preocupante. Isso porque grande parte dos futuros profissionais sai despreparada do curso básico de Medicina, que dura seis anos. Nesta semana, o JT mostrou que 46% dos novos médicos do País foram reprovados pelo exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) – índice que superou a taxa do ano anterior, de 43% (veja abaixo).

Com o objetivo de ampliar a carga horária dos especialistas, a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cervicofacial (ABORL-CCF) lançou uma campanha pela implantação de um ano a mais de residência para os otorrinolaringologistas, que hoje se tornam especialistas em três anos. “Estamos batalhando por essa mudança”, diz o presidente da instituição, José Eduardo Lutaif Dolci. É necessário, afirma, “rever o tempo de residência de tempos em tempos para evitar defasagens.”

Dolci lembra que, até 2002, a situação da categoria era ainda pior: a especialização durava apenas dois anos, metade do tempo em que a formação ocorre na maioria dos países. “Mas, após quase 10 anos, já se faz necessária uma nova revisão”, completa.

Enquanto a mudança não vem, a ABORL-CCF banca do próprio bolso um tempo extra de estudo para os melhores alunos das 16 escolas de residência do País que são parceiras da instituição. A ideia é que os profissionais possam fazer um aprofundamento em alguma das áreas que integram a otorrinolaringologia, considerada um campo amplo – nariz, garganta, laringe e ouvido são algumas das opções.

O projeto da ABORL-CCF escolhe, por meio de uma prova, alguns médicos para fazer o quarto ano. O dinheiro vem da mensalidade dos 4.500 sócios da instituição, de congressos e de eventos promovidos por ela. Há também a parceria com um laboratório. “Gastamos cerca de R$ 400 mil por ano com este projeto.”

O próprio Conselho Nacional de Residência Médica (CNRM), unidade ligada ao MEC que cuida das especializações, reconhece que hoje os critérios para estabelecer o tempo de duração das residências no Brasil não são bem definidos. “Estamos tentando trabalhar na lógica das competências: saber o perfil do médico que a sociedade precisa e, a partir disso, estabelecer este tempo de duração. Mas isso, sabemos, acaba sendo muito subjetivo”, afirma Maria do Patrocínio Tenório Nunes, secretária executiva do CNRM e professora da USP.

O CNRM afirma que leva em conta o “histórico de cada área médica” em outros países para buscar parâmetros de duração para as residências. Mas não soube explicar à reportagem por que, então, a diferença no tempo de formação no Brasil em relação ao exterior persiste. Para Maria, a qualidade do curso pode suprir o pouco tempo. “Os outros países são muito bons em teorias, mas somos melhores na prática”, acredita. Mas os residentes consideram que, em medicina, “aprender só na prática” pode trazer bastante insegurança.

Segundo dados do CNRM, neste ano 14 mil médicos se formarão no Brasil. Parte desses profissionais irá pleitear as bolsas de residência – que custam ao MEC, segundo o CNRM, cerca de R$ 500 milhões por ano. “A boa formação destes profissionais vai representar no futuro uma economia em custos de saúde”, reconhece Maria.

Para Dolci, o fator financeiro ajuda a explicar a brevidade das residências no País. Hoje, o valor mensal pago ao residente é de R$ 2.338,06. “Como grande parte das bolsas dos residentes é paga pelo MEC e muitos médicos se formam por ano, expandir a duração seria um custo muito alto. São mais de 50 especialidades no Brasil”, diz.

2 Comentários Comente também
  • 14/11/2011 - 11:52
    Enviado por: ALUISIO DE OLIVEIRA BRAGA

    O tempo não é importante, a qualidade do ensino e dedicação no aprendizado contam muito mais.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 14/11/2011 - 12:21
    Enviado por: Ademar

    Estudar menos, me faz lembrar
    dos cursos supletivos no ensino
    médio. Da teoria à prática há
    um longo caminho a percorrer.
    Porém,há um velho ditado popu-
    lar que diz que mais vale a
    prática do que a gramática.
    Concordo que na área da medi-
    cina é bem mais complexo,já
    que vai lidar com vidas humanas.

    responder este comentário denunciar abuso

Deixe um comentário: