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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
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Genética ajuda famílias a prever risco de câncer

Categoria: Saúde

MARIANA LENHARO
Quem tem casos de câncer na família acaba se perguntando: “Afinal, o quanto essa doença pode ser herdada dos parentes?” Essa dúvida tem provocado uma corrida dos paulistanos ao serviço de aconselhamento genético oncológico, especialidade que era desconhecida há poucos anos. Em 1998, por exemplo, o Hospital Sírio-Libanês recebia apenas um interessado por mês no serviço: hoje, são 60. Já o A.C. Camargo, que atende inclusive pela rede pública, recebe 250 casos por mês e tinha, no final da década de 1990, uma demanda inexpressiva. No mês passado, a capital ganhou um novo centro, no Hospital São José.

A análise da história familiar, aliada a exames genéticos, permite ao oncogeneticista determinar se um paciente tem risco aumentado de desenvolver alguns tipos de tumor. Esse risco pode ser de 30% a 100%, dependendo da alteração genética. Caso seja detectada uma síndrome genética relacionada ao câncer, adota-se uma série de medidas que reduzem consideravelmente o risco de morte precoce – porque podem prevenir a doença ou, no mínimo, ajudam a diagnosticá-la no início, aumentando a chance de cura.

Existem cerca de 200 síndromes genéticas relacionadas ao câncer já identificadas, segundo o oncogeneticista José Cláudio Casali. Para muitas delas há testes genéticos disponíveis, com preços que variam de R$ 1,5 mil a R$ 10 mil. Segundo o médico, o aconselhamento genético é uma especialidade em expansão no País – assim como a incidência de vários tipos de tumores. Ele, sozinho, chega a atender 100 pacientes por mês, se revezando entre o Centro de Genética (CGEN), em São Paulo, e instituições em Curitiba e no Rio de Janeiro.

Maria Isabel Achatz, diretora do Departamento de Oncogenética do A.C.Camargo, afirma que as ocorrências genéticas mais comuns no Brasil são a síndrome hereditária de câncer de mama e ovário, além da síndrome de Li-Fraumeni (relacionada a mais de 25 tipos de tumor) e a síndrome de Lynch (relacionada a câncer colorretal e de intestino). Essas síndromes caracterizam-se por uma falha no DNA que deixa o portador mais vulnerável às doenças malignas.

De modo geral, entre 5% e 10% de todos os casos de câncer têm origem genética. Quem tem a síndrome ligada aos tumores de mama e ovário, por exemplo, apresenta uma falha no gene BRCA, que funciona como um mecanismo de reparo de células alteradas. Por isso, nesse caso, o risco para câncer de mama ao longo da vida é de 85% – e para câncer de ovário, de 40%.

Daí a recomendação para que esse grupo de mulheres passe a receber um acompanhamento médico intenso, com exames de imagem de seis em seis meses a partir dos 20 anos. Em alguns casos específicos, são recomendadas até cirurgias preventivas de retirada dos ovários e das mamas. Mas cada caso é discutido individualmente e a decisão final sobre a estratégia de prevenção fica sempre com o paciente.

Podem se beneficiar da especialidade não só as pessoas com histórico familiar característico, mas também as que foram diagnosticadas jovens, antes dos 40 anos, ou que tenham um tipo raro de neoplasia. Nesses casos, exames específicos podem apontar para os riscos de surgirem novos tumores e também proteger outros membros da família com a detecção de mutações.

“Famílias com várias pessoas que já tiveram câncer são muito sofridas. Com o serviço, damos uma ideia mais concreta sobre os riscos, o que ajuda na tomada de decisões”, explica a oncologista Simone Noronha, que coordena a área de aconselhamento genético no Hospital São José. Desde o início do ano, quando foi implantado, o centro já atendeu quatro pacientes. Ainda em São Paulo, também o Hospital Albert Einstein trabalha com a técnica.

O aconselhamento genético ajudou Ilda Moura Campos, de 65 anos, a entender por que 16 pessoas de sua família sofreram com o câncer. Ela mesma foi vítima de três melanomas e um tumor na mama antes descobrir que a tendência vinha de uma mutação genética. Hoje, suas irmãs, sobrinhos e filhas fazem exames anuais no A.C. Camargo. “É difícil ver as pessoas próximas com câncer. Por isso acho importante o acompanhamento, porque é possível tirá-lo no comecinho.”

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