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Sábado, 26 de Julho de 2014
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Funk clandestino põe crianças em risco

Categoria: Geral

Meninas dançam funk: algumas dizem ter 11 anos (Foto: Filipe Araujo/AE)

 Marici Capitelli

Crianças e adolescentes do Jardim Record, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, têm um encontro marcado com as drogas, o álcool e o funk: nas noites de domingo é promovido um pancadão clandestino ao ar livre entre as ruas Méier e Antonio da Silva Pina, local conhecido como “a curva”. Além de beber, a garotada usa maconha, cocaína e lança-perfume. O Conselho Tutelar da cidade denuncia ainda a ocorrência de prostituição infantil. Há indícios de que o evento seja supervisionado de perto por integrantes do crime organizado. Os moradores dizem que, se reclamam, são ameaçados .

Durante três semanas alternadas, a reportagem do Jornal da Tarde esteve no local, como frequentadores da festa funk. Foi possível constatar até cerca de 600 participantes na balada. A grande maioria, menor de idade. No domingo passado, a festa começou às 21h15 e foi até 0h25. A música que move o pancadão sai de carros equipados com aparelhos de som potentes. Os veículos são estacionados na rua e competem pelo volume mais alto. Na última festa, prevaleceram letras que incentivavam o estupro e o sexo sem camisinha.

O início da seleção musical é a senha para que a garotada comece a chegar. Dois bares construídos em garagens e sem alvará da prefeitura vendem bebida alcoólica. No meio da festa, um menino que dança funk diz ter 11 anos. Próximo a ele, uma adolescente grávida, com parte da barriga de fora, arrisca uns passos.Ela não é a única nessa situação. “Gosto de vir aqui porque é diversão pura”, afirma uma menina, que garante ter 14 anos, vestida com um top pequeno, jeans bem justo e muita maquiagem. Apesar da noite fria, as jovens usam roupas curtas. Cabe a elas fazer as danças sensuais. Algumas chegam a descer ao chão enquanto fazem gestos eróticos.

“As meninas vão prontas para a prostituição, que acontece lá mesmo”, afirma a conselheira tutelar Tatiane Cristina dos Santos Lima. Segundo ela, apesar das ações em conjunto com a Polícia Militar e a Guarda Civil Municipal, não é possível impedir a festa. “Nós não damos conta. Interrompemos uma semana, mas volta na seguinte.” Ela afirma encontrar no pancadão crianças e adolescentes de outras cidades da região, como Itapecerica da Serra e Embu, e de bairros da capital vizinhos de Taboão, como Pinheiros e Campo Limpo.

Achando que falava com turistas, um vendedor de bebidas contou à reportagem que não acontecem confusões ou brigas na festa. Um “irmão”, termo usado para identificar integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), é o responsável por manter a ordem e controlar a droga no pancadão. O vendedor aponta para o “irmão”, um jovem que fica circulando na festa. “Se tem um começo de confusão, ele é o primeiro a chegar e resolver.” Em panfletos divulgando o evento, o nome do ex-candidato a deputado federal Ney Santos aparece como um dos apoiadores. A polícia afirma que ele tem ligações com o PCC. Ney Santos está foragido.

Vizinhos se dizem desesperados com o barulho e a bagunça na porta de suas casas. Um morador diz que a comunidade já fez várias denúncias aos órgãos públicos, mas nenhuma medida efetiva foi tomada. “Somos jogados da prefeitura para a Polícia Militar sem que ninguém resolva.” Ele diz que os vizinhos chegaram a organizar um abaixo-assinado. “Mas recebemos o aviso de que quem tentasse acabar com o funk seria morto ou teria que se mudar às pressas. Paramos com o movimento.” Para outro vizinho, a comunidade está nas mãos dos organizadores do baile funk. “Estamos sem saída e desesperados.”

Colaborou Tiago Dantas