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Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014
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Federais: mais vagas, menos infraestrutura

Categoria: Educação

Lançado pelo governo federal em 2007 com a missão de reestruturar universidades e ampliar o acesso dos brasileiros ao ensino público superior, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) cumpriu apenas parte das promessas.

O número de vagas oferecidas anualmente aumentou 63%, passando de 148.796, em 2006, para 242.893, em 2010 – dado mais recente do Ministério da Educação (MEC). Os investimentos em infraestrutura, porém, não chegaram juntos com os alunos. As primeiras turmas dessa expansão estão deixando as universidades depois de atravessarem o curso com bibliotecas desabastecidas, sem aulas em laboratórios, com salas superlotadas e professores assoberbados.

O MEC admite problemas, mas alega que eles ocorrem por causa do pioneirismo do Reuni, que a pasta considera “um dos programas de maior sucesso da história da educação do País”. Os problemas se multiplicam pelo País. São aulas em contêineres, em porões, laboratórios improvisados em banheiros, falta de restaurantes universitários.

A estudante de Terapia Ocupacional Larissa Reis, de 19 anos, está no 3º semestre e tem aulas em laboratório a cada 15 dias. “É muita gente e o professor divide a turma em duas. Dá a mesma aula duas vezes”, diz. Larissa é estudante do câmpus de Ceilândia da Universidade de Brasília (UnB), que funciona provisoriamente em 13 salas de uma escola de Ensino Médio. O barulho dos adolescentes atrapalha as aulas. “Não é o que eu esperava. É tudo muito precário.”

O câmpus de Ceilândia é focado em cursos de saúde. “Tinha um mini laboratório com três microscópios. Três estudantes usavam os instrumentos e instalaram um telão do lado de fora: uns viam os que outros estavam fazendo, mas não tinham a prática”, conta Lucas Brito, de 21 anos, de Serviço Social.

Dossiê
Professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro elaboraram um dossiê com fotografias e o encaminharam ao Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes). As imagens mostram prédios recém-construídos com rachaduras, órgãos de animais cobertos por larvas por causa da falta de formol, e a fachada do câmpus deteriorada – a reitoria afirma que as obras nos prédios antigos estão para ser licitadas.

Professor de anatomia animal da Rural, Luciano Alonso diz que os alunos são obrigados a lidar com peças de animais apodrecidas, por falta de material para conservação. “Técnicos, alunos e professores se expõem a pegar infecção. O material para manutenção não chega, porque o sistema de compras é falho. A solução usada no preparo das peças perde o poder de conservação. As peças exalam mau cheiro, têm larvas de mosca”, diz.

A falta de estrutura levou alunos do curso de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro a decretarem greve em abril, no câmpus de Macaé, norte fluminense. “Até a metade do primeiro período, só tínhamos um professor. Todo período começa com atraso porque a universidade não contratou professores”, lembra Larissa Costa, do 6ºperíodo. Até agora, os estudantes não tiveram aula em laboratório de anatomia com cadáveres nem em hospital de referência. A reitoria informou que o laboratório ficará pronto em três meses.

O Andes está preparando um relatório sobre as dificuldades enfrentadas em universidades federais após o Reuni. O documento contém relatos de professores e também fotografias, como a de um laboratório improvisado dentro de um banheiro, na Universidade Federal do Pampa, no Rio Grande do Sul.

CLARISSA THOMÉ