Família protesta contra o Metrô
- 26 de abril de 2012 |
- 0h03 |
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Categoria: Urbanismo
CAIO DO VALLE
“Metrô: tira minha vida, mas deixa minha casa em pé!” A frase, escrita no asfalto em frente a um sobrado na Avenida Vereador José Diniz, próximo à Avenida Jornalista Roberto Marinho, no Campo Belo, zona sul, sintetiza o desespero de uma família. O imóvel, ocupado há 40 anos pelas mesmas pessoas, corre o risco de ser demolido nos próximos meses para a construção do monotrilho da Linha 17-Ouro, que ligará o Jabaquara ao Morumbi.
As inscrições na rua, em letras coloridas e com símbolos como corações, são uma forma de protesto dos moradores contra a Companhia do Metropolitano. Entre as frases grafadas, está “Justiça é indenização justa e prévia”. Isso porque o aviso da desapropriação chegou em março, poucos dias depois do fim de uma reforma que custou R$ 100 mil e incluiu o reforço da estrutura, a troca de janelas e portas e a pintura de todas as paredes.
“De original, só sobrou o vitrô da sala, dois tanques e o lavabo”, conta o matemático Thiago Rodrigo Alves Carneiro, de 32 anos, que vive no local desde que nasceu. Ele contesta a necessidade da desapropriação, alegando que a estação a ser construída ali, a Vereador José Diniz, ficará a apenas cerca de 400 metros de outra, a Água Espraiada. “Haverá uma sobreposição da oferta. A demanda da estação será a terceira menor da linha, que já terá uma oferta relativamente pequena. Para que fazer uma estação assim, que desapropriará tanto no entorno?”
Ele conta que quando foi anunciada a construção da Linha 5-Lilás, foi até o Metrô para se certificar que o imóvel não seria atingido. “Só aí iniciei a reforma”, diz. A surpresa veio quando soube que sua casa estava na rota do monotrilho.
O morador agora está preocupado com a possibilidade de o Metrô pagar menos do que vale a casa recém-reformada e com o impacto da desapropriação na saúde de sua mãe. Isso porque a pensionista Maria Lúcia Craveiro Alves Carneiro, de 67 anos, é muito apegada à residência. “É a casa da minha vida. Só pretendo sair daqui para ir ao mausoléu”, afirma ela, bastante comovida.
Na contestação judicial, os advogados da família informam que dona Lúcia está em “significativo estágio de depressão pela possível perda da amada casa, perdendo completamente o apetite, as noites de sono, o bom humor e a vontade de viver”. Vítima de câncer no braço e nas costas, ela passou recentemente por duas cirurgias e diversas sessões de radioterapia. Por ser católica fervorosa, a cada ida ao hospital, beijava, abraçava e abençoava as paredes da casa. O filho também afirma estar sofrendo problemas psicológicos, já que sua história se confunde com a da residência.
Aulas
De acordo com Carneiro, a oferta inicial do Metrô pelo imóvel foi de R$ 375 mil. “Aí, nos deram um prazo de 15 dias para a gente contestar. Depois, o perito do juiz avaliou em R$ 687 mil, mas o imóvel vale mais de R$ 800 mil”, diz.
Além de residir na casa com a mãe e um irmão mais velho, Carneiro desenvolve ali sua principal atividade profissional, que é dar aulas particulares de matemática. Na edícula nos fundos, montou uma sala com computadores e cadeiras estofadas, para receber os alunos. O imóvel foi comprado com o dinheiro da avó do pai dele, morto há 12 anos. “Foi uma guerreira, uma portuguesa que soube batalhar”, diz dona Lúcia.
O Metrô afirma que as notificações foram entregues na região em julho, logo após a publicação do decreto. E que, sempre que necessário, a equipe de atendimento à comunidade presta o devido apoio à família desapropriada, explicando o processo, etapas e prazos etc. ::
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