Crônica: Beber o morto não é algo que se faz sempre
- 29 de outubro de 2012 |
- 20h28 |
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Categoria: Comportamento, Cultura, Protesto, Saúde
JÚLIO CÉSAR BARROS*
O menino da cidade grande ainda era pequeno quando presenciou o primeiro velório na roça. Beber o morto, assim chamam. O morto era desconhecido. Entretanto, o ensinamento acerca do inevitável destino de todo ser vivente foi único para o garoto. Muito estranha foi a caminhada de um sítio a outro. Pela estrada escura a família passou ao largo de pastos, riachos e um cemitério. Raras eram as lâmpadas das casas fincadas nos vales ou agarradas às encostas. As luzes cintilavam misturadas às estrelas. Para o menino, os pontos brilhantes faziam parte do mesmo céu rajado por nuvens velozes. O vento não cessou sequer por um instante. Um mugido acolá, outro relincho adiante e os cricris dos grilos quebravam a sinfonia monótona do sopro da ventania ao pé do ouvido.
“Cuidado com o buraco!”, alerta o tio ao perceber o menino a olhar fixamente o desenho da via láctea. Está escuro, sem lua. Noite sem luar é reinada pelas estrelas.
O grupo silencioso e atento seguia pelo terreno acidentado do caminho de terra. “Morrer é para todos. Ninguém escapa”, sussurra a tia numa breve manifestação. A mulher falava como se estivessem em um templo religioso. O menino da cidade grande já havia entendido. Tinha medo da escuridão. “Morrer é assim”, pensou.
A multidão aglomerada indicava o local do velório. Bicicletas e cavalos todos emparelhados. A casa modesta às margens do caminho é iluminada de dentro para fora. A luz amarela opaca dos candeeiros a querosene reproduzem sombras fantasmagóricas nas paredes encardidas da sala. Uma dezena de pessoas está em pé e uma dúzia, sentada. Há quem observe o corpo inerte. Ele jaz num caixão de cor clara, talvez de cerejeira.
A urna funerária, apoiada por cavaletes improvisados, permanece no centro do cômodo. A sala da morada, de chão pisado, tem cadeiras e uma mesa quadrada, no canto esquerdo. Sobre ela há uma lamparina feita de lata de óleo de soja cuja chama se esforça para não ser extinta. Ao lado da lanterna caseira há um prato raso de vidro com um punhado de moscas mortas ou agonizantes. O granulado vermelho letal é disputado por insetos alvoroçados. As moscas se lambuzam na fila do destino inevitável.
Para se beber um morto são necessários muitos litros de cachaça e de café, bolo, reza e música. Não falta nada. Risadas às tampas. Mais orações do lado de dentro. Cantigas religiosas que apenas os mais antigos sabem entoar. Pessoas não param de chegar. A pé, de bicicleta, a cavalo, no lombo de jumento… Os presentes, no interior da casa, lamentam o falecimento. Os amigos, lá fora, festejam a vida. Relembram as aventuras. Encaram a morte morrida. Exaltam a memória do cabra.
Murmúrios, soluços, choro baixo e a ladainha entoada por anciãs se misturam às risadas que vêm de fora. Parceiros de longa data de J., 46 anos, relembram suas inesquecíveis histórias, suas manias, conquistas e valentia. Não deixa filhos. Não há viúva. Não tem herdeiros. A causa da morte ninguém sabe ao certo — há quem diga ter sido pelo puro desprezo.
Frio, o corpo inanimado de J. não se lembra mais de nada, nem escreve uma letra ou diz uma palavra. Sua curta trajetória está findada. As letras já não podem mais ultrapassar o ponto final. Ficam ali presas a um passado quase distante, escrito por suor e sangue de anos de poucas alegrias e muitas tristezas. Seu maior orgulho era nunca ter falhado, pois trabalhou todos os dias sem ter sequer um feriado. Mas seus olhos estão fechados. Sua boca cerrada. Logo a tampa foi fechada. Foi sepultado.
Quando voltou a São Paulo o menino da cidade entendeu tudo. Foi só aí que ele compreendeu que a morte não é o fim, pois ela marca tão somente o início de um mistério que os vivos ainda não têm permissão de desvendar.
*Texto publicado na edição de 28 de outubro de 2012
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Albinos ganham serviço especial
- 28 de outubro de 2012 |
- 3h20 |
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Categoria: Saúde, Saúde Pública
MARIANA LENHARO
Ser albino não significa apenas ter pele e olhos bem mais claros que o resto da população. A falta de melanina torna mais comum a ocorrência de problemas de saúde na pele e nos olhos. A condição, que afeta em média 1 entre cada 17 mil habitantes na Europa (no Brasil não há uma estimativa), demanda cuidados médicos especiais.
Foi com o objetivo de conhecer melhor as especificidades dos albinos no Brasil que médicos da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo criaram um serviço de atendimento para essa população. Trata-se de um projeto piloto que, se tiver bons resultados, poderá ser levado a todos os serviços conveniados à Sociedade Brasileira de Dermatologia, segundo o dermatologista Marcus Maia, que está à frente do projeto.
Hoje, o projeto Pró-Albino – como foi batizado – atende 56 albinos na Santa Casa. Eles são avaliados a cada três meses por Maia e pelo oftalmologista Roberto Yuiti Sano. Os especialistas cuidam para que problemas como câncer de pele, envelhecimento precoce e perda da visão não se estabeleçam.
Entre os pacientes, há crianças e idosos. Na infância, é comum que os albinos tenham dificuldades na escola por problemas de visão. No caso de Isabel Correia Lanzeloti, de 4 anos, os cuidados começaram já nos primeiros meses de vida. “Ela recebe acompanhamento oftálmico desde que tinha 4 meses”, diz a mãe da menina, Renata Lanzeloti, de 31 anos. O desafio dos médicos é fazer com que todos sejam tratados precocemente.
Com apoio, jovens buscam bariátrica
- 20 de outubro de 2012 |
- 23h00 |
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Categoria: Saúde
CLARISSA THOMÉ, RIO
As consultas com endocrinologista e nutricionista começaram cedo para Juliana Guimarães Rocha. Já aos 4 anos, ela era uma criança fora dos padrões. E a situação se agravou. Na adolescência, repetiu o 1.º ano do Ensino Médio por não ir às aulas. Evitava sair de casa: tinha a impressão de que todos a olhavam. Na escola, era vítima de perseguição dos colegas. Passou, então, a se isolar. Ela tinha 16 anos e pesava 136 quilos “e meio”, como faz questão de ressaltar.
Foi nessa época que começou a frequentar as reuniões do grupo de obesidade de uma clínica de cirurgia bariátrica. Ficou encantada com as fotografias de “antes e depois” dos pacientes e chamou o pai, também obeso, para os encontros.
“O médico não queria me operar. Disse que meu pai faria a cirurgia primeiro porque queria que eu visse tudo o que podia me acontecer. Mas eu estava decidida”, conta Juliana, que estava sob acompanhamento psicológico havia um ano.
Juliana foi operada seis meses depois da primeira consulta, com autorização especial do Conselho Regional de Medicina (CRM), recomendação da psicóloga, e termo de responsabilidade assinado pelos pais. Emagreceu 50 quilos. “Passei a ter vida”, resume ela que hoje tem 21 anos e estuda Hotelaria.
Para ser operado na rede particular, um adolescente já não precisa de autorização especial – o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou a questão em 2010. O Ministério da Saúde abriu em setembro consulta pública para mudar a portaria que trata da cirurgia bariátrica nos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) – entre as modificações está a redução da idade mínima para 16 anos. As novas regras devem entrar em vigor no ano que vem.
O ministério se baseou nos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar de 2009, que apontou que 27,6% das pessoas de 10 a 19 anos apresentavam excesso de peso ou obesidade. Em 1975, 3,7% estavam acima do peso e não havia registro de obesidade nessa faixa.
Apesar de regulamentada, a cirurgia bariátrica em adolescentes é a última opção. “É preciso ser mais rigoroso e observar se o paciente está na idade fisiológica certa. A cirurgia diminui a nutrição e a absorção do cálcio, o que pode atrapalhar o desenvolvimento”, diz o cirurgião Cid Pitombo, coordenador do programa de cirurgia bariátrica do Hospital Estadual Carlos Chagas. O serviço é tido como modelo na rede pública pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.
Imaturidade – Outro ponto que faz os médicos adiarem a cirurgia é a imaturidade – o pós-operatório e os anos seguintes exigem comprometimento. “O adolescente é pior de tratar porque já está vivendo uma crise pessoal, a do amadurecimento. Já vi acontecer um comportamento compensatório – a pessoa quer viver tudo o que nunca viveu”, diz o cirurgião Fábio Viegas. “Tive uma paciente que passou a fazer sexo com vários parceiros, inclusive namorados de amigas, e contraiu HIV.”
Apesar de fazer acompanhamento psicológico, o eletrotécnico Luiz Alberto Kron, de 18 anos, chegou a pensar em abandonar os cuidados pós-operatórios. Na primeira consulta, tinha 17 anos e 136 quilos. Fez a cirurgia aos 18 e perdeu 60 quilos. “Achei que nunca fosse me acostumar a comer pouquinho. Meu pai, que operou antes de mim, segurou a minha onda.”
O apoio da família também foi fundamental para Juliana. “Quando eu pude começar a fazer caminhadas, minha avó me acompanhava. Meu pai também pagou personal trainer por dois anos”, conta a jovem, que ficou feliz quando o atual namorado não acreditou que ela tivesse sido obesa.
Médicos defendem o envolvimento da família no processo. “Às vezes, a família se ressente. O adolescente que cuidava do irmão menor, que estava sempre disponível, passa a ter vida própria. Pode acontecer uma vigilância desagregadora: ‘Vai comer isso?’, ‘Você vai beber?’. E o adolescente percebe como cobrança”, diz Viegas.
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Queijo ralado é campeão de sódio
- 15 de outubro de 2012 |
- 21h49 |
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Categoria: gastronomia, Saúde, Saúde Pública
LÍGIA FORMENTI
Brasília
Pesquisa feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) identificou alto teor de sódio em alimentos vendidos no País. O trabalho foi feito com base na análise de 26 tipos de produtos, como bolachas e frios. Dos grupos analisados, apenas cinco apresentaram níveis do ingrediente considerados adequados.
O produto campeão em teor de sódio, de acordo com a pesquisa da Anvisa, é o queijo parmesão ralado: uma média de 1.981 miligramas por 100 gramas. Em seguida está o macarrão instantâneo, com 1.798 miligramas por 100 gramas do produto. “O que nos preocupa é que boa parte dos alimentos com alto nível de sal é muito consumido por crianças”, diz a gerente-geral de alimentos da Anvisa, Denise de Oliveira Resende.
O excesso de sódio na dieta é considerado fator de risco de problemas como hipertensão e diabete. Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o nutriente seja usado com parcimônia: no máximo 2 gramas diários de sódio, o equivalente a 5 gramas de sal. Para se ter uma ideia, 100 gramas de parmesão conteria a quantidade. O brasileiro consome 12 gramas de sal por dia, mais do que o dobro do recomendado pela OMS.
O macarrão, assim como bolachas e salgados de milho, integram o programa de redução de sódio de produtos processados no País, feito pelo Ministério da Saúde e Associação Brasileira de Indústrias de Alimentação. O acordo, anunciado em 2011, prevê a retirada gradual do sódio de alimentos. Já foram anunciadas reduções para 13 classes de alimentos. A meta é retirar até 20 mil toneladas de sódio até 2020.
A redução programada, porém, é considerada tímida por nutricionistas e entidades ligadas ao direito do consumidor. “Mesmo com a mudança, produtos vão continuar com alto teor de sódio. Em outras palavras: o brasileiro continuará consumindo muito mais do que o recomendado”, diz o gerente do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Carlos Tadeu de Oliveira. Ele cita o macarrão: “A meta é 1.920 miligramas de sódio. Quase a necessidade de um adulto para o dia todo”.
Denise afirma que uma redução drástica traria problemas para empresas e afastaria o consumidor. “As pessoas poderiam estranhar o sabor. Além disso, há um problema técnico: o sódio é importante para conservar os alimentos.” Pelo cronograma, a partir de 2013 alguns produtos já devem ser comercializados com menos sódio em sua composição. “Pelas análises que fizemos, alguns produtos já apresentam uma média menor do que a foi acordada, como a maionese”, afirma Denise. A meta é que o produto tenha, no máximo, 1.283 mg/100g. A média encontrada pela Anvisa está em 1.096.
A gerente diz que o controle sobre o cumprimento do acordo começará a ser feito a partir de 2013. “Se números revelarem que a adesão está baixa, não está descartada a possibilidade de criar metas obrigatórias.” Denise destaca que várias amostras de um mesmo produto apresentam teores diferentes de sódio, como o queijo parmesão: a diferença entre produtos chega a ser de 13,7 vezes. “Daí a importância de a população chegar nos rótulos a composição.” Denise afirmou que foram encontrados produtos com teores de sódio distintos da embalagem. As empresas, diz, foram autuadas.
Procurada, a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) afirmou não conhecer os dados, o que a impedia de fazer uma avaliação do trabalho.
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Só 40% das mulheres com câncer preservam a mama
- 13 de outubro de 2012 |
- 22h25 |
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Categoria: Saúde
MARIANA LENHARO
O avanço no tratamento do câncer de mama tem permitido a indicação de cirurgias cada vez menos invasivas, que envolvem apenas a retirada de uma pequena porção do seio. Mesmo assim, a taxa de adoção desse tipo de procedimento tem ficado abaixo do esperado. Sob o ponto de vista da importância da manutenção das mamas para a autoestima, esse tema foi destaque no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica, em Viena, na Áustria.
A indicação da cirurgia capaz de conservar grande parte da mama é possível quando o tumor é pequeno ou, nos casos de tumores grandes, a paciente apresenta uma boa resposta ao tratamento neoadjuvante (quimioterapia aplicada antes da cirurgia com o objetivo de diminuir o nódulo).
O que a pesquisadora Carmen Criscitiello, do Instituto Europeu de Oncologia, descobriu é que o número de indicações de cirurgias que preservam as mamas não tem aumentado na mesma proporção em que melhoram as respostas das pacientes às novas terapias neoadjuvantes.
Para chegar a essa conclusão, ela tomou por base um estudo anterior que avaliou a eficácia de três estratégias de quimioterapia neoadjuvante para 429 pacientes com tumor do tipo HER2 positivo. Um grupo recebeu a droga lapatinibe, o outro recebeu o trastuzumabe e um terceiro, a combinação das duas terapias. Deste último grupo, 51,5% das pacientes tiveram uma resposta completa à terapia, enquanto nos outros grupos, essa taxa foi de 24,7% e de 29,5% respectivamente.
O esperado seria que o terceiro grupo, por ter respondido melhor, recebesse mais indicações de cirurgias que preservam as mamas. Porém, o que ocorreu foi que nos três grupos, independentemente da resposta ao tratamento, apenas 40% das pacientes puderam conservar o seio. “O estudo destaca uma atitude negativa que pode privar grande fração de mulheres da chance de preservar sua mama, sem nenhuma razão clínica para justificar essa decisão.”
Carmen acrescenta que as características do tumor anteriores à quimioterapia inicial tiveram papel importante na decisão do tipo de cirurgia. “Um dos objetivos da terapia neoadjuvante é obter um aumento da taxa de conservação de mama, mas esse objetivo é claramente frustrado se o tipo de cirurgia for escolhida somente de acordo com as características iniciais do tumor”, completa.
No Brasil
Segundo a mastologista Maira Caleffi, presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), esse processo também pode ser observado no Brasil. Para ela, apesar de melhores condições para se realizar a cirurgia que preserva a mama, “o que se observa na prática é que muitas pacientes são informadas pelos próprios cirurgiões que talvez seja melhor tirar tudo e retirar ainda a outra mama como profilaxia”.
Maira ressalta que esse procedimento não tem respaldo científico, a não ser que a mulher possua uma mutação genética. “Isso é um desserviço. É um exagero, que não observa as recomendações das autoridades médicas.”
A decisão sobre qual será o procedimento deve ser compartilhada entre médico e paciente, segundo o mastologista Wesley Pereira Andrade, do Hospital A.C. Camargo. Em casos de tumores grandes, pode-se tanto começar o tratamento com a cirurgia mais radical e depois introduzir a quimioterapia quanto adotar a neoadjuvante para tentar conservar a mama.

