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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
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Caneta a laser pode causar cegueira

Categoria: Saúde

ALEXANDRE GONÇALVES
MARIANA LENHARO

Canetas que emitem raios laser podem causar danos graves à visão, inclusive cegueira. Usados por palestrantes para apontar detalhes em projeções, tornaram-se um brinquedo popular no País, oferecidos por sites e lojas de artigos para festas infantis por R$ 60, em média. Estudo de 2010 publicado em uma das principais revistas médicas do mundo, The New England Journal of Medicine (NEJM), descreve o caso de um suíço de 15 anos que perdeu parte de sua capacidade visual ao brincar com um desses dispositivos, comprado pela internet.

O feixe que provocou o acidente tinha potência de 150 miliWatts (mW), o suficiente para estourar balões e fazer pequenos furos no tênis da irmã do garoto. No Brasil, sites que vendem canetas desse tipo costumam ressaltar sua potência, geralmente em torno dos 300 mW, quando as margens de segurança para o dispositivo sugerem uma potência máxima de 5 mW. “Na potência adequada ele não será lesivo para os olhos, mas não há controle. Não existe nem uma regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa )”, diz o oftalmologista Virgílio Centurion, do Instituto de Moléstias Oculares.

Centurion explica que o perigo está no fato de o laser ter a capacidade de atravessar a córnea e o cristalino, chegando à retina. “Se ele cair no centro da mácula (ponto junto à retina que concentra as células responsáveis pela visão em cores), o calor produzido provoca uma queimadura com reação inflamatória muito grande. O paciente pode perder a visão central”, explica. Os autores do estudo do NEJM sublinham que “nem donos nem vítimas conseguem diferenciar um laser inocente de um laser perigoso”.

No caso do garoto suíço, os médicos diagnosticaram uma grave hemorragia embaixo da retina esquerda e várias cicatrizes no olho direito. A visão piorou tanto que ele não conseguia contar os dedos de uma mão a uma distância maior que um metro. Quatro meses após o acidente, a visão do garoto ainda apresentava sérias limitações, apesar do tratamento.

O acidente ocorreu quando o menino estava brincando com a caneta diante de um espelho, para criar um ‘show de laser’. Os feixes alcançaram seus olhos várias vezes. Ele notou que a visão ficou embaçada naquela mesma hora, mas teve medo de contar a seus pais e demorou duas semanas para procurar ajuda. Por aqui, canetas desse tipo são populares em estádios de futebol, aeroportos e festinhas de crianças.

Futebol e aviões
Em aeroportos, os feixes são direcionados para a cabine dos pilotos. Segundo o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o número de incidentes com esse tipo de objeto notificados neste ano chegou a 106. Em 2010 foram 60. “Notamos claro aumento nos últimos anos e uma popularização desses instrumentos”, diz o major aviador Márcio Vieira de Mattos, do Cenipa. “Você perde a visão durante alguns instantes”, explica o comandante Carlos Camacho, do Sindicato Nacional dos Aeronautas. “E justamente no momento mais crítico: o pouso.”

A legislação brasileira prevê pena de até cinco anos de prisão para quem atentar contra a segurança aérea. Em caso de acidente, a punição pode chegar a 12 anos de cadeia. Nos estádios, as canetas a laser também são usadas para confundir goleiros e juízes. No ano passado, na final da Taça Libertadores da América, no Morumbi, um torcedor usou o laser para atrapalhar o goleiro do Internacional (RS).

Em 5 de junho, na final da Copa do Brasil, em Curitiba (PR), as câmeras de televisão flagraram um torcedor do Coritiba que tentava atrapalhar o Vasco. Policiais levaram o autor dos feixes de laser para o tribunal do torcedor organizado no estádio. Foi da promotora Cristina Ruaro a ideia da punição: 16 horas de serviços comunitários durante jogos importantes de seu time. “Foi um ato de violência. Usam a caneta para atiçar torcedores do time adversário”, avalia Cristina.

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