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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2014
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Câncer de mama tem três remédios a caminho

Categoria: Saúde

MARIANA LENHARO

Brasileiras com câncer de mama podem ganhar pelo menos três novos medicamentos contra a doença, o tipo mais comum de neoplasia feminina em São Paulo. Os remédios, entre eles um produto que evita a perda dos cabelos durante o tratamento quimioterápico, devem ser avaliados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda neste ano.

Uma das drogas já foi submetida ao órgão regulatório nacional, as demais passarão pelo procedimento nos próximos meses. A partir da entrega dos documentos pela farmacêutica, a Anvisa tem até 90 dias para analisar os medicamentos. Os três seguem a mais nova tendência em tratamentos de câncer: a personalização. Isso porque têm como alvo características específicas de determinados subtipos do tumor.

O oncologista Sérgio Simon, do Hospital Israelita Albert Einstein, diz que essa tendência aplica-se a quase todos os tipos de câncer. Mas, no caso das mamas, a classificação é uma das mais avançadas: há cinco subtipos da doença já identificados. “Antigamente, achava-se que o câncer de mama era uma doença única. Hoje, sabemos que são doenças diferentes, com tratamento sob medida. Penetramos na profundidade da biologia molecular de cada tumor para entender o que aquela célula tem de errado.”

Duas dessas novidades destinam-se ao tumor do tipo HER2 positivo, no qual as células têm uma quantidade anormal da proteína HER2, levando à multiplicação desordenada de células e tornando o tumor mais agressivo. Já existe no mercado um anticorpo (trastuzumabe) que combate essa proteína. Mas, agora, pesquisadores descobriram um anticorpo (pertuzumabe) capaz de se fixar em um ponto diferente da molécula de HER2, potencializando o bloqueio à proteína, de modo a mater a doença sob controle por mais tempo.

Esta droga, que deverá ser administrada junto com o trastuzumabe e com a quimioterapia, deve ser submetida à aprovação da Anvisa ainda neste semestre. Segundo o estudo publicado no mês passado pelo periódico científico The New England Journal of Medicine (NEJM), ela é capaz de aumentar em seis meses, em média, o tempo sem progressão da doença.

Já a outra opção voltada a esse subtipo de tumor é a droga T-DM1. Com previsão de ser apresentada à Anvisa também neste ano, mas no segundo semestre, ela deve diminuir drasticamente os efeitos colaterais associados à quimioterapia, em especial a queda de cabelo. A notícia é um alívio para quem, depois de enfrentar a doença, ainda tem de resgatar a autoestima.

“Além do diagnóstico, você ainda tem de encarar que vai ficar feia”, diz a empresária Maria Claudia Zapaterra Campos, de 52 anos, que se recupera de seu terceiro câncer de mama. Ela aprendeu a conviver com o problema confeccionando lenços coloridos, uma ideia inspiradora, que virou até negócio.

A terceira opção de tratamento prestes a chegar às brasileiras é voltada para o subtipo mais comum da doença, chamado tumor com receptor hormonal positivo (cerca de 70% do total). A droga everolimus, atualmente aprovada para o tratamento de câncer de células renais, mostrou-se eficaz em pacientes na pós-menopausa com câncer de mama avançado ou com metástase.

A droga atua com conjunto em o tratamento hormonal já previsto para esses pacientes. Sua ação visa a inibir o fator mTOR, que é uma via hiperativada nesses pacientes, associada ao crescimento celular desregulado. Resultados dos estudos, também publicados no NEJM, mostram um aumento de quatro meses na sobrevida sem piora da doença.

De acordo com o presidente do Conselho Científico da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), Ricardo Caponero, os dados clínicos sobre esses medicamentos são sólidos. “Uma vez aprovados, os convênios tem que de incluí-los. Só não se sabe quando estarão disponíveis no SUS.”