1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Repórter Zé na Copa, arrasado, mas sereno, com a humilhação no Mineirão:

José Paulo Kupfer

quarta-feira 09/07/14

Não vou ficar aqui falando de um time que começou sem jogada de ataque, com uma defesa porosa e sem ligação no meio de campo. Não vou falar do time que se superou ao longo da Copa e que, mesmo que soubéssemos ser a vitória um sonho, nos permitiu sonhar. Também não vou falar das [...]

Não vou ficar aqui falando de um time que começou sem jogada de ataque, com uma defesa porosa e sem ligação no meio de campo. Não vou falar do time que se superou ao longo da Copa e que, mesmo que soubéssemos ser a vitória um sonho, nos permitiu sonhar.

Também não vou falar das qualidades da Seleção da Alemanha — seu jogode conjunto, seus craques em profusão, no jogo coerente e eficiente. Eu mesmo registrei esse impressão mais de um vez no decorrer dos jogos.

Não vou falar do esquema que Felipão armou para tentar vencer os alemães. Ele ousou com Bernard e ousou errado, como alguns puderam prever. Se o técnico acertou na maneira de furar o bloqueio alemão, errou na escolha dos jogadores para isso e falhou pior em subestimar o contra-ataque alemão, deixando espaço no meio do campo para a evolução deles.

Também não vou falar da CBF corrupta e anacrônica. Ou do futebol brasileiro jogado no Brasil, de baixo nível técnico, com cartolas tão corruptos ou anacrônicos quanto a entidade do futebol e as federações que a formam. Nem dos técnicos brasileiros, boleiros de quinta categoria, em geral empresários disfarçados de técnicos, por isso mesmo tão corruptos quanto os dirigentes.

Entre tantas inovações mostradas na Copa, destaco a evolução dos goleiros, comprovação de que há trabalho planejado e estruturado, dentro e fora das quatro linhas. O Brasil, celeiro de craques, onde o futebol é parte da alma nacional, não tem nada disso.

Não vou muito menos falar da campanha de brasileiros contra eles mesmos, talvez por rancor político ou ódio ideológico, mas certamente por ignorância, deseducação e caráter duvidoso — que já está começando a dar de novo as caras, nem bem a tristeza da derrota humilhante no campo de jogo foi definida.

Tudo isso é verdade, pode explicar a derrota e o tropeço antes da conquista final. Mas nada disso explica os 7 a 1. Os deuses do futebol, muitas vezes do nosso lado, resolveram, neste 8 de julho de 2014, nos castigar. Devemos, aos poucos e com o tempo, decifrar a mensagem.

Sem omitir ou varrer para debaixo do tapete a derrota histórica, a maior já sofrida por uma seleção brasileira, em pleno Século XXI, debaixo do galardão de maior vencedor de Copas do Mundo, quero lembrar — e guardar na memória — o milagre brasileiro da Copa das Copas. E tudo de maravilhoso que veio junto com ela.

O Repórter Zé na Copa tem sido uma viagem mais do que prazerosa no tempo e na memória. Uma viagem ao tempo de um jovem jornalista de esportes e, antes disso, ao tempo de um garoto apaixonado por futebol, que vibrou com as conquistas da Seleção desde 1958 e sofreu com suas derrotas. Que aprendeu, no jornalismo, a entender a verdadeira dimensão do esporte, com suas humaníssimas tragédias, dramas e comédias.

Por isso, o Repórter Zé na Copa continua. Pensando nos meninos e meninas que estão agora chorando, alguns ainda sem entender o que aconteceu. Eles precisam saber que, no futebol e na vida, vitórias e derrotas se sucedem, mas que o melhor da vida é viver e que, também no futebol, com as nossas queridas paixões por clubes e pela Seleção, o melhor do futebol é o futebol.

Viva o futebol!