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15 de Abril de 2010

 

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Hipotecas engasgadas nos EUA

10 de fevereiro de 2012 | 18h14

José Paulo Kupfer

O deprimido mercado imobiliário é a grande pedra no sapato dos esforços para recuperar a economia americana. Com a crise, que começou com o estouro de uma endoidecida bolha imobiliária, já foram executadas, apenas nos últimos dois anos, cerca de dois milhões de hipotecas. De 2008 para cá, os preços dos imóveis residenciais, nos Estados Unidos, experimentaram um queda média de 30%.

Como destacou o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, em discurso para empresários da construção civil, nesta sexta-feira, “as condições do setor de moradia são um grande obstáculo a uma recuperação mais acelerada”. Isso explica em parte o interesse do governo em desatar o mais rápidos possível o grande nó das hipotecas impagáveis, que continuam a assombrar os americanos e estão na raiz da lentidão no ritmo da retomada econômica.

Está cada vez mais difícil e demorado executar hipotecas de proprietários inadimplentes. Nos últimos cinco anos, a redução do total de dívidas acumuladas pelas famílias já chega, nos Estados Unidos, a US$ 600 bilhões. O detalhe é que dois terços desse volume é representado por calotes, na imensa maioria referentes a dívidas imobiliárias.

Os inadimplentes aprenderam a driblar as execuções de hipotecas e os bancos estão encontrando cada vez mais dificuldade em tomar as casas de seus devedores. O processo, atualmente, pode levar mais de três anos. Instituições financeiras, diante desse quadro, estão oferecendo “prêmios” em dinheiro a devedores que vendam mais rápido suas casas e se acertem com seus emprestadores.

Ontem, o próprio presidente Barack Obama anunciou um acordo com cinco grandes bancos, que estavam sendo investigados por práticas abusivas no setor de hipotecas. Serão US$ 26 bilhões, entre pagamentos em dinheiro e reestruturação de dívidas, a maior parte com o objetivo de reduzir dívidas e imobiliárias e evitar execuções.

O acordo foi uma forma oferecida aos bancos para que cessassem as investigações e, assim, fossem evitadas multas potenciais mais altas. Outros bancos estão na ponta da agulha para fechar acordos do mesmo tipo.

Curiosidade: as ações do Bank of America, um dos cinco grandes com os quais o governo fechou esse primeiro acordo, subiram nesta sexta-feira.

Segundo Obama, este é apenas um acordo inicial, já que as investigações em outras instituições e a busca de novos acordos prosseguirão. Existem, não custa lembrar, mais de US$ 250 bilhões em hipotecas em processo de execução e perto de cinco milhões de hipotecas em situação de risco.

 

 

 

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Além da privatização

8 de fevereiro de 2012 | 18h02

José Paulo Kupfer

Daqui a um tempo – tomara que não muito tempo –, o bate-boca que se instalou no momento seguinte ao encerramento dos leilões de concessão da exploração de Cumbica, Viracopos e Brasília, que deram o início ao processo de privatização de aeroportos brasileiros, será, na sua maior parte, apenas uma lembrança da preferência nacional pelo debate torto, a partir de premissas irrelevantes. E dará lugar a indagações mais pertinentes sobre os muitos aspectos críticos da questão.

Provavelmente, não deverá sobrar muito, por exemplo, dos esforços petistas para diferenciar concessões de longo prazo a entes privados de venda de patrimônio público a particulares – uma irrelevância sem qualquer efeito prático. Também não restará muito do Fla-Flu revivido por tucanos, com direito a um “ganhamos!” da consultora Elena Landau, protagonista das privatizações do governo FHC, deixando aflorar antigas feridas produzidas pela demonização dos processos de transferência, promovida pelos então oposicionistas e hoje governantes.

No fim das contas, se o governo Dilma recuou das acusações contra privatizações, várias vezes disparadas pela própria atual presidente, e, enfim, se convenceu da necessidade de transferir para a iniciativa privada a gestão e parte dos investimentos de áreas críticas da infra-estrutura econômica, tanto melhor. No rol das “metamorfoses ambulantes”, comuns, por sinal, aos governos das mais diversas extrações, a do recurso a privatizações é das mais auspiciosas. A lamentar apenas a demora petista em “descobrir” essa necessidade.

O que parece fora de dúvida, embora ainda não tenha merecido a devida atenção, é que, realizados os leilões de privatização dos três mais movimentados aeroportos brasileiros, muito suor e horas de trabalho terão de ser despendidos antes de se poder dizer que o serviço foi feito, deu certo e as coisas funcionam.

Tanto ou mais importante do que conferir se os vencedores dos leilões serão capazes de cumprir os termos dos editais de concessão, é saber quando o distinto público será brindado pelo governo com um projeto completo e integrado, de abrangência nacional, para a infra-estrutura aeroportuária. Sem ele, toda a argumentação sobre a esperada eficácia – ou seu inverso – do novo modelo de operação aeroportuária ficará sem rede de proteção.

Supondo que tudo funcione como previsto, de que adianta dispor de um aeroporto com capacidade de atender à demanda crescente, com conforto, se no aeroporto de destino, as condições continuarem as que conhecemos? A verdade é que, como em muitos setores, e certamente no caso dos aeroportos, quando se começa a mexer em um, em algum momento no futuro próximo, será inevitável mexer em todos.

O ministro Wagner Bittencourt, titular da Secretaria de Aviação Civil, promete, até fins de março, a definição dos aeroportos, entre os 60 administrados pela Infraero, que o governo deseja manter sob seu controle. Os demais serão concedidos à iniciativa privada, estados ou municípios. É uma providência indispensável.

Um dos argumentos em favor da apostas em que as receitas aumentarão em paralelo com a redução de tarifas, nos aeroportos concedidos, se sustenta na hipótese da ampliação no número de freqüências de vôos. Esse aumento promoveria os ganhos de escala necessários para praticar tarifas mais baixas, sem perdas de eficiência na administração dos aeroportos.

Isso, porém, só será efetivo se houver condições nos aeroportos de destino para mais pousos e, em seguida, mais decolagens. Fica claro também que o efetivo aumento de freqüências não poderá se concretizar, ainda que ao longo do tempo, sem a diversificação de destinos.

Para dispor de uma rede eficiente de aeroportos e, de resto, de uma infra-estrutura econômica capaz de facilitar a decolagem da economia, recorrer a privatizações é certamente um caminho necessário. Mas nem sempre suficiente.

Basta lembrar o histórico do setor de energia para entender o ponto. Sua privatização não foi suficiente para que os próprios defensores das privatizações deixassem de incluir o custo da energia entre os principais elementos do “custo Brasil”. Sem falar nos serviços de baixa qualidade, nos apagões com as menores chuvas, no vexaminoso e perigoso emaranhado de fios e postes, nas explosões de bueiros e o péssimo atendimento aos usuários da rotina das distribuidoras de energia.

Garantir que os investimentos previstos sejam feitos, impedir ações monopolísticas, garantindo a cobrança de preços ou tarifas justas, exigir atendimento decente aos usuários são tarefas além das privatizações. Exigem projetos e planos globais e integrados, acompanhados por agências setoriais tecnicamente aparelhadas, operadas por pessoal especializado e, sobretudo, independentes. O que, definitivamente, ainda está longe de ser a realidade brasileira.

 

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Saída “made in USA”

7 de fevereiro de 2012 | 11h04

José Paulo Kupfer

Sinais interessantes têm chegado da economia americana. Números da criação líquida de postos de trabalho, nos Estados Unidos, registram taxas positivas, mês após mês, sobretudo desde o último trimestre de 2011, sempre acima das expectativas dos analistas. As estatísticas de janeiro, divulgadas na sexta-feira, surpreenderam ainda mais.

Depois de revisado, o total líquido de vagas abertas evoluiu de 157 mil, em novembro, e 203 mil, em dezembro, para 243 mil, em janeiro de 2012. A criação de novos empregos refletiu na taxa de desemprego. Ela vem caindo também mês a mês. Em janeiro, desceu a 8,3%, o menor índice em três anos.

Há consenso de que o quadro do emprego pinta melhor, mas não se pode tomá-lo sem ressalvas. Primeiro, porque o desalento no mercado de trabalho ainda é elevado – muitos desistiram, pelo menos temporariamente, de procurar emprego – e as taxas de desemprego mais suaves se devem, em boa medida, à redução da população ativa. Depois, porque a recuperação é lenta e está longe de compensar as perdas ocorridas depois da eclosão da crise. No ritmo atual, a reposição das estimadas 10 milhões de vagas perdidas levaria perto de sete anos.

Gatos escaldados com a ameaça não concretizada de retomada em fins de 2010, os analistas estão tendendo a refrear o otimismo diante dos indicadores melhores. Mas o fato é que a atividade econômica, principalmente na indústria e em segmentos dos serviços, como turismo e entretenimento, está revelando vigor antes inexistente. O valor médio das horas trabalhadas na indústria, por exemplo, alcançou em janeiro o nível mais alto em seis anos.

São muitos, obviamente, os riscos de que a tendência positiva agora vislumbrada em cores mais nítidas venha a não se confirmar. Um recrudescimento da crise na Europa e estouros descontrolados das bolhas acumuladas na economia chinesa, possibilidades que não podem ser descartadas, com suas previsíveis repercussões negativas nas economias emergentes, tenderiam a quebrar o ritmo da recuperação esboçada nos Estados Unidos.

De todo modo, mesmo com essas sombras no horizonte, pode valer a pena tentar investigar as razões da incipiente, talvez frágil, certamente insuficiente, mas visível retomada econômica americana. A receita da saída “made in USA” da crise é clássica e se apoia em duas pernas. Uma delas é o afrouxamento monetário, usado para sustentar o setor financeiro, mas também para reduzir os custos de produzir e, mais do que tudo, desvalorizar o dólar e, assim, impulsionar exportações. A outra é uma política fiscal se não expansionista, pelo menos também não contracionista.

O déficit do governo, no ano fiscal de 2011, que se encerrou em 30 de setembro do ano passado, subiu ligeiramente em relação a 2010, para US$ 1,3 trilhão, mantendo-se nas vizinhanças de 9% do PIB. É menos do que o pico de 10% do PIB registrado em 2009 – o mais elevado desde 1945 –, mas ainda assim muitíssimo alto e um verdadeiro himalaia diante das pretensões das lideranças da zona do euro de limitar os déficits dos Tesouros nos países membros a 0,5% do PIB.

Cabe, porém, ao esforço exportador a parcela mais expressiva da fórmula americana da retomada. Há exatamente dois anos, no discurso sobre o estado da União, o presidente Barack Obama espantou os analistas com o lançamento do desafio de dobrar o volume das exportações em cinco anos, levando-as, em 2015, a superar US$ 3 trilhões. A maior surpresa dessa história é que está funcionando. No ano passado, as exportações cresceram 16% e superaram US$ 2 trilhões. Mantido o ritmo, a meta será atingida com certa folga.

Ainda que a taxa média de incremento das exportações fique em 8% – metade da verificada em 2011 –, como analistas consideram mais realista, diante da possibilidade de menor crescimento dos emergentes e de contração no mercado internacional, especialmente no segmento das commodities, ocorreria um aumento de 60% no volume exportado pelos Estados Unidos. Isso seria suficiente para suportar mais de 15 milhões de postos de trabalho.

Não é só o dólar desvalorizado que anda operando o “milagre”. A taxa de câmbio mais favorável tem sido turbinada por estímulos à produção – que, por sinal, estão promovendo aumentos de produtividade – e, acima de tudo, por ações agressivas de Washington no comércio exterior. De um lado, o governo não alivia as pressões para a valorização da moeda chinesa e, de outro, não descansa na negociação de acordos comerciais com países e blocos.

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Novos movimentos no câmbio

6 de fevereiro de 2012 | 18h32

José Paulo Kupfer

Sem intervir desde o fim do terceiro trimestre do ano passado, o Banco Central fez, nos últimos dois dias úteis, duas intervenções no mercado cambial. Na sexta-feira, atuou no mercado a termo. Hoje, no mercado à vista.

Os operadores estão convencidos de que o governo estabeleceu um piso informal de R$ 1.70 por dólar. As autoridades sempre negarão de pés juntos. Mas o fato é que as duas intervenções impediram que a taxa de câmbio rompesse o tal piso.

Desde o início do ano, o real já se valorizou 6,5%, em relação ao dólar e está na liderança das moedas mais valorizadas no início de 2012. Vários motivos explicam o movimento, inclusive a onda de captações em moeda estrangeira e o repatriamento de recursos por multinacionais brasileiras.

Mas há também uma continuada injeção de liquidez no mercado financeiro internacional, combinada com esforços de diversos países, inclusive os Estados Unidos, no sentido de desvalorizar suas moedas e ganhar espaços no acirradamente disputado comércio exterior. Esse movimento também pressiona o dólar para baixo, frente o real, no mercado doméstico de divisas.

Essas intervenções do BC, por enquanto, visam mais transmitir aos aplicadores a mensagem de que a porteira do ingresso de dólares pode receber (novas) travas. Ninguém acha ser eficaz – e não haveria mesmo como – segurar cotações com intervenções pontuais.

A moral dessa história é que os espaços para novas reduções dos juros básicos estão se ampliando. Num primeiro momento, isso até pode antecipar entradas, mas os riscos também aumentam.

 

 

 

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Dívidas e devedores: mais detalhes

2 de fevereiro de 2012 | 19h26

José Paulo Kupfer

Leitores, como era de esperar, ficaram surpresos com os níveis atualizados de endividamento dos países de economia madura, segundo o levantamento do McKinsey Global Institute (MGI), mencionados no texto anterior publicado no blog. Alguns chegaram até a duvidar da correção dos dados.

Bem, não há erro. O Japão carrega, de fato, o maior volume de dívidas – públicas e privadas somadas –, em relação ao PIB, nas dez economias pesquisadas (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Espanha, França, Itália, Canadá, Coreia do Sul, Austrália e Japão). O volume da dívida total japonesa é mais de seis vezes superior ao total anual líquido da produção japonesa, em moeda corrente.

O Canadá, que registra o menor volume de dívidas em relação ao PIB do grupo analisado, ainda assim mostra um endividamento total três vezes e meia maior do que seu PIB. Na média dos dez países, as dívidas totais a mais de quatro vezes a produção de um ano.

Não deixa de ser curioso que as dívidas acumuladas nos países mais encalacrados da Europa sejam proporcionalmente menores do que nas grandes economias maduras. Exceto a Irlanda, a campeã dos campeões, com uma dívida total sete vezes e meia superior ao PIB, os demais (Espanha, Itália, Grécia e Portugal), somam dívidas totais, em média, quatro vezes o PIB.

De todo modo, comparado com os maiores emergentes, é um dilúvio de dívidas. O endividamento chinês não chega a três vezes seu PIB e na Índia mal passa de duas vezes. No Brasil, entre endividamento público e privado, o total supera a produção líquida de um ano em “apenas” duas vezes e meia.

O tamanho das dívidas indica o tamanho do desafio que o processo de desalavancagem enfrenta e o alto grau de dificuldade para superar estreitos limites ao crescimento. Indica também o possível longo intervalo de tempo daqui até a superação desses constrangimentos.

E o endividamento total ainda não parou de crescer.

 

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Muito chão pela frente

31 de janeiro de 2012 | 16h39

José Paulo Kupfer

Instituições econômicas globais despejaram, neste primeiro mês do ano, avalanches de prognósticos sombrios sobre a economia mundial. Banco Mundial, OCDE, FMI, no que são acompanhados por uma fieira de respeitáveis institutos internacionais, têm sido unânimes em vaticinar um 2012 de turbulências e recessão, com um longo e espinhoso processo até a recuperação. O clima é reforçado pelas agências de ratings que, uma após outra, não se cansam de rebaixar em série as notas de riscos dos países encalacrados, principalmente na zona do euro.

Aqui e ali, porém, surgem indicações de que nem tudo está tão perdido – ou, pelo menos, que é possível enxergar alguma luz no fim do túnel. As recentes ações do Banco Central Europeu, oferecendo suportes mais escancarados a governos e bancos privados, levam alguns a considerar agora como improváveis os antes tidos como quase inevitáveis colapsos de crédito, com suas conhecidas e devastadoras consequências. Nos Estados Unidos, sinais de recuperação se sucedem, com retomada do crescimento e redução da taxa de desemprego, ainda que em níveis modestos.

Tudo misturado e embaralhado, contudo, o que se pode realmente extrair como tendência consistente da massa de dados e análises oferecida ao distinto público? Uma resposta pelo menos mais organizada e atualizada vem de um levantamento do McKinsey Global Institute (MGI), braço de pesquisas da consultoria global de negócios McKinsey, publicado em janeiro, com dados de meados do ano passado. A conclusão é que o processo de desalavancagem caminha, mas em ritmos diferentes, conforme o país, a região e até mesmo o setor econômico.

A rearrumação das economias está apenas começando e, em geral, progride a passos lentos. Em meados de 2011, no conjunto das dez economias analisadas (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Austrália, Canadá, Japão e Coreia do Sul) houve uma pequena queda de 2% na dívida privada e um aumento de 26% na dívida pública, em relação ao ponto máximo registrado em 2008. O resumo da história é que ainda tem muito chão pela frente.

O estudo concentrou foco nas economias dos Estados Unidos, Reino Unido e Espanha, considerando que cada uma representa subgrupos do conjunto. Tomou como ponto de referência a experiência histórica das crises financeiras e as bolhas de crédito ocorridas na Suécia e na Finlândia, na altura da década de 1990. Nesses episódios, a uma primeira fase de redução do endividamento privado, ainda com a economia em retração, seguiu-se outra, mais longa, de ajustes nas dívidas públicas e retomada do crescimento.

Só três das dez economias analisadas – Estados Unidos, Austrália e Coreia do Sul – já registram, três anos depois do pico do endividamento, redução da dívida total em relação ao PIB. Os Estados Unidos são os mais avançados nesse processo. Os débitos do setor financeiro americano recuaram para 40% do PIB, nível vigente em 2000, e, no caso das famílias, a compressão dos débitos, em proporção da renda disponível, foi ainda maior, equivalente a 15 pontos porcentuais, em relação à renda disponível. Mas não se deve esquecer que dois terços dessa redução são explicados simplesmente pelo não pagamento do que era devido.

Seguindo o roteiro histórico das crises financeiras e do estouro de bolhas de crédito, as dívidas totais ainda estão crescendo, em relação a 2008. É o caso tanto do Reino Unido quanto da Espanha. São bem diferentes, no entanto, os perfis e a composição do endividamento em cada caso.

Nos Estados Unidos, a maior parcela deriva do endividamento das famílias, enquanto no Reino Unido são as instituições financeiras que carregam o maior porcentual de endividamento em relação ao PIB. Na Espanha e na França, as empresas não financeiras respondem pela fatia mais relevante das respectivas dívidas totais. E no Japão, país que carrega um endividamento equivalente a 512% do seu PIB – o mais elevado entre as economias pesquisadas -, quase metade das dívidas é de responsabilidade do governo.

Curiosidade: a Alemanha, com sua aura de austeridade, carrega uma dívida total equivalente a 278% do PIB, dois terços dela dividida entre bancos e governo. Os alemães, proporcionalmente, estão tão endividados quanto os quebrados gregos.

 

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Parafusos espanados

24 de janeiro de 2012 | 11h57

José Paulo Kupfer

Sempre que se instala um período de valorização do câmbio – e esse tem sido um evento recorrente na história econômica brasileira recente -, recrudesce a polêmica sobre a tendência à desindustrialização no Brasil e a necessidade de “políticas industriais” capazes de revertê-la. É um debate sem fim e, pior, sem resultados práticos.

O indicador da suposta desindustrialização, de aceitação mais ou menos generalizada, é a gradual redução da participação da indústria no PIB. De fato, em 30 anos, a fatia da indústria caiu pela metade – de 30%, em 1980, para pouco mais de 15%. Nesse período, a indústria brasileira regrediu de uma produção que superava China, Coreia do Sul, Tailândia e Malásia somadas para apenas 15% do total do que elas produzem hoje.

Existe um diagnóstico também genérico a respeito do fenômeno. Ele se deveria a perdas de competitividade relativa, que dificultam exportações e facilitam importações substituidoras de produção doméstica. Daí em diante, porém, ninguém se entende.

De um lado, há quem encare essa situação com um misto de conformismo em relação à trajetória do câmbio, uma visão benigna do avanço dos serviços em detrimento da indústria no perfil da economia e críticas ao “custo Brasil” – conjunto de obstáculos tributários, trabalhistas e burocráticos muito maiores que os existentes nos competidores.

Há, de outro lado, os que concentram o foco da perda competitiva nos movimentos das cotações do dólar, recomendando compensá-la com ações de política cambial, defesa comercial e medidas específicas para as indústrias afetadas.

A verdade é que concluir que o País evolui para uma economia de serviços, replicando as sociedades pós-industriais, soa tão enganoso quanto insistir no ativismo cambial e no protecionismo comercial. Uma consulta às tabelas de ocupações e rendimentos por atividade do IBGE realça a esquisitice da tese da “economia de serviços”, ainda que os serviços já respondam por 70% do PIB e das ocupações. O que se constata é que essa “economia de serviços” é uma economia de serviços precários demais e dinâmicos de menos – trata-se antes de uma patologia derivada da baixa qualidade dos empregos e da mão de obra disponíveis.

Um terço dos trabalhadores do setor de serviços, no Brasil, é remunerado, em média, com menos de 2 salários mínimos mensais e metade não ganha mais de 3,5. Na economia americana, verdadeiramente pós-industrial, pelo menos um terço das ocupações remuneram, em média, dez vezes mais.

Também as “políticas industriais” de caráter protecionista parecem desprezar o processo de adensamento e alongamento das cadeias de produção industrial, com terceirizações, outsourcings e integrações típicos dos serviços.

A moral dessa história toda é que a polêmica da política industrial acaba se parecendo com o esforço para soltar um parafuso espanado – a insistência no método convencional só resulta em perda de energia.

É preciso formular e aplicar políticas para a indústria – como, aliás, é costumeiro em todos os cantos do mundo -, mas para a indústria de hoje, não a de ontem. Muitíssimo arriscado deixar a economia atrelada a fatores externos – no caso atual, cotações de commodities nos mercados externos e ingressos de recursos externos que vazam de um anômalo excesso de liquidez global.

Só que, para tanto, talvez não baste atacar distorções tributárias, trabalhistas, financeiras e burocráticas. Nada disso, nem em conjunto com taxas de câmbio desvalorizadas, impedirá perda de mercados, dentro e fora do País. Diante dos novos processos de produção, uma política competitiva eficaz terá também de alcançar o setor de serviços, abrindo espaço a empregos de mais qualidade, agregadores de valor à produção industrial.

Exemplo disso é o da indústria têxtil e de vestuário. Inútil competir com os chineses em tecidos básicos e camisetas padronizadas. Ou, como fez o governo, recentemente, baixar pacotes específicos de proteção. Mas, e se a indústria buscar mais valor, produzindo artigos de grife ou design diferenciado? Não é essa a explicação para o êxito internacional, com ou sem chineses, câmbio, carga tributária e todos os demais et cetera, da “moda praia” brasileira?

O poder de competição, nos tempos atuais, continua a depender do câmbio, de um ambiente propício aos negócios e de mão de obra qualificada. Depende, porém, mais ainda da integração das cadeias produtivas, nas quais a indústria desempenha o papel crucial de elo indutor de mais e mais partes interdependentes.

* * *

Aviso aos navegantes:

Vou dar uma saidinha, mas já volto. Na próxima terça, estou aí.

 

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Dilma afina os controles

23 de janeiro de 2012 | 20h06

José Paulo Kupfer

Mudanças na presidência de uma empresa como a Petrobras nunca são triviais. Mesmo quando o fato e os protagonistas são os esperados. Por isso, a troca de guarda no comando da maior empresa brasileira – e terceira do mundo no setor de energia –, com mais de 80 mil empregados e responsável por cerca de 10% de todos os investimentos na economia brasileira, chama tanto a atenção e suscita tantas especulações.

A substituição de José Sérgio Gabrielli por Maria das Graças Silva Foster, de 58 anos e mais de 30 em diversos departamentos e negócios da empresa, era uma pedra cantada. Só não estava cantado que já seria na primeira quinzena de fevereiro. Mas, se houve alguma surpresa no “timing” da mudança, não deixa de ser algo que se poderia prever – afinal, a presidência da Petrobras, na prática, equivale à chefia de um ministério e uma reforma do Ministério está na ordem do dia.

Jornais do mundo inteiro destacaram o perfil técnico e estilo gerencial duro da futura presidente da Petrobras – semelhante ao perfil grudado no da presidente Dilma Rousseff. Também não deixaram de mencionar a proximidade de Graça Foster com Dilma, de quem, nos tempos de Dilma no Ministério das Minas e Energia, a futura presidente da Petrobras foi secretária de petróleo e gás. Além de ser a primeira mulher a presidir a estatal em quase 60 anos de existência, Graça Foster é um raro caso de presidente saído do quadro de carreira da empresa

Graça Foster já havia sido cotada para um cargo no primeiro escalação do governo quando a presidente Dilma Rousseff estava montando seu Ministério, em fins de 2010. Na época, veio à luz uma série de negócios de seu marido, Colin Foster, com a Petrobras. De 2007 a 2010, a empresa C. Foster, de propriedade do marido, assinou com a Petrobras 42 contratos de fornecimento de componentes eletrônicos, dos quais a metade sem licitação.

As características de Graça Foster – o perfil técnico e proximidade com Dilma – foram saudadas como pontos positivos para a administração de uma companhia gigante, controlada pela União, que registra receitas anuais acima de R$ 200 bilhões, só inferiores, no País, ao total arrecadado pelo governo federal. As ações da Petrobrás subiram 3,5% no pregão desta segunda-feira na Bovespa, alcançado o maior valor desde abril do ano passado.

Espera-se, no mercado, que Graça Foster promova uma reestruturação na diretoria da Petrobras, com o objetivo de obter maior integração entre elas e concentrar esforços nos aspectos operacionais e de produção. A conferir, contudo, a autonomia que terá para designar os diretores e redesenhar as estruturas superiores da estatal. E também a habilidade política que, obrigatoriamente, terá de revelar, na condução da estatal.

Gabrielli sai oficialmente para ocupar um secretária no governo da Bahia, suposto passo para uma candidatura ao governo baiano, em 2014. A distância no tempo entre a saída e a execução de seu projeto político permite supor que esta foi o caminho mais suave possível encontrado por Dilma para dispensar Gabrielli e assumir mais diretamente, pelas mãos da especialista de total confiança, os controles da Petrobras.

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Se a moda pega…

19 de janeiro de 2012 | 16h43

José Paulo Kupfer

O “New York Times” publicou, na edição desta quinta-feira (e a reportagem está no site do jornal), uma notícia para lá de interessante: diante da iminência da aplicação de um calote pela Grécia, os fundos de hedge estão consultando advogados sobre a possibilidade de processar o governo grego no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Ninguém leu errado não. A ideia em discussão é processar a Grécia, caso o governo grego não pague o que prometeu quando vendeu títulos de sua dívida, por violação dos direitos humanos dos investidores.

Juristas, segundo a reportagem, sugerem o recurso dos investidores à corte dos direitos humanos sob a alegação de que, se a Grécia alterar os termos dos contratos de venda dos títulos, levando os investidores a receber menos do que o combinado, isso pode ser visto como uma violação dos direitos de propriedade – e, na Europa, o direito de propriedade é classificado entre os direitos humanos.

A tese é, no mínimo, instigante. Mas,  se a  moda pega…

 

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Com a palavra, a política fiscal

18 de janeiro de 2012 | 21h30

José Paulo Kupfer

Era consenso que o Copom, na primeira reunião de 2012, manteria o ritmo de corte na taxa básica de juros adotado nas últimas três do ano passado. A redução de 0,5 ponto porcentual, tomada por unanimidade, que trouxe os juros básicos para 10,5% ao ano, confirmou o que todos esperavam.

Falta consenso, porém, sobre o que será decidido pelo Copom, daqui para a frente. Não se prevê que o ciclo de cortes nos juros básicos avance além de maio, mas, até lá, as apostas variam entre taxas básicas anuais de 9%, 9,5% e 10%, mantidas, a partir de então, até o fim do ano.

Essas apostas embutem hipóteses diferentes para o ritmo dos cortes, a cada uma das três reuniões do Copom previstas até maio. A primeira delas abraça a possibilidade de outros três cortes de 0,5 ponto, mas as demais consideram a possibilidade de desaceleração do ritmo de corte dos juros ou o encerramento antecipado do ciclo de cortes.

Tem aumentado o grau de dispersão nas análises sobre os próximos passos do Copom. Sinais menos pessimistas nas economias americana e chinesa, combinados com um tom mais preocupado com as tendências inflacionárias, transmitido no Relatório de Inflação do quatro trimestre de 2011, refrearam as avaliações que apontavam um ciclo mais longo e mais acentuado de redução nos juros.

Incertezas em relação ao tamanho dos cortes e contingenciamentos que serão definidos no Orçamento, em fevereiro, formam o pano de fundo dessa dispersão de hipóteses. Circula que, quanto à política fiscal, duas visões disputam a preferência da presidente Dilma Rousseff.

Uma delas seria favorável a uma maior contração fiscal, assegurando a obtenção da meta cheia de superávit primário, em nome da abertura de espaço para cortes maiores nos juros. A outra, de olho na expansão do investimento público e num crescimento acelerado da atividade econômica, aceitaria um superávit primário descontado de parcelas dos investimentos.

É certo que o nível da contração fiscal que o governo se dispuser a executar terá peso crítico no roteiro da evolução das taxas básicas de juros, de acordo com o novo mix de política econômica adotado em meados de 2011. Mas, além disso, a situação da economia internacional e as medidas macroprudenciais, à frente o manejo do crédito, cumprem também importante papel no desenrolar desse enredo. Um enredo, é bom lembrar, reformado, em que alcançar o centro da meta no ano civil, apesar das promessas, deixou de ser a regra.

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