THIAGO LASCO
FOTOS: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
Corcélio tem uma saúde de ferro. Bebe pouco, está sempre em movimento e não aparenta a idade que tem. Apesar do nome com jeitão de avô, não se trata de um sexagenário enxuto, mas do Corcel II L 1978 que há dois anos pertence ao relações-públicas Marcos Camargo Júnior.
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Fã da robustez e do espaço interno do Ford, ele conta que procurou por um ano até encontrar um exemplar do jeito que queria: original, em bom estado e por um preço que considerasse justo. “Com carros antigos, ou você tem muito tempo, ou muito dinheiro. Eu tenho muita paciência”, brinca Camargo.
Um amigo lhe falou sobre o Corcel encostado em uma garagem em Osasco, na grande São Paulo. A viúva do primeiro dono do Ford o vendeu a Barbosa por R$ 7 mil. “Um carro como este, com bom histórico, custa R$ 15 mil ou mais.”
Bastou fazer um polimento para Corcélio voltar à ativa, já que o motor 1.4, que havia rodado 70 mil km, esbanjava vigor.
Camargo usa o carro principalmente nos fins de semana, para passear com a namorada. “Parado, ele dá mais despesa que andando. É só ligar o motor sempre, usar gasolina boa, trocar o óleo e ficar de olho no carburador, pois o acúmulo de borra pode entupi-lo.” Ele diz que, como a mesma mecânica foi usada na picape Pampa até 1991, não é difícil achar peças de reposição.
O baixo consumo de combustível é apontado por Camargo como uma das virtudes do carro. Ele diz que, na cidade, o Ford pode rodar 12 km com um litro de gasolina. O desempenho, por outro lado, está longe de impressionar, sobretudo na estrada – o câmbio de apenas quatro marchas não ajuda.
“Na época em que ele foi produzido, ninguém passava dos 80 km/h”, diz Camargo. Hoje é comum trocar a transmissão pela de cinco marchas, mas preferi manter a original”, explica.
Nas ruas, Corcélio não causa o mesmo frisson que contemporâneos como Opala e Landau. Mas há um lugar onde todos são sorrisos para ele: o posto de gasolina. “Os frentistas adoram o Corcel. Talvez por ele ter sido um carro acessível, que muitos deles tiveram no passado”, arrisca Camargo.
HISTÓRIA
A primeira geração do Corcel foi lançada pela Ford do Brasil em 1968, a partir do projeto que também deu origem ao Renault 12. O carro tinha motor 1.4 e configurações sedã e cupê. Dois anos depois, a perua Belina completou a família.
Em 1977 surgiu o Corcel II, com nova carroceria, duas portas e três versões: Standard, L e LDO. O motor 1.6 veio em 1979 e a opção a álcool, em 1980.
Em 1985 a frente foi reestilizada e, no ano seguinte, o modelo saiu de cena depois de a Ford ter produzido 1,4 milhão de unidades.
Thiago Lasco
Sortudos são os filhos que conseguem trazer consigo lembranças eternas da família. O corretor de imóveis Luciano Jafet herdou do pai não só o gosto por carrões norte-americanos, mas também o último exemplar de sua coleção: um Lincoln Continental Mark IV 1974.
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Jafet cresceu cercado de belos veículos, que o pai importava dos Estados Unidos. Com sete anos de idade, o garoto apaixonou-se por um deles, um Mercury Cougar XR-7 1967, que ficou quatro anos na garagem da família. “Quando meu pai vendeu aquele carro, fiquei 15 dias sem falar com ele”, lembra.
Depois vieram um Ford Thunderbird 1971, o primeiro veículo que Jafet dirigiu, e um Oldsmobile Toronado 1973.
Em 1975, o pai do corretor de imóveis decidiu comprar um Lincoln Continental. Como o governo brasileiro havia proibido a importação de carros, ele vasculhou o País atrás de um exemplar de segunda mão, até encontrar o desta reportagem, que tinha um ano de uso e custou o equivalente a três Ford Landau zero-km. “Meu pai rodou mais cinco anos com ele e já estava querendo vendê-lo quando morreu, em 1980.”
Jafet não pensou duas vezes antes de ficar com o carro, que tinha 40 mil milhas (cerca de 64 mil km) e estava em ótimo estado. “Ele nunca deu defeito. Só trocamos um pneu e retocamos um ponto de ferrugem”.
O corretor é fã declarado do Lincoln Continental. “Esse modelo foi usado pela presidência dos EUA. As linhas são lindas. É o melhor carro do planeta. Tem um rodar macio e silencioso, é um prazer incomparável”, derrete-se. A paixão é tão grande que, em 2006, ele acabou comprando um segundo exemplar, um Mark VII ano 1989.
Zelo. De 1980 até hoje, Jafet rodou mais 11.200 km com o veículo. O motor tem 7.500 cm3 e rende 227 cv, mas o dono pega leve. “Mesmo pesando 2.400 kg, ele alcança 201 km/h, mas só vou até 96 km/h”, garante. Um de seus pontos fracos é ó alto consumo urbano, de apenas 2,5 km/l de gasolina.
Para fazer a manutenção preventiva, Jafet conta com a ajuda de um amigo, que lhe envia peças de Miami, e uma oficina de confiança. Carburador e bomba de gasolina foram trocados, o radiador passou por retífica e o estofamento de couro foi hidratado com um creme específico.
Os deslocamentos do dia a dia, Jafet faz com um VW Passat Pointer 1988. O Lincoln só sai da garagem nas tardes de domingo. O passeio, do Morumbi aos Jardins, termina sempre antes de escurecer. “Eu me sinto muito exposto com esse carro. Acho legal que o admirem. O problema é que não param de olhar, e eu me sinto até ridículo. Quando passo ao lado de um ônibus, então, chega a ser absurdo”, justifica o proprietário.
Requinte. Criado pela Lincoln, divisão de luxo da Ford norte-americana, o Continental nasceu em 1939, como uma derivação do Lincoln-Zephyr, e teve nove gerações até 2002.
Os primeiros exemplares eram equipados com motor V12 de 5 litros. Depois, vieram propulsores V8 de 6 litros e 7 litros. A partir da sexta geração, de 1980, o modelo ficou mais compacto e ganhou motores menores e mais econômicos.
O carro se consagrou como um símbolo de luxo e seu principal concorrente foi o Cadillac Eldorado. O acabamento sofisticado, com bancos de couro, relógio Cartier e a assinatura de grifes como Givenchy, ajudou a provar que a Ford também podia disputar mercado no segmento de luxo. O modelo já oferecia freios ABS em 1972.
Usado pela presidência dos EUA, o Lincoln Continental também protagonizou um episódio marcante da história daquele país: foi a bordo de um modelo 1961 conversível que o presidente John F. Kennedy foi assassinado, em 22 de novembro de 1963.
BELISA FRANGIONE
FOTOS: JOSÉ PATRICIO/ESTADÃO
Para o analista de marketing Regis Marcolongo, não basta ser um fã incondicional da Kombi. Dono de três desses Volkswagen (um de 1972 e dois de 1975), ele diz que é preciso deixar a “perua” o mais original possível, o que inclui preservar ferrugem e falhas na pintura. Não se trata de desleixo, mas sim do gosto pelo chamado estilo Rat Hod, expressão criada nos EUA para definir veículos que tiveram peças não essenciais removidas.
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“Comprei esse carro no ano passado. Ele estava totalmente original, mas a estética já é do tipo Rat. Fiz algumas melhorias na parte mecânica para poder usá-lo no dia a dia e, na parte visual, optei por manter os sinais da idade”, brinca.
A Kombi, que recebeu o apelido carinhoso de Gertrudes, pertencia a um amigo de Marcolongo. Ele conta que a negociação não foi fácil e levou dois meses para ser concluída.
Para ficar apta ao uso diário, a van recebeu itens como cintos de segurança e novos espelhos retrovisores. A suspensão foi reparada e o motor 1.6 original passou por retífica.
A ausência de algumas peças, como o cinzeiro da porta dianteira, e os rasgos na forração de teto e portas caracterizam o modelo como Rat Hod. Assim como a presença de caveiras.
O símbolo está em adesivos nas portas, no acabamento da ponta da antena e no pomo da alavanca de câmbio. “Tudo importado dos Estados Unidos”, diz o dono do Volkswagen.
Na parte traseira, sobre o motor, Marcolongo costuma levar um acervo de peças retrôs, como um rádio da década de 30, uma enceradeira e uma filmadora dos anos 80. Esse “museu” chama muito a atenção nos encontros de antigos dos quais a Kombi participa.
Aliás, nos fins de semana o analista de marketing costuma retirar os bancos traseiros do VW para facilitar o transporte das bicicletas da família. Ele conta que sua esposa, Maura, e os filhos Luana, de 18 anos, Giovanna, de 16, e Vinícius, de 11, são só alegria a bordo da Gertrudes. “No começo as meninas ficavam com vergonha de andar nesse carro, mas agora não tem mais isso, não”, brinca.
A Kombi faz tanto sucesso que é comum aparecerem interessados no VW com propostas de compra. “A Gertrudes é um membro da família. Dela não me desfaço”, diz Marcolongo.
Belisa Frangione
Fotos: Marcio Fernandes/Estadão
Se o Volkswagen Fusca 1970 desta reportagem falasse, ele seria cheio de histórias para contar e dono de um apuradíssimo gosto musical. O ‘besouro’ verde-folha pertenceu ao compositor de música erudita Osvaldo Lacerda, seu primeiro proprietário. Era com ele que o músico viajava tanto a lazer quanto para apresentações. Não raro, a bordo do veículo vinham de carona grandes artistas como o compositor e regente Mozart Camargo Guarnieri.
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Lacerda morreu em 2011, aos 84 anos, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Poucos meses antes, enquanto cuidava de uma artrose, viu no Fusca o maior incentivo para prosseguir com o tratamento.
“A motivação dele em começar a fisioterapia foi saber que, se tratando, poderia voltar a dirigir o carro que ele tanto amava”, conta sua esposa, a pianista Eudóxia de Barros. Animado, o compositor teve a iniciativa de restaurar o sedãzinho, processo concluído em 2012.
A reforma incluiu pintura, funilaria, estofamento e retífica do motor de 1.300 cm3. Tudo para deixar o automóvel ainda mais impecável e funcionando como um zero-km. Ao dar a partida e engatar a primeira das quatro marchas do câmbio manual, o Fusca pega de primeira.
Eudóxia mantém o carro em bom estado, mas conta que tem receio de sair com ele por aí. Um dos motivos é justamente o quanto ele é preservado. “Fico com medo de estragar alguma peça ou mesmo a pintura. É um carro atraente e visado.”
Outra razão é a intenção de vendê-lo. Como tem só uma vaga na garagem, seu carro do dia a dia fica na rua, enquanto ela aguarda um comprador. “Pode ser a oportunidade de ter um veículo com um valor sentimental maior que o financeiro.”
Belisa Frangione / Fotos: Robson Fernandjes
A relação do restaurador Eduardo Lambiasi com o MG B GT 1974 desta reportagem teve início há pelo menos 25 anos, pois o clássico pertencia a um amigo e colecionador. Em 2007, ele adquiriu o carro, mas a convivência durou apenas um ano e meio. “Por questões pessoais precisei revendê-lo. Mas como o novo dono era um conhecido, prometi a mim mesmo que assim que pudesse o compraria de volta”, lembra. O “reencontro” então ocorreu em 2012.
Como o cupê pertenceu a dois colecionadores, Lambiasi não precisou fazer nenhuma restauração, apenas revisões mecânicas preventivas para realizar uma façanha: correr com o veículo em competições. “É uma tarefa fácil, já que tenho a oficina e o conhecimento.”
A intenção nunca foi deixar a aparência do carro impecável, mas Lambiasi garante que segue uma cartilha para manter o automóvel o mais próximo possível do original. “De que adianta deixá-lo como novo se vou usá-lo em ralis? Meu propósito é fazer com que ele fique bonito, mas com visual de quando ele foi lançado. Nem aos bancos de couro eu aderi.”
O MG B foi fabricado em três opções de motores:quatro e seis cilindros e V8. O propulsor do exemplar de Lambiasi é do primeiro tipo e gera 95 cv. O câmbio é manual de quatro velocidades. Um dos diferenciais do modelo é o teto solar.
O pequeno esportivo está com apenas 50 mil km rodados, mas esse índice vai aumentar. Lambiasi e a esposa, Vera, participarão com ele do tradicional rali de clássicos Mil Milhas Históricas, em junho, em um percurso de 1.680 km. Levarão maleta de ferramentas e um caminhão de apoio, embora esperem não precisar do auxílio. “O MG é antigo, mas nunca me deixou na mão”, ri.
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