Luís Felipe Figueiredo
Foi a melhoria na qualidade de seus automóveis a principal razão para as marcas sul-coreanas se tornarem objetos de desejo no mercado brasileiro. A opinião é compartilhada por executivos ligados às principais fabricantes (Hyundai e Kia) e analistas do mercado.
“Só marketing não resolve”, diz o diretor do Centro de Estudos Automotivos da FEI, Luiz Carlos Mello. “Hyundai e Kia contrataram especialistas europeus para dar nova cara a seus produtos. Também houve aprimoramento na tecnologia.”
O executivo, que presidia a Ford à época da abertura das importações, no início dos anos 90, conta que a chegada das sul-coreanas causou preocupação, mas mostrou-se tímida. “Eles vieram para testar o mercado.”
Para o consultor da Prime Action Arnaldo Brazil, dois fatores foram fundamentais para consolidar as novatas: preço atraente e rede capacitada a lidar com a classe emergente de consumidores. “São pessoas com mais dinheiro para gastar, mas que têm receio de ir às marcas de luxo.”
Sobre os preços capazes de fazer frente a modelos nacionais, o presidente do grupo Hyundai-Caoa, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, afirma que os custos de produção são cerca de 30% mais baixos que os dos rivais.
“Pagamos 35% de impostos para entrar no País e temos bons preços. As fabricantes nacionais também têm. É uma questão de posicionamento de produto”, afirma o presidente da Kia Motors no Brasil, José Luiz Gandini.
O futuro das sul-coreanas, no entanto, será mais difícil do que parece. “Os fabricantes locais estão mais aparelhados do que antes. E há a questão da rede, para a qual não há geração espontânea. Decepções com o pós-venda podem ser potencializadas”, sentencia Mello.
Descompasso
A Ssangyong não acompanhou o ritmo das compatriotas Kia e Hyundai no País. “Pode ter sido uma falha estratégica, na escolha de parceiros, com visão de curto prazo”, diz Brazil. “Hyundai e Kia trabalharam para o longo prazo. A situação delicada da matriz também não ajudou.”
TEXTO: MILENE RIOS
FOTOS: SÉRGIO CASTRO/AE
Carros cheios de equipamentos por preços inferiores aos de modelos nacionais. Esse é o principal atrativo apontado pelos donos de veículos chineses no País. “Em geral são carros mais potentes e que vêm de série com itens que algumas fabricantes locais não oferecem nem como opcionais”, diz o sócio-diretor da consultoria Vallua, Lucas Copelli. “Os brasileiros equivalentes são até 30% mais caros.”
Mas os consumidores ainda têm dúvidas em relação à qualidade dos carros chineses. “O desafio é perder a reputação ‘made in China’”, diz Vallua. “Um JAC deve ser visto como JAC, e não como um carro chinês.” Ele afirma que isso vai mudar à medida em que as marcas atenderem às expectativas dos compradores.
Antes de trocar seu Peugeot 207 SW por um sedã Cielo, o administrador de empresas Márcio Pardini ficou três meses pesquisando sobre o Chery. “De cara gostei dos itens de segurança e dos três anos de garantia. Depois, soube que o design era italiano e fui conquistado de vez.”
Pardini elogia o Cielo, com o qual rodou 3 mil quilômetros em dois meses. “Por ser um carro feito para chineses, precisamos nos adaptar a ele, mas não tenho reclamação.”
Após pesquisar muito, a também administradora Márcia Souza de Almeida resolveu se desfazer de seu VW Polo e comprar um JAC J3. Apesar de estar com o carro há apenas uma semana, ela já aponta alguns inconvenientes, mas não perde o entusiasmo. “O ajuste do retrovisor é ao contrário e em subidas falta um pouco de fôlego ao motor, mas são detalhes”, diz. “Até meu pai, que é muito exigente, gostou.”
O estudante Vinícius Grossi Molina é outro que “dobrou” o pai e levou para casa um Lifan 320. “Os itens que ele oferece só são estão em nacionais com preços em torno de R$ 50 mil.”
O pai do estudante, Claudinei Molina, não está convencido. Com apenas 300 km rodados ele teve de levar o Lifan à oficina por falhas nos freios ABS. “Mas a felicidade do Vinícius ao ver esse carro foi igual à que tive quando ganhei um Puma”. Vinícius está satisfeito. “O Volvo XC60 de um amigo apresentou a mesma falha. Isso pode acontecer com qualquer marca.”
A Audi divulgou nesta terça-feira as fotos e informações do Q3, pequeno utilitário-esportivo que brigará diretamente com o BMW X1. O modelo, que usa plataforma do A3, deverá estrear no Salão de Xangai (China), no fim do mês. As vendas na Europa começam em junho e, no Brasil, o lançamento poderá acontecer ainda neste ano.
Com 1.500 kg, o Q3 pode levar entre 460 e 1.350 litros de bagagem, dependendo da posição dos bancos traseiros. Haverá três opções de motor quatro cilindros, a gasolina e a diesel, com potências entre 140 cv e 211 cv.
NÍCOLAS BORGES
Por ora, a China é uma exportadora de veículos discreta. Segundo a associação das montadoras do país, em 2010 foram vendidas pouco mais de 566 mil unidades para outras nações. O número é 53,2% maior que o de 2009, mas ainda inferior a 2007 e 2008. Os maiores clientes foram Argélia (47.200 exemplares), Síria e Vietnã, com 32.800 veículos cada. Com 28.900 carros, o Brasil ficou em oitavo lugar. E a curto prazo, países emergentes continuarão na alça de mira.
“Os chineses vão focar onde há mais possibilidades de crescimento”, diz o diretor superintendente da consultoria Jato Dynamics do Brasil, Luiz Carlos Augusto. “Os mercados do Primeiro Mundo estão saturados.”
Mas isso não deve impedir que a China entre nas nações desenvolvidas. “Com a globalização, eles vão levar menos tempo para ter produtos de qualidade”, afirma o consultor. Para Augusto, enquanto os coreanos levaram cerca de 20 anos para chegar ao nível atual, os chineses estarão lá no fim desta década.
A indústria sul-coreana está em um patamar bem diferente. A Kia, por exemplo, há menos de um mês, completou 10 milhões de automóveis exportados desde 1975, dos quais boa parte foi para o Primeiro Mundo.
E a evolução tem sido cada vez mais rápida. A marca de 5 milhões demorou 30 anos para ser alcançada (em 2005). Chegar ao dobro disso levou seis anos.
A Volkswagen está considerando comprar o controle ou uma participação na fabricante japonesa de caminhões e veículos comerciais Isuzu Motors, segundo um artigo da revista Manager, que será publicado na sexta-feira.
A MAN, na qual a Volks possui uma fatia de 30%, poderá também adquirir uma participação na japonesa, conforme o artigo.
Um potencial obstáculo para qualquer participação da Volkswagen poder ser, no entanto, a fatia de 6% que a japonesa Toyota tem na Isuzu, de acordo com a revista.