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Uma melodia de Berlioz e um Colombo ‘marxista’

João Luiz Sampaio

sábado 23/08/14

Na primeira noite do Festival Berlioz, em La Côte Saint-André, uma obra desconhecida de Félicien David, contemporâneo do autor, sobre Cristóvão Colombo

É difícil caminhar pelas ruas de La Côte Saint-André sem ter em mente a melodia de uma pequena romança que Berlioz escreveu na adolescência. “Je Vais Donc Quitter pour Jamais mon Doux Payx” foi composta sob o impacto da paixão avassaladora do compositor, então com 12 anos, por Estelle, de 18. Mais tarde, o próprio Berlioz, é verdade, queimaria essa e outras partituras do começo de sua vida. Mas reutilizaria a melodia entoada pelos violinos no início da “Sinfonia Fantástica”, uma das passagens mais célebres de toda a sua obra.

Em La Côte Saint-André, Berlioz está em todos os lugares. Há o museu dedicado à sua memória e, nas ruas, esculturas discretas, retratos estilizados. Mas a onipresença talvez seja ainda maior por conta das dimensões da cidade, um punhado de ruas que logo se abrem em direção ao campo, pequenas estradas das quais se pode vislumbrar, bem ao fundo, a silhueta dos alpes; ou então, no alto da cidade, o Château Louis XI (foto abaixo), prédio do século 13, ao qual se tem acesso caminhando pela praça central, que abriga a pequena igreja do início do século 11. Os dois prédios são, de certa forma, a alma da cidade – e servem de palco para o Festival de Berlioz.

***

Na noite de ontem, foi realizado o primeiro concerto deste ano no palco montado no jardim central do château. A Orchestre des Siècles interpretou “Christoph Colomb”, de Félicien David. Do compositor, sabemos muito pouco. Um dos autores favoritos de Napoleão III, foi dos primeiros a explorar o orientalismo e a queda pelo exótico que acometeria muitos autores franceses em meados do século 19, chegando a escrever uma ópera chamada “Le Pérle du Brésil”. Por aqui, o apresentam como amigo de Berlioz – mas, na verdade, apesar da admiração mútua, o clima entre os dois nem sempre foi o mais amistoso, em especial à medida em que David caía no gosto do público francês, roubando um espaço que, para muitos, só havia conseguido por conta da amizade e do apoio de Berlioz.

O fato é que a música de David acabou esquecida. Prova disso é que a apresentação de ontem de “Christoph Colomb” foi a primeira em mais de um século, e só foi possível por conta do trabalho do festival, que investiu na recuperação dos originais e na edição da partitura. A peça, de 1847, é uma “ode-sinfônica”, nome que o compositor deu à mistura de ópera e sinfonia. Em quatro movimentos, ou partes, utiliza orquestra, coro, narrador e solistas (tenor, barítono e soprano). É, em bom francês, uma ópera disfarçada, evocando ainda um tom de oratório – na mesma linha daquilo que faria Carlos Gomes, em 1892, com seu “Colombo” (será que o brasileiro conheceu David?).

Um dos responsáveis pela edição da partitura lembrou ontem por aqui que David flertou com as ideias do socialista utópico Henri Saint-Simon e foi contemporâneo de Karl Marx – o que sugeriria um caminho de leitura para seu Colombo, que seria, assim, uma espécie de profeta apontando os caminhos para um novo mundo. Ouvindo a música de David, a retórica quase faz sentido – mas só se deixarmos de lado, claro, o fato de que Colombo viajou patrocinado pelo desejo econômico de novas rotas comerciais baseadas na exploração das futuras colônias.

Mas na música de “Christophe Colombe”, justiça seja feita, o arroubo romântico na caracterização da personagem, certa nostalgia e o tom trágico contrastam com uma escrita orquestral nunca exagerada ou derramada (e aqui talvez ajude bastante a regência criteriosa de Franz Xavier-Roth, na foto abaixo). Quem mais chamou atenção, no entanto, foi o tenor Julien Behr, que tem trabalhado com Rene Jacobs e Mark Minkowski e está, ao que tudo indica, no início de uma carreira promissora.