Foi uma dupla revelação. Na noite da última sexta-feira, em Manaus, a plateia presente ao Teatro Amazonas teve a oportunidade de assistir à primeira montagem brasileira completa da Yerma, de Villa-Lobos. De um lado, era redescoberta uma faceta pouco conhecida do compositor, em uma partitura totalmente diferente daquilo que conhecemos dele. Mas há também uma simbologia na chegada de Yerma aos palcos: a obra, afinal, pode ser vista apenas como a ponta de um enorme repertório operístico brasileiro, perdido em edições manuscritas, que permanece longe dos teatros e do público.
Yerma foi escrita por Villa-Lobos nos anos 50, encomenda de uma companhia americana. A inspiração era a peça de mesmo nome de Federico Garcia Lorca, escrita em 1934 e parte da chamada Trilogia Dramática da Terra Espanhola, composta ainda por Bodas de Sangue (1932) e A Casa de Bernarda Alba (1936). O tema comum é o embate entre o indivíduo e a norma social. Na Yerma, ele se dá por meio da história dessa mulher às voltas com o desejo não realizado de ser mãe. Yerma quer dizer “árida” – e a incapacidade de gerar um filho a coloca à margem da sociedade. A impossibilidade de ser mãe, no entanto, está relacionada à impossibilidade de se concretizar desejos; a aridez está também no caráter opressor da comunidade, onde liberdade e autoridade se opõem e os instintos e desejos precisam ser suprimidos. Nesse sentido, funcionou muito bem a concepção cênica de Alex Aguilera, que fez da cama, presente todo o tempo em cena, o espaço onde tanto a repressão como o desejo de liberdade se dão.
Villa-Lobos, cansado de esperar pelo libreto em inglês, acabou escrevendo a ópera sobre o texto original de Lorca, marcado pela oposição entre passagens secas e lacônicas e outras de tom mais lírico. Trabalhar com o texto original com certeza influenciou a música escrita pelo compositor. Sua partitura alterna também momentos de violência, como toda a sequência inicial – que lembra o Strauss da Salomé – ou o dueto final entre Yerma e Juan, com o lirismo que parece representar o flutuar do desejo na conversa repleta de simbolismo entre Yerma e o pastor Victor. Villa-Lobos não recorre a melodias folclóricas, brasileiras ou espanholas. A partitura surge do drama e se autoalimenta em uma estrutura contínua que abdica da separação de cenas e sugere um arco amplo em direção ao clímax da história.
Se há um reparo a ser feito na Yerma, está na orquestração, em alguns momentos desequilibrada, pesada demais, tornando difícil a audição dos cantores. O maestro Luiz Fernando Malheiro, diretor do Festival Amazonas, conta que Mindinha Villa-Lobos confidenciou a Mário Tavares, que interpretou com cortes a partitura, nos anos 80, no Rio, que o próprio compositor reconhecia problemas, manifestando interesse em uma revisão que, no entanto, nunca ocorreu. Vale lembrar que o mesmo problema já está presente em A Menina das Nuvens, ópera escrita por volta da mesma época, e apresentada no ano passado no Palácio das Artes de Minas.
O que a encenação de Yerma revela de mais importante, porém, é um Villa-Lobos universal, digamos assim, em que toda a investigação do folclore não é um fim em si mesmo mas, antes, parte de uma personalidade musical forte que, ao mesmo tempo, não se furta de dialogar com o que acontecia à sua volta na criação musical. Pelas possibilidades expressivas da música e da linha de canto, que leva os cantores aos limites de seus registros, Yerma revela um compositor bastante à vontade com a linguagem operística – e que continua a desafiar crítica e público com uma criação extremamente pessoal.
Se Carlos Gomes é figura fundamental na ópera do século 19, há todo um repertório nacional ainda a ser descoberto. Leopoldo Miguez escreveu Pelo Amor!; Alberto Nepomuceno compôs Artémis e Abul; há três títulos de Henrique Oswald, La Croce D”Oro, Le Fate e Il Neo, que nem chegaram ao palco; O Contratador de Diamantes, de Francisco Mignone, teve poucas récitas; Um Homem Só, de Guarnieri, foi feita uma vez. A lista poderia continuar, envolvendo a recuperação de episódios como a tentativa de criação, na segunda metade do século 19, de uma escola brasileira de ópera, em torno da qual trabalharam nomes como Quintino Bocaiuva e Machado de Assis. Alguém se habilita?
(Caderno 2 + Música, 1/5/2010)
Que ópera! Acompanhei a estreia ontem de Yerma, de Villa-Lobos. A gente fala, fala, fala sobre o compositor e, de repente, estamos diante de uma obra que, primeiro, nada tem a ver com o que se conhece dele; e, segundo, é fascinante, bem estruturada musical e dramaticamente. O libreto é baseado na peça de mesmo nome de Federico Garcia Lorca. “Yerma” quer dizer “árida” e a ópera a acompanha em seu desejo não realizado de ser mãe. Lorca, na verdade, está colocando o indivíduo em oposição à sociedade e seus valores cristalizados. E, nesse sentido, o texto se torna ponto de partida para discutir desejo e culpa. Talvez porque siga linha a linha da peça, Villa-Lobos cria uma ópera bastante eficaz dramaticamente – ao contrário, por exemplo, do que acontece em “A Menina das Nuvens”, na qual a cena, em especial no segundo ato, se arrasta demais. E musicalmente ela está muito mais próxima de Puccini e Strauss do que do Villa do início da carreira, que tanto investigou o folclore brasileiro. Se ele aqui aparece, é sempre de maneira indireta e simplesmente porque é parte – e apenas uma entre tantas – da inspiração do compositor. O Villa de Yerma parece extremamente à vontade com a linguagem da ópera e cria um conjunto de cenas extremamente contrastante, do lirismo à angústia e o desespero. Há grandes papéis. E o mais especial, sem dúvida, é o de Yerma, vocalmente difícil, que leva a soprano a todo instante de um extremo a outro do registro (não por acaso, três cantoras recusaram o papel). Sorte nossa: Eliane Coelho deu espetáculo, mostrando porque é a grande soprano brasileira. Yerma, em que pese alguns problemas de orquestração, às vezes pesada demais, tinha tudo para estar presente no grande repertório, sendo feita mundo afora, assim como Puccini e tantos outros compositores. De cara, ainda sob o impacto dá música, dá para dizer que é, com certeza, uma parada importante na trajetória da ópera no século 20. Mas, se no Brasil, terra do compositor, ela foi montada só agora na íntegra, mais de 50 anos após ser escrita, o que mais se pode esperar, não?
PS: Por problemas técnicos, os comentários feitos pelos leitores do blog não estão aparecendo. Eu consigo ler no servidor os comentários da Claudia, por exemplo, que está compartilhando suas interessantes visões sobre “Yerma”, mas não consigo fazê-los aparecer. O pessoal da técnica informa que já está trabalhando nisso e que logo o problema será resolvido. Vamos aguardar.
O Festival Amazonas de Ópera começa no dia 23 de abril, em Manaus, com uma montagem da ópera “Yerma”, de Villa-Lobos. A partitura, baseada na peça de mesmo nome do espanhol Garcia Lorca, narra a história de uma mulher às voltas com o desejo não realizado de ser mãe e as convenções da sociedade – e é uma das mais interessantes criações de Villa-Lobos. Coisas do Brasil, a ópera teve apenas uma interpretação depois da estreia, nos anos 70, no Rio, em versão de concerto. Agora, ganha o palco de Manaus, o que por si só já seria boa notícia. Mas tem mais: informações que chegam do Amazonas dão conta de que o papel-título, que seria interpretado pela espanhola Ana Lucrecia Garcia, estará a cargo da grande soprano brasileira Eliane Coelho, que nos últimos anos ofereceu em Manaus interpretações memoráveis de ópera como “La Gioconda”, de Ponchielli, e “Lady Macbeth de Mtsensk”, de Shostakovitch. Tem tudo para ser interessante. Em tempo: além de Yerma, o festival vai resgatar também “Guerras de Alecrim e Mangerona”, de Antônio Teixeira, ópera em um ato do século 18, com libreto de Antônio José da Silva, o Judeu.
2012
2011
2010
2009