As óperas não costumam figurar entre as mais importantes criações de Villa-Lobos. Não se sabe ao certo nem mesmo quantas ele compôs – alguns catálogos falam em dez títulos, mas as partituras de apenas três delas parecem ter sobrevivido: Izath, Yerma e A Menina da Nuvens. Esta última foi escrita nos anos 50 e, depois da primeira montagem, em 1960, só voltaria aos palcos em 2009, numa produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte agora reapresentada no Teatro Municipal de São Paulo.
Não existe outra maneira: é a presença regular no palco que permite a constante reavaliação de uma obra. Se vale para toda a criação de Villa-Lobos, a premissa é particularmente verdadeira no caso de A Menina das Nuvens. Ouvida novamente, dando continuidade ao trabalho de interpretação iniciado pelo maestro Roberto Duarte, responsável pela edição da partitura, em Belo Horizonte, a música soa ainda mais rica em sua expressividade – e ajuda a compreender o Villa da maturidade.
A partitura da ópera, baseada em peça infantil de Lucia Benedetti sobre menina que é levada pelo vento a viver no céu, é desigual. O primeiro ato tem uma orquestração inventiva e o bom desempenho da Sinfônica Municipal revela com transparência a inventividade melódica do compositor, aliada ao domínio da técnica do “falar cantando” que o coloca em diálogo com os caminhos do gênero nas primeiras décadas do século 20, de maneira bastante pessoal, ajudando a colocá-lo no panorama mais amplo da composição no período. No segundo ato, porém, o recurso torna-se cansativo, arrastando o desenvolvimento da narrativa. Até que, no ato final, o grande Villa está de volta, com a inspiração seresteira se combinando a harmonias que evocam a música francesa de Debussy e constroem atmosferas muito bonitas.
Mas, em ópera, a música conta apenas parte da história. Nesse sentido, trunfo tão importante quanto o trabalho de resgate de Duarte é a concepção do diretor William Pereira. Em um ambiente cênico plasticamente muito bonito, ele dá vida às imagens mágicas sugeridas pelo libreto e pela música do compositor – e o resultado é um todo coeso, que parte da música para reinventá-la. Exemplo mais bem acabado disso talvez seja a cena, no terceiro ato, em que a menina das nuvens evoca a ajuda da Lua, sem dúvida um dos pontos altos da escrita do compositor para a voz.
O elenco esteve bem cênica e musicalmente, confirmando os talentos da soprano Gabriela Pacce (Menina), dos barítonos Lício Bruno (Tempo), Inácio de Nonno (Corisco) e Homero Velho (Vento Variável), das meios-sopranos Adriana Clis (Lua), Regina Elena Mesquita (Rainha) e Sílvia Tesuto (Mãe), e do tenor Flavio Leite (impagável como o Soldado) e revelando novas vozes a que se deve prestar atenção: a soprano Fabíola Protzner (Anita) e o tenor Giovanni Tristacci (Príncipe). Uma nota dissonante foi a falta de equilíbrio, em alguns momentos, entre vozes e orquestra, para o que contribuiu os desníveis de acústica que a reforma parece não ter conseguido resolver.
Anunciado agora à tarde, o projeto de gravar todas as sinfonias do compositor vai levar cinco anos e será regido pelo maestro Isaac Karabtchevsky. Cada uma das obras vai ganhar nova edição pela editora Criadores do Brasil, que pertence à Fundação Osesp. Mais informações em breve.
Uma atualização, agora com o cronograma de lançamento (selo BIS mundo afora e Biscoito Fino no Brasil):
• 2011 – Sinfonia nº 3, “A Guerra” e Sinfonia nº 4, “A Vitória”
• 2012 – Sinfonia nº 6, “Sobre a linha das montanhas do Brasil” e Sinfonia nº 7
• 2013 – Sinfonia nº 10, “Ameríndia”
• 2014 – Sinfonia nº 1, “O Imprevisto” e Sinfonia nº 2
• 2015 – Sinfonia nº 8, Sinfonia nº 9 e Sinfonia nº 11
• 2016 – Sinfonia nº 12 + Uirapurú e Mandú-Çarará
Foi uma dupla revelação. Na noite da última sexta-feira, em Manaus, a plateia presente ao Teatro Amazonas teve a oportunidade de assistir à primeira montagem brasileira completa da Yerma, de Villa-Lobos. De um lado, era redescoberta uma faceta pouco conhecida do compositor, em uma partitura totalmente diferente daquilo que conhecemos dele. Mas há também uma simbologia na chegada de Yerma aos palcos: a obra, afinal, pode ser vista apenas como a ponta de um enorme repertório operístico brasileiro, perdido em edições manuscritas, que permanece longe dos teatros e do público.
Yerma foi escrita por Villa-Lobos nos anos 50, encomenda de uma companhia americana. A inspiração era a peça de mesmo nome de Federico Garcia Lorca, escrita em 1934 e parte da chamada Trilogia Dramática da Terra Espanhola, composta ainda por Bodas de Sangue (1932) e A Casa de Bernarda Alba (1936). O tema comum é o embate entre o indivíduo e a norma social. Na Yerma, ele se dá por meio da história dessa mulher às voltas com o desejo não realizado de ser mãe. Yerma quer dizer “árida” – e a incapacidade de gerar um filho a coloca à margem da sociedade. A impossibilidade de ser mãe, no entanto, está relacionada à impossibilidade de se concretizar desejos; a aridez está também no caráter opressor da comunidade, onde liberdade e autoridade se opõem e os instintos e desejos precisam ser suprimidos. Nesse sentido, funcionou muito bem a concepção cênica de Alex Aguilera, que fez da cama, presente todo o tempo em cena, o espaço onde tanto a repressão como o desejo de liberdade se dão.
Villa-Lobos, cansado de esperar pelo libreto em inglês, acabou escrevendo a ópera sobre o texto original de Lorca, marcado pela oposição entre passagens secas e lacônicas e outras de tom mais lírico. Trabalhar com o texto original com certeza influenciou a música escrita pelo compositor. Sua partitura alterna também momentos de violência, como toda a sequência inicial – que lembra o Strauss da Salomé – ou o dueto final entre Yerma e Juan, com o lirismo que parece representar o flutuar do desejo na conversa repleta de simbolismo entre Yerma e o pastor Victor. Villa-Lobos não recorre a melodias folclóricas, brasileiras ou espanholas. A partitura surge do drama e se autoalimenta em uma estrutura contínua que abdica da separação de cenas e sugere um arco amplo em direção ao clímax da história.
Se há um reparo a ser feito na Yerma, está na orquestração, em alguns momentos desequilibrada, pesada demais, tornando difícil a audição dos cantores. O maestro Luiz Fernando Malheiro, diretor do Festival Amazonas, conta que Mindinha Villa-Lobos confidenciou a Mário Tavares, que interpretou com cortes a partitura, nos anos 80, no Rio, que o próprio compositor reconhecia problemas, manifestando interesse em uma revisão que, no entanto, nunca ocorreu. Vale lembrar que o mesmo problema já está presente em A Menina das Nuvens, ópera escrita por volta da mesma época, e apresentada no ano passado no Palácio das Artes de Minas.
O que a encenação de Yerma revela de mais importante, porém, é um Villa-Lobos universal, digamos assim, em que toda a investigação do folclore não é um fim em si mesmo mas, antes, parte de uma personalidade musical forte que, ao mesmo tempo, não se furta de dialogar com o que acontecia à sua volta na criação musical. Pelas possibilidades expressivas da música e da linha de canto, que leva os cantores aos limites de seus registros, Yerma revela um compositor bastante à vontade com a linguagem operística – e que continua a desafiar crítica e público com uma criação extremamente pessoal.
Se Carlos Gomes é figura fundamental na ópera do século 19, há todo um repertório nacional ainda a ser descoberto. Leopoldo Miguez escreveu Pelo Amor!; Alberto Nepomuceno compôs Artémis e Abul; há três títulos de Henrique Oswald, La Croce D”Oro, Le Fate e Il Neo, que nem chegaram ao palco; O Contratador de Diamantes, de Francisco Mignone, teve poucas récitas; Um Homem Só, de Guarnieri, foi feita uma vez. A lista poderia continuar, envolvendo a recuperação de episódios como a tentativa de criação, na segunda metade do século 19, de uma escola brasileira de ópera, em torno da qual trabalharam nomes como Quintino Bocaiuva e Machado de Assis. Alguém se habilita?
(Caderno 2 + Música, 1/5/2010)
O Festival Amazonas de Ópera começa no dia 23 de abril, em Manaus, com uma montagem da ópera “Yerma”, de Villa-Lobos. A partitura, baseada na peça de mesmo nome do espanhol Garcia Lorca, narra a história de uma mulher às voltas com o desejo não realizado de ser mãe e as convenções da sociedade – e é uma das mais interessantes criações de Villa-Lobos. Coisas do Brasil, a ópera teve apenas uma interpretação depois da estreia, nos anos 70, no Rio, em versão de concerto. Agora, ganha o palco de Manaus, o que por si só já seria boa notícia. Mas tem mais: informações que chegam do Amazonas dão conta de que o papel-título, que seria interpretado pela espanhola Ana Lucrecia Garcia, estará a cargo da grande soprano brasileira Eliane Coelho, que nos últimos anos ofereceu em Manaus interpretações memoráveis de ópera como “La Gioconda”, de Ponchielli, e “Lady Macbeth de Mtsensk”, de Shostakovitch. Tem tudo para ser interessante. Em tempo: além de Yerma, o festival vai resgatar também “Guerras de Alecrim e Mangerona”, de Antônio Teixeira, ópera em um ato do século 18, com libreto de Antônio José da Silva, o Judeu.
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