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João Luiz Sampaio

Foto de Clayton de Souza/AE

Da última vez em que foi visto no Brasil, o tenor italiano Fabio Armiliato estava sobre o palco, mas dentro do chuveiro, cantando uma ária da ópera I Pagliacci em uma das mais absurdas e hilariantes cenas de Para Roma com Amor, de Woody Allen. Na ficção, Armiliato vive um agente funerário com uma voz incrível, mas incapaz de cantar fora do banheiro. Na vida real, a participação no filme tirou do anonimato do grande público um nome já bastante conhecido no universo da ópera. Aos 45 anos, o tenor é um dos principais cantores italianos da geração pós-Luciano Pavarotti – e o mesmo se pode dizer, entre as sopranos, de Daniela Dessì, sua mulher, com quem ele faz amanhã e domingo concertos no Teatro Municipal.

Puccini e Verdi são os destaques do programa que os dois cantam por aqui – e suas óperas têm ocupado a principal parte da carreira dos dois nos últimos anos. Ele conta que vem de uma família “não musical”, mas “apaixonada por música”. “Meu pai era um entusiasta de arte em geral e, principalmente, da música”, conta ele ao Estado depois de um ensaio, na manhã desta quarta-feira, 29, na Sala Olido. “A todo instante ouvíamos gravações, em especial de cantores como Beniamino Gigli, que aliás esteve muitas vezes em São Paulo”, diz. Em Gigli, impressionava a beleza do canto – e, ao mesmo tempo, a naturalidade com que sua voz chegava ao ouvinte. E o contato, desde cedo, com os grandes nomes da ópera acabou por levá-lo a tentar uma carreira no meio – seu irmão, aliás, Marco Armiliato, é maestro, presença constante em teatros como o Metropolitan Opera House de Nova York. O começo da carreira se deu, lembra o tenor, em papéis pesados, de autores como Verdi ou Puccini, além de Andrea Chenier, na ópera de Umberto Giordano, símbolo do período verista. “Não foi uma trajetória ortodoxa. Saí cantando esses personagens até que me dei conta de que seria preciso dar um passo para trás e voltar ao repertório do bel canto, antes de retomar à música que faço hoje.”

Já Daniela Dessì seguiu um caminho distinto. A tia, diz, tinha uma voz incrível de meio-soprano, “mas era tímida demais para seguir uma carreira”. “Por conta disso, cantou sempre em corais. Mas insistia em uma educação musical na família e eu, aos 4 anos, comecei a estudar piano.” Pouco antes de completar 15 anos, Daniela foi levada pela tia a participar como figurante em uma apresentação ao ar livre, nas Termas de Caracalla. A ópera era Aida. “Claro, eu me apaixonei na hora e, logo depois, fui estudar canto.” A estreia viria dois anos depois. “Mas, ao contrário do que aconteceu com o Fabio, segui um caminho mais tradicional, quer dizer, comecei com os autores barrocos, depois cantei compositores do século 18, Mozart, Rossini. E só mais tarde encarei o desafio de óperas de Verdi e Puccini, quando já estava mais madura tanto vocalmente como no que diz respeito à minha experiência de vida.”

Eles costumam se apresentar em conjunto, seja no palco de concertos, seja em montagens de ópera. Há dois anos, gravaram na Itália uma Traviata, regidos por John Neschling. Armiliato, na verdade, esteve no Brasil nos anos 90, cantando Don Carlo, no Teatro Municipal do Rio. Daniela faz, amanhã e depois, sua estreia por aqui. E diz que espera voltar. Armiliato, por sua vez, acaba de estrear no papel de Otelo, ópera de Verdi baseada no texto de Shakespeare. É um desafio enorme para o tenor. “Ainda mais quando você leva em consideração todos os grandes intérpretes do passado, como Plácido Domingo, Mario del Monaco, Ramon Vinay. Mas você então respira fundo e se dedica a compreender e a estudar a partitura”, explica.

Daniela Dessì, em entrevista recente, falava de Renata Tebaldi, Maria Callas, Renata Scotto, Mirella Freni e Montserrat Caballé como influências importantes em sua trajetória. É preciso estudar o que fizeram de certo – e errado. “Não dá para esquecer do passado, é preciso estar em contato com ele. É como um pintor que se recusa a ver um quadro de Giotto. Ouvir os cantores do passado é ler um livro de história. A nós, cabe hoje entender a proposta artística deles e, claro, nesse processo, descobrir a nossa própria personalidade, aquilo que nos interessa como artista. Mas é bobagem achar que, na hora de formar a sua personalidade, é preciso esquecer o passado. Não, nunca esqueça.”

Os dois têm uma visão bastante objetiva do mundo da ópera. Ele reconhece que, em pouco mais de 50 anos, o gênero deixou de ser um espetáculo popular, “o mais popular”, perdendo espaço para a televisão, o cinema. Recuperar um espaço na sociedade, diz, só se faz com educação musical. Ela concorda. “Não adianta levar a música às crianças de vez em quando. É preciso fazer dela parte da rotina de formação nas escolas. Mas isso de nada vai adiantar se o que é mais importante não ficar claro: a ópera é paixão. Ouço muitos depoimentos de pessoas que me dizem: puxa, nunca havia entrado num teatro de ópera e adorei o espetáculo, mesmo sem entender tudo o que estava acontecendo.” A soprano, no entanto, ao tocar no assunto, não perde a chance de cutucar alguns colegas. “A ópera jamais pode ser tratada como show biz e isso é algo que as pessoas nem sempre entendem. No fundo, o que é mais interessante: uma diva que dura alguns anos e desaparece ou uma diva que fica 30 anos em atividade e desenvolve ao longo do tempo uma trajetória de respeito?”

Sobre a participação no filme de Woody Allen, Armiliato lembra do primeiro contato com o cineasta, que pediu a ele que comparecesse a uma audição. “Ele já me conhecia do palco e sabia que eu também falava inglês, o que era importante. Fiquei surpreso com o respeito que não só ele mas toda a equipe de produção tem pelos profissionais da ópera. Tudo era conversado, nada foi imposto.” O interessante, para ele, foi experimentar uma nova linguagem. “Claro, você no palco às vezes é filmado, mas é diferente cantar para a câmera. No teatro, a reação do público é imediata, você sente como a apresentação está correndo, se está agradando ou não. Num set de filmagens, você fica no escuro e precisa confiar no que o diretor está dizendo. E foi uma honra para mim trabalhar com um gênio como Woody Allen”, diz, e é logo interrompido pela mulher. “E uma enorme honra para ele trabalhar com você”, diz, divertindo-se. Ela não participou das filmagens, mas brinca que ele em casa é um pouco como seu personagem – não para de cantar. “E eu fico reprisando a cena do chuveiro o tempo todo quando estamos em casa, acho muito divertido.”

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As óperas não costumam figurar entre as mais importantes criações de Villa-Lobos. Não se sabe ao certo nem mesmo quantas ele compôs – alguns catálogos falam em dez títulos, mas as partituras de apenas três delas parecem ter sobrevivido: Izath, Yerma e A Menina da Nuvens. Esta última foi escrita nos anos 50 e, depois da primeira montagem, em 1960, só voltaria aos palcos em 2009, numa produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte agora reapresentada no Teatro Municipal de São Paulo.

Não existe outra maneira: é a presença regular no palco que permite a constante reavaliação de uma obra. Se vale para toda a criação de Villa-Lobos, a premissa é particularmente verdadeira no caso de A Menina das Nuvens. Ouvida novamente, dando continuidade ao trabalho de interpretação iniciado pelo maestro Roberto Duarte, responsável pela edição da partitura, em Belo Horizonte, a música soa ainda mais rica em sua expressividade – e ajuda a compreender o Villa da maturidade.

A partitura da ópera, baseada em peça infantil de Lucia Benedetti sobre menina que é levada pelo vento a viver no céu, é desigual. O primeiro ato tem uma orquestração inventiva e o bom desempenho da Sinfônica Municipal revela com transparência a inventividade melódica do compositor, aliada ao domínio da técnica do “falar cantando” que o coloca em diálogo com os caminhos do gênero nas primeiras décadas do século 20, de maneira bastante pessoal, ajudando a colocá-lo no panorama mais amplo da composição no período. No segundo ato, porém, o recurso torna-se cansativo, arrastando o desenvolvimento da narrativa. Até que, no ato final, o grande Villa está de volta, com a inspiração seresteira se combinando a harmonias que evocam a música francesa de Debussy e constroem atmosferas muito bonitas.

Mas, em ópera, a música conta apenas parte da história. Nesse sentido, trunfo tão importante quanto o trabalho de resgate de Duarte é a concepção do diretor William Pereira. Em um ambiente cênico plasticamente muito bonito, ele dá vida às imagens mágicas sugeridas pelo libreto e pela música do compositor – e o resultado é um todo coeso, que parte da música para reinventá-la. Exemplo mais bem acabado disso talvez seja a cena, no terceiro ato, em que a menina das nuvens evoca a ajuda da Lua, sem dúvida um dos pontos altos da escrita do compositor para a voz.

O elenco esteve bem cênica e musicalmente, confirmando os talentos da soprano Gabriela Pacce (Menina), dos barítonos Lício Bruno (Tempo), Inácio de Nonno (Corisco) e Homero Velho (Vento Variável), das meios-sopranos Adriana Clis (Lua), Regina Elena Mesquita (Rainha) e Sílvia Tesuto (Mãe), e do tenor Flavio Leite (impagável como o Soldado) e revelando novas vozes a que se deve prestar atenção: a soprano Fabíola Protzner (Anita) e o tenor Giovanni Tristacci (Príncipe). Uma nota dissonante foi a falta de equilíbrio, em alguns momentos, entre vozes e orquestra, para o que contribuiu os desníveis de acústica que a reforma parece não ter conseguido resolver.

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O Municipal em reforma/ Tiago Queiroz/AE

O Municipal em reforma/ Tiago Queiroz/AE

O Teatro Municipal de São Paulo completa 100 anos em março de 2011 – e, nos bastidores, boatos dão conta de uma festa de arromba sendo aprontada. A dúvida é se o salão estará em ordem a tempo. Músicos da Sinfônica Municipal, após assembleia, acabam de pedir a saída do maestro Rodrigo de Carvalho do posto de regente titular; em resposta, concertos até agosto foram cancelados, resgatando o fantasma dos contratos precários de trabalho dos artistas. E não é só isso: representantes dos demais corpos estáveis da casa questionam a ausência de um diretor artístico no projeto que prevê a transformação do Municipal em uma fundação; e as últimas estimativas sobre a obra pela qual passa o Municipal preveem que o teatro somente será reaberto em julho de 2011.

Carvalho ocupava o posto de regente-assistente da Sinfônica Municipal, trabalhando ao lado do então titular José Maria Florêncio, que deixou o cargo no fim de 2008. Passou, então, por meio de uma portaria de designação, a desempenhar as funções de regente titular. Na carta enviada ao prefeito Gilberto Kassab, ao secretário Carlos Augusto Calil, a Carvalho e à diretora do Municipal, Beatriz Amaral, o grupo de spallas da sinfônica escreve que os músicos aceitaram a decisão por acreditarem ser uma solução provisória. “Com a extensão desse prazo, acumularam-se as evidências da limitada competência artística do maestro Rodrigo de Carvalho. (…) Além disso, as interferências unilaterais do maestro na hierarquia artística interna da orquestra, juntamente à restrição do diálogo com os representantes artísticos da orquestra, causaram uma deterioração contínua do clima de trabalho, chegando a um ponto de insustentabilidade.”

Por conta disso, fizeram uma eleição interna, com voto secreto. Das 112 vagas, três não estão preenchidas e, descontadas ainda as cinco abstenções, foram 104 os votantes. Destes, 10 votaram nulo, levando a um total de 94 votos válidos; 88 optaram pela não permanência de Carvalho; quatro o referendaram como regente titular; 2 votaram em branco. Dos 88 que querem a saída do maestro, 78 dão como justificativa “questões artísticas e desempenho gerencial”. Os músicos fizeram ainda uma votação para chegar a uma lista tríplice de maestros candidatos ao posto: Luiz Fernando Malheiro, Alex Klein e Carlos Moreno. Procurado pelo Estado, Carvalho preferiu responder às perguntas por e-mail. Apesar dos números da votação, diz que o pedido pela sua saída representa a “vontade individualista de alguns integrantes”; e questiona a presença de questões artísticas como justificativa. “O que está sendo questionado por parte da orquestra não é minha competência artística, mas o fato de ter imprimido à Sinfônica Municipal – um grupo de músicos mantido pela municipalidade para estar à disposição 30 dias por mês, com salários pagos pelo cidadão paulistano – padrões mínimos de qualquer gestão pública, como desconto do dia, por faltas a atividades agendadas com antecedência”, diz. Segundo um representante dos músicos, porém, ninguém questiona a autoridade do maestro, mas, sim, a maneira como ele a tem exercido. “Há regras internas que preveem advertências e suspensões e a demissão sumária de alguns integrantes vai contra elas, e acabaram revertidas”, diz.

Após a entrega da carta, os músicos souberam do cancelamento dos concertos da orquestra até agosto – entre eles, a apresentação no Festival de Inverno de Campos do Jordão, com a pianista Cristina Ortiz. Aqui, a história se ramifica em versões. Os músicos dizem não conhecer os motivos do cancelamento; a direção, em contato com o festival, afirmou que, “amotinada”, a orquestra não poderia participar, versão corroborada pela Secretaria Municipal de Cultura, em e-mail enviado à Redação. Possível árbitro na questão, o diretor do evento, Paulo Zuben falou com o Estado. “Sei tanto quanto você, mas não cancelei o concerto, há o compromisso com a solista e ingressos à venda”, diz. “Quando ouvi falar do motim, conversei com músicos e eles, em uma carta enviada na última sexta, garantiram que vão se apresentar. Hoje (segunda-feira) tentei falar com a diretora, mas fui informado de que ela havia partido em férias. Achei estranho e, sem interlocutor, apelei ao secretário Estadual de Cultura, pedindo a ele que procurasse seu colega de município em busca de mais informações.”

O cancelamento dos concertos resgata um antigo fantasma da história do Teatro Municipal. Cerca de 80% dos músicos da Sinfônica Municipal têm contratos provisórios de trabalhos, que precisam ser renovados periodicamente – a criação da fundação, aliás, tem como um dos objetivos resolver essa questão. Para que os contratos sejam feitos, no entanto, é preciso discriminar os concertos e obras dos quais os artistas vão participar. “Se os concertos são cancelados, não há contrato e, portanto, mais de 80% da orquestra perde o vínculo e ela deixa de existir propriamente dita. Tenho colegas que estão desesperados com essa possibilidade”, diz um experiente integrante da orquestra, que pediu para não ser identificado.

A Secretaria Municipal de Cultura, em resposta enviada por e-mail, diz que “os contratos serão renovados normalmente, mas a retomada dos concertos depende da manifestação do conjunto da Sinfônica Municipal no sentido de colaborar com o maestro interino e a programação por ele proposta”. Representantes dos músicos ouvidos pelo Estado garantem que a orquestra está disposta a cumprir a programação, mesmo que sob a direção de Rodrigo de Carvalho, “antes que uma opção seja encontrada”. Na segunda-feira, porém, funcionários do Municipal informaram que tanto Carvalho quanto a diretora-geral Beatriz Amaral estavam em férias a partir daquele dia, retornando apenas em um mês.

Ainda sobre a polêmica envolvendo o nome de Carvalho, a Secretaria afirma que ele “nunca foi regente titular da Sinfônica Municipal”. “É seu interino.” Mesmo que o material de divulgação da temporada da orquestra no Auditório Ibirapuera, que está servindo de palco para o grupo durante a reforma do teatro, o apresente como regente titular, a mensagem da Secretaria informa que “a intenção era a de aguardar a criação da fundação e só então definir o regente titular de sua orquestra”. “A manifestação dos músicos precipitou o processo e a Secretaria de Cultura pretende convidar maestros para regerem o conjunto.”

A permanência ou não de Carvalho, porém, parece ser apenas um aspecto de uma discussão maior, que envolve a programação durante o período da reforma do palco e a transformação do Teatro Municipal em uma fundação de direito público, que está em discussão na Câmara Municipal. “Estamos nos sentindo perdidos e vendo a qualidade do trabalho se perder”, diz uma representante do Coral Lírico Municipal, um dos corpos estáveis do teatro. “Sabemos que podemos fazer melhor do que isso, mas estamos sem interlocutor dentro do teatro. Ouvimos falar de uma programação sendo montada para 2011, quando o teatro completa 100 anos, mas o que sabemos é pela imprensa”, diz, corroborando informações dadas por membros de outros grupos da casa, como o Balé da Cidade e a Orquestra Experimental de Repertório.

Críticas. A questão que os músicos colocam é a ausência de um diretor artístico no projeto da fundação, que teria apenas um diretor-geral e um conselho de programação. O formato vem sendo criticado também por personalidades do mundo musical. O maestro John Neschling, por exemplo, escreveu em seu blog, o Semibreves: “É sabido no meio musical que se deseja que o Teatro Municipal seja dirigido por uma comissão artística. Não conheço nenhum teatro no mundo que seja dirigido artisticamente por uma comissão. No Brasil, onde até políticos e editores se metem a programar temporadas musicais, uma solução como essa não é novidade. Na minha opinião, trata-se de uma guerra anunciada e de um desastre com hora marcada. Se isso virar lei, o Teatro Municipal estará condenado a uma mediocridade eterna (mediocridade no sentido literal de qualidade da média), até que essa lei seja revogada, o que sabemos pode levar décadas”, escreveu. E completou: “A falta de uma direção artística no nosso teatro lírico acaba por permitir erros desse quilate: uma orquestra, há muito tempo sem projeto e com concertos esparsos aqui e ali, terá como primeiro desafio do ano que vem tocar uma partitura dificílima, só enfrentada habitualmente por orquestras com muitos anos de trabalho constante e profundo, que já vem tocando sistematicamente todo o repertório clássico, romântico e pós-romântico”, pontuou, fazendo referência ao anúncio de Lulu, de Alban Berg, como um dos títulos previstos para a temporada de 2011, que teria ainda a presença dos pianistas Nelson Freire, Maria João Pires e Martha Argerich.

As declarações do maestro Neschling não receberam resposta oficial por parte da Prefeitura, mas o Estado teve acesso a uma carta enviada a ele pela diretora do Municipal, Beatriz Amaral, que dá pistas sobre como será desenvolvida a direção artística da fundação. “Explico ao maestro que o projeto é de uma fundação pública e não privada e prevê um diretor musical, um diretor de dança e um diretor de formação: são esses profissionais que se responsabilizarão por elaborar a programação. E, enquanto a fundação não se instala, há uma comissão especial constituída por profissionais de comprovada competência que se responsabiliza pela programação a ser desenvolvida em 2011″, diz a carta. Os artistas do teatro, porém, insistem que não estão sendo consultados sobre os planos.

A presença de um diretor musical, um diretor de dança e um diretor de formação contraria a nota oficial enviada à imprensa pela Secretaria Municipal de Cultura quando o maestro Jamil Maluf deixou o posto de diretor artístico do Municipal, em novembro de 2009. Explicando que a saída de Maluf tinha como objetivo facilitar a transição para o novo modelo de gestão, a nota dizia que, quando da instalação da fundação, “será criado um Conselho de Orientação Artística composto pela diretora do teatro, Beatriz Franco do Amaral; pela diretora do Balé da Cidade, Mônica Mion; pelo regente da Sinfônica Municipal, Rodrigo de Carvalho; pelo regente da Experimental de Repertório, Jamil Maluf; por um representante do Quarteto de Cordas; pelo regente do Coral Lírico, Mário Zaccaro; pelo regente do Coral Paulistano, Tiago Pinheiro; e pelos diretores das escolas de dança e música do município, Esmeralda Penha Gazal e Henrique Gregori”.
Questionada sobre a questão, a Secretaria diz que “não conhecemos manifestações contrárias ao formato proposto”. “O Teatro Municipal é composto de corpos artísticos (duas orquestras, dois coros, um balé e um quarteto), mas também de duas escolas profissionalizantes e de uma central de produção. A recente experiência mostrou que um diretor artístico não tem condições de coordenar todas essas atividades, e por esse motivo se propõe na futura fundação a figura de um diretor musical.” A nota diz ainda que, ao contrário do que foi vinculado na imprensa, a reforma do palco será concluída em janeiro de 2011.

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Apesar do subtítulo Ressurreição, a Sinfonia n.º 2 de Gustav Mahler não deve ser compreendida como hino religioso. Para o compositor, compreender Deus como símbolo de eternidade – e a morte como apenas uma transição – está ligado diretamente ao sentido da vida terrena, à permanência da arte e ao diálogo do homem com a natureza.

Pela primeira vez o compositor emprega a voz em uma sinfonia; e trata os timbres de cada instrumento como parte integrante da estrutura da peça. Por isso mesmo, é fundamental o equilíbrio entre os naipes da orquestra na hora de recriar a dramaticidade da música que contrasta momentos de euforia, perda de energia e temor perante a ideia da morte.

No concerto de quinta, foi satisfatório, desde o primeiro movimento, o equilíbrio encontrado pela Petrobras Sinfônica sob o comando de Karabtchevsky. Em que pesem alguns problemas pontuais de afinação e dinâmica, em especial nas seções finais da obra, são bonitos os efeitos conseguidos nas cordas, durante o primeiro movimento, na construção de um clima etéreo; a ironia no terceiro movimento, que descreve a incoerência entre a moral religiosa e a força da natureza; a delicadeza quase contemplativa do Urlicht; ou a tensão crescente do movimento final.

A energia da interpretação de Karabtchevsky vem da percepção do caráter algo teatral na concepção de Mahler, na maneira como ele retrabalha os temas, fiel à ideia de que a composição se faz a partir de blocos que se reorganizam sugerindo novos significados musicais. Onde está Deus? Onde fica o homem entre a natureza, a vida e a morte? Em conflito com a ideia do fim, Mahler escreve em busca de respostas. Deixa como legado, porém, as perguntas certas.

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